Derek Gow decidiu devolver antigas pastagens à natureza e transformou mais de 300 acres em uma paisagem com lagoas, árvores, áreas úmidas, castores, ratos-d’água, pôneis, búfalos e outras espécies
Durante anos, Derek Gow trabalhou em uma propriedade rural tradicional no oeste da Inglaterra, onde a terra era utilizada para a criação de bovinos e ovinos.
Com o tempo, porém, o fazendeiro, conservacionista e escritor decidiu seguir um caminho diferente.
Em vez de manter toda a área destinada à pecuária convencional, Gow começou a transformar antigas pastagens em um grande projeto de rewilding, estratégia que busca recuperar processos naturais e permitir que a biodiversidade volte a ocupar áreas modificadas pela atividade humana.
-
Cinco estudantes de escola pública no Maranhão criaram forno solar com caixas de papelão e casca de coco para acelerar o trabalho das quebradeiras de babaçu e ampliar a renda familiar
-
Cinco alunas de Goiás trocam produtos tóxicos por extratos vegetais contra o mosquito da dengue e conquistam o segundo lugar em premiação nacional
-
Marcos Palmeira comprou fazenda degradada em Teresópolis, recuperou nascentes e agora prepara 1,3 milhão de m² para receber 200 mil árvores nativas da Mata Atlântica
-
Pessoas que tentavam reconstruir a vida após a prisão começaram desmontando computadores e cabos descartados, receberam treinamento pago e ajudaram a reciclar 45,4 mil toneladas de eletrônicos
Hoje, sua equipe trabalha para devolver à natureza mais de 300 acres de antigas terras de criação de animais, equivalentes a aproximadamente 121 hectares.
E a transformação não ficou apenas na retirada do gado.
Ao longo do processo, foram escavadas mais de 60 lagoas e áreas alagadas, plantadas cerca de 10 mil árvores e espalhado feno verde sobre aproximadamente 200 acres.
Antiga fazenda começou a voltar para a natureza
A mudança representa praticamente uma inversão na maneira como parte da propriedade era utilizada.
Onde antes predominavam terras destinadas à criação de bovinos e ovinos, a proposta passou a ser recriar uma paisagem capaz de sustentar diferentes espécies e recuperar processos ecológicos.
Segundo a Derek Gow Consultancy, o trabalho de rewilding já alcança mais de 300 acres.
Isso corresponde a aproximadamente 121 hectares de antigas terras pecuárias em processo de recuperação ambiental.
O objetivo não é construir um parque completamente controlado.
A estratégia procura criar condições para que água, vegetação, grandes herbívoros e animais silvestres voltem a modificar a paisagem de maneira mais natural.

Mais de 60 lagoas foram abertas nas antigas pastagens
Um dos números mais expressivos da transformação está na água.
A equipe escavou mais de 60 lagoas, depressões e áreas úmidas dentro da propriedade.
Esses ambientes mudam profundamente as condições de uma antiga pastagem.
Áreas alagadas podem criar habitats para anfíbios, insetos, aves e pequenos mamíferos, além de aumentar a diversidade de ambientes disponíveis dentro da mesma propriedade.
O projeto também criou bancos de subsolo voltados para o sul e instalou grandes pilhas de madeira e pedras.
Na prática, elementos que poderiam parecer desorganização em uma fazenda convencional passam a ter função dentro da recuperação da biodiversidade.
Cerca de 10 mil árvores foram plantadas
A água foi apenas uma parte da transformação.
A Derek Gow Consultancy informa que aproximadamente 10 mil árvores foram plantadas durante o processo de recuperação.
Além disso, cerca de 200 acres receberam aplicação de feno verde.
A técnica ajuda a transportar sementes de plantas presentes em áreas de maior diversidade para terrenos onde a vegetação precisa ser recuperada.
Com árvores, áreas úmidas, madeira morta, pedras e diferentes tipos de vegetação, uma paisagem anteriormente simplificada pela atividade pecuária começa a ganhar maior variedade estrutural.
E é justamente essa diversidade que abre espaço para o retorno de diferentes animais.
Castores voltaram para modificar a paisagem
Entre os moradores mais emblemáticos da área estão os castores-europeus.
Os animais foram reintroduzidos no projeto e desempenham um papel especialmente importante porque conseguem alterar o próprio ambiente onde vivem.
Ao construir barragens e modificar cursos d’água, castores podem formar novas áreas úmidas e transformar a dinâmica da paisagem.
Na propriedade de Gow, eles dividem espaço com gansos-cinzentos, ratos-d’água, camundongos-das-colheitas, rãs-de-piscina-do-norte e vaga-lumes, espécies citadas pela própria organização como integrantes da paisagem em recuperação.
A propriedade, portanto, deixou de ser apenas uma área onde árvores foram plantadas.
