Megaprojeto em Casablanca terá capacidade de 115 MW, combinará resíduos, energia solar e gás de aterro e tentará transformar um dos maiores problemas ambientais da cidade em eletricidade
O Marrocos prepara uma megafábrica de US$ 1,5 bilhão capaz de transformar uma montanha de resíduos em fonte de eletricidade. O projeto será construído em Casablanca e deverá processar 1,5 milhão de toneladas de lixo por ano, conforme informações publicadas pela Reuters.
Além disso, a instalação terá capacidade para gerar cerca de 115 megawatts (MW). Segundo o consórcio responsável, a eletricidade poderá abastecer quase 1 milhão de pessoas.
O empreendimento também terá outra missão. A nova estrutura pretende reduzir os impactos ambientais do aterro de Mediouna, o maior do Marrocos. Durante décadas, o local acumulou resíduos, odores e poluição nos arredores da maior cidade do país.
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Portanto, o projeto tenta resolver dois problemas com a mesma infraestrutura: reduzir o impacto do lixo e produzir energia em grande escala.
Megafábrica vai processar mais de 4 mil toneladas de lixo por dia
O tamanho da operação chama atenção.
Quando entrar em funcionamento, a instalação deverá processar aproximadamente 1,5 milhão de toneladas métricas de resíduos todos os anos.
Na média, isso representa mais de 4,1 mil toneladas por dia.
Assim, resíduos que hoje representam um problema ambiental poderão alimentar uma nova infraestrutura energética.

O projeto segue a lógica conhecida como waste-to-energy. Nesse modelo, instalações industriais recuperam energia de materiais que seguiriam para aterros.
Ao mesmo tempo, projetos de grande escala mostram como novas soluções tecnológicas estão sendo usadas para enfrentar problemas de infraestrutura. No CPG, outra iniciativa recente mostrou como uma tecnologia de saneamento conseguiu funcionar sem uma gota de água e já atender mais de 20 mil pessoas.
No Marrocos, porém, a escala será muito maior.
Usina de 115 MW poderá fornecer energia para quase 1 milhão de pessoas
O complexo não dependerá de apenas uma fonte.
A instalação deverá gerar aproximadamente 115 MW a partir de uma combinação de resíduos, energia solar e gás de aterro.
Dessa forma, diferentes fontes alimentarão a produção de eletricidade.
Segundo o consórcio, essa capacidade poderá atender quase 1 milhão de pessoas.
Além disso, o grupo já garantiu um acordo de compra de energia com a estatal ONEE, responsável pelos setores de eletricidade e água do país.
Consequentemente, a eletricidade produzida pelo complexo terá uma rota definida para chegar à rede.
Maior aterro do Marrocos está no centro do projeto
A localização também explica a dimensão do investimento.
O aterro de Mediouna, nos arredores de Casablanca, acumula resíduos há décadas.
Além dos fortes odores, a área enfrenta problemas de poluição que atingem terras agrícolas próximas.
Porém, existe outro desafio.
Conforme os resíduos se decompõem, eles liberam metano e outros gases de efeito estufa.
Por isso, o projeto pretende aproveitar também o gás do aterro para produzir eletricidade.
Assim, um passivo ambiental passa a integrar a infraestrutura energética.
A estratégia acompanha um movimento mais amplo de criação de grandes projetos capazes de reunir diferentes tecnologias em uma única instalação. Recentemente, por exemplo, a SpaceX de Elon Musk anunciou uma megabase de US$ 100 bilhões com produção própria de combustível e geração de energia.
Projeto promete reduzir emissões em escala gigantesca
Os responsáveis também projetam um impacto expressivo sobre as emissões.
Segundo Bruno-Frédéric Baudouin, CEO da Kanadevia Inova, a nova instalação poderá reduzir gases de efeito estufa em volume equivalente a aproximadamente 20% das emissões anuais da Suíça.
O executivo apresentou outra comparação.

De acordo com ele, o efeito seria semelhante a retirar cerca de 300 mil carros das ruas.
Entretanto, esses números representam estimativas apresentadas pelo responsável pelo projeto. Portanto, o impacto real dependerá da operação futura da instalação.
Ainda assim, a dimensão mostra a ambição ambiental do empreendimento.
Consórcio reúne empresas do Marrocos, Japão e Suíça
A construção envolve companhias de diferentes países.
A Kanadevia Inova, empresa suíço-japonesa especializada em gestão de resíduos, lidera o consórcio.
Além dela, participam a companhia marroquina de energia Nareva e a japonesa Itochu.
Já a empresa marroquina Somagec ficará responsável pela construção.
O grupo recebeu uma concessão do governo municipal de Casablanca. Agora, porém, ainda precisa concluir uma etapa decisiva.
O financiamento.
Segundo Baudouin, a construção começará quando o consórcio garantir completamente o financiamento por dívida e capital.
A expectativa é concluir essa fase até o quarto trimestre de 2026.
Construção deve levar cerca de três anos e meio
Depois da liberação financeira, começa a obra.
O consórcio estima aproximadamente 3,5 anos de construção.
No entanto, a usina poderá começar a tratar resíduos antes da conclusão completa.
Segundo o CEO da Kanadevia Inova, o processamento do lixo e a geração de eletricidade poderão começar entre seis e dez meses antes da entrega definitiva.
Assim, o complexo poderá entrar em funcionamento gradualmente.
A previsão atual aponta para operação completa em meados de 2030.
Quando estiver pronta, a instalação deverá se tornar a segunda do tipo na África, segundo a Reuters.
Lixo deixa de ser apenas descarte e passa a ter valor energético
O conceito por trás da instalação muda a lógica tradicional do descarte.
Em vez de simplesmente transportar os resíduos até um aterro, o sistema tenta recuperar parte da energia presente nesse material.
Como consequência, o lixo passa a ter uma função dentro da cadeia energética.
Essa lógica se aproxima de outros modelos que buscam encontrar valor econômico em recursos antes tratados apenas como problema.
No Brasil, por exemplo, iniciativas ligadas à economia circular vêm tentando recolocar materiais e produtos novamente no mercado. Em outra frente, a história de um ex-profissional de RH que investiu R$ 15 mil em uma fazenda de ostras e construiu um negócio que fatura R$ 3,6 milhões mostra como atividades pouco convencionais também podem ganhar escala econômica.
No caso de Casablanca, entretanto, a transformação ocorrerá em nível industrial.
Serão 1,5 milhão de toneladas de resíduos todos os anos.
Usinas que queimam resíduos também enfrentam críticas
Apesar dos benefícios projetados, a tecnologia gera discussão.
Ambientalistas, cientistas e grupos comunitários questionam principalmente instalações que dependem da incineração de resíduos.
Entre as preocupações estão a emissão de partículas e gases de efeito estufa. Além disso, críticos argumentam que grandes usinas podem competir com programas de reciclagem ao criar uma demanda constante por lixo.
Portanto, transformar resíduos em energia não elimina a discussão sobre reciclagem.
Pelo contrário.
O desafio está em definir quais materiais devem ser reciclados, quais podem ser reaproveitados e quais resíduos podem seguir para recuperação energética.
No caso de Casablanca, o projeto também terá de provar seu desempenho ambiental depois que entrar em funcionamento.
US$ 1,5 bilhão para transformar um problema de décadas em eletricidade
Casablanca enfrenta há anos as consequências do enorme volume de resíduos acumulado em Mediouna.
Agora, o Marrocos aposta em uma infraestrutura bilionária para mudar essa realidade.
O investimento previsto chega a US$ 1,5 bilhão.
A instalação deverá processar 1,5 milhão de toneladas de lixo por ano.
Além disso, terá aproximadamente 115 MW de capacidade e poderá fornecer eletricidade para quase 1 milhão de pessoas.
Se o financiamento avançar conforme previsto, as obras poderão começar ainda em 2026. Depois, a operação completa deverá chegar em 2030.
Assim, aquilo que durante décadas representou odor, poluição e emissões de metano poderá se transformar em matéria-prima para uma das maiores infraestruturas de aproveitamento energético de resíduos da África.