Ela passou a funcionar como um ambiente onde diferentes espécies participam diretamente da transformação do território.
Pôneis, búfalos, bovinos e porcos também fazem parte do projeto
Curiosamente, devolver terras à natureza não significou retirar todos os grandes animais da propriedade.
O projeto utiliza pôneis Exmoor, búfalos-d’água, bovinos Galloway e porcos do tipo Iron Age para pastoreio e modificação da vegetação.
A diferença está na função desses animais.
Em vez de uma criação convencional concentrada na produção pecuária, eles são utilizados para ajudar a moldar o terreno.
Ao pastar, pisotear, remexer o solo e consumir diferentes plantas, esses animais criam alterações na vegetação e contribuem para formar ambientes variados dentro da propriedade.
Trabalho com castores começou muito antes da transformação da fazenda
A ligação de Derek Gow com a recuperação de espécies britânicas não começou apenas com o rewilding de suas terras.
O conservacionista trabalha há décadas com programas de reintrodução.
A Derek Gow Consultancy informa que ele desempenhou papel significativo no retorno do castor-europeu, do rato-d’água e da cegonha-branca à Inglaterra.
Gow começou a trabalhar com ratos-d’água ainda em 1995 e fundou sua consultoria em 2003.
No caso dos castores, sua atuação inclui diferentes projetos desenvolvidos no Reino Unido.
A lista divulgada pela organização registra trabalhos em locais como Ham Fen, Cotswold Water Park e Knapdale, além de estudos relacionados a projetos posteriores de reintrodução.
Ratos-d’água também se tornaram prioridade
Outra espécie ocupa posição central no trabalho desenvolvido pela equipe.
Os ratos-d’água, que já foram muito comuns nas paisagens de água doce britânicas, sofreram um declínio populacional extremamente acentuado.
Segundo a própria consultoria, a perda de habitat reduziu a população britânica desses animais em mais de 90%.
A pressão exercida pelo vison-americano, espécie introduzida, também se tornou uma ameaça importante.
A estrutura comandada por Gow mantém uma grande unidade dedicada à reprodução desses animais.
Atualmente, são mais de 170 recintos externos de reprodução, além de instalações internas, com produção anual de aproximadamente 2 mil ratos-d’água destinados a diferentes projetos britânicos.
Projeto ultrapassou os limites da propriedade
O trabalho desenvolvido no oeste da Inglaterra acabou se conectando a iniciativas realizadas em diferentes regiões do Reino Unido.
A consultoria afirma ter participado ou liderado projetos envolvendo castores-europeus, cegonhas-brancas, ratos-d’água e camundongos-das-colheitas, entre outras espécies.
No caso dos ratos-d’água, a organização informa que suas equipes participaram, ao longo do tempo, da reprodução e soltura de mais de 40 mil animais, em parceria com diferentes instituições.
Assim, a transformação das antigas pastagens funciona também como parte de uma trajetória mais ampla dedicada à recuperação da fauna britânica.
Fazenda virou espaço para aprender sobre rewilding
A propriedade também passou a receber atividades educacionais.
A equipe promove cursos de rewilding prático, manejo de castores e conservação de ratos-d’água, além de receber profissionais, estudantes universitários e grupos escolares.
A organização informa que as atividades de campo são realizadas em uma propriedade com cerca de 400 acres, aproximadamente 162 hectares, que inclui a área dedicada ao rewilding.
Isso transformou o local não apenas em uma paisagem em recuperação, mas também em um espaço onde as técnicas utilizadas podem ser observadas e discutidas.
De fazenda convencional a laboratório vivo de recuperação ambiental
A história de Derek Gow mostra uma transformação que aconteceu gradualmente sobre uma paisagem anteriormente dedicada à pecuária.
Primeiro vieram mudanças no uso das terras.
Depois, mais de 60 lagoas, aproximadamente 10 mil árvores, centenas de acres tratados com feno verde e estruturas destinadas a aumentar a variedade de habitats.
Na sequência, animais começaram a ocupar e modificar novamente a paisagem.
Castores passaram a trabalhar sobre a água, enquanto pôneis, búfalos, bovinos e porcos ajudam a modificar a vegetação.
O resultado é uma propriedade onde mais de 120 hectares antes utilizados pela pecuária estão sendo devolvidos à natureza, enquanto espécies que desapareceram ou sofreram fortes declínios em diferentes partes da Grã-Bretanha ganham novos espaços.
Mais do que abandonar uma antiga fazenda, Derek Gow decidiu mudar a função de parte das terras e permitir que processos naturais voltassem a participar da construção da paisagem.
O que mais chama sua atenção nessa transformação: os 10 mil árvores plantadas, as mais de 60 lagoas abertas ou o retorno de animais como castores e ratos-d’água às antigas terras de pecuária?

