Com juros médios de 435,9% ao ano no rotativo, bancos pressionam quem atrasa a fatura do cartão de crédito, enquanto o endividamento avança e já alcança 80,4% das famílias brasileiras.
O cartão de crédito virou um sufoco para milhões de brasileiros. Em fevereiro de 2026, os juros médios do crédito rotativo subiram para 435,9% ao ano, a linha mais cara do sistema financeiro, num patamar perto de 30 vezes a Selic, hoje em 14,75%. É essa cobrança que entra em cena quando o cliente não paga o valor total da fatura no vencimento e passa a rolar a dívida com o banco.
O tamanho do buraco já aparece nos números. Dados citados pelo Banco Central mostram que cerca de 40 milhões de pessoas estavam no rotativo em janeiro, com inadimplência de 63,5% nessa modalidade.
Ao mesmo tempo, Gabriel Galípolo afirmou que o país tem algo em torno de 100 milhões a 101 milhões de usuários ativos de cartão de crédito, e que esse instrumento responde por uma fatia relevante do endividamento das famílias.
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As próximas horas serão de tensão crescente em torno do viés a ser adotado pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom/BC) com relação à taxa básica de juros (Selic), ao cabo da reunião dessa quarta-feira (17). Embora o mercado se apresente ‘dividido’ quanto à decisão do colegiado, a tendência mais forte das últimas semanas é de que a taxa se mantenha inalterada no patamar atual de 14,50% ao ano. Já uma ala minoritária ainda ‘aposta’ em uma queda 0,25 ponto percentual (p.p).
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O cartão de crédito virou renda extra para muita gente
O alerta do Banco Central vai além da taxa absurda. Galípolo disse que muita gente está usando linhas emergenciais, como o rotativo, não como saída pontual, mas como extensão da própria renda.
Quando isso acontece, o cartão deixa de ser meio de pagamento e vira uma armadilha permanente, com juros que crescem rápido demais para quem já está apertado.
Essa pressão bate em um país já estrangulado pelas dívidas. Em março de 2026, a PEIC da CNC mostrou que 80,4% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida, novo recorde da série.
Desse total, 29,6% estavam com contas em atraso, e 12,3% diziam não ter condições de pagar o que deviam. O cartão segue como o principal motor desse aperto.
O teto imposto em 2024 não resolveu o problema
Em janeiro de 2024, entrou em vigor a regra que limita os juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura a 100% do valor principal da dívida. Na prática, uma dívida original de R$ 100 não pode virar mais de R$ 200 com juros e encargos, sem contar IOF.
A medida tentou conter o descontrole, mas não derrubou de forma relevante o custo nominal do rotativo, que segue acima de 400% ao ano.
O descompasso tem explicação. O teto reduz o tamanho final da explosão, mas não muda o fato de que o rotativo continua sendo oferecido a taxas brutais.
Pelas regras atuais, os bancos ainda precisam apresentar ao cliente alternativas mais vantajosas, como o parcelamento da dívida, em até 30 dias após a inadimplência. Mesmo assim, o custo segue sufocando quem já entrou atrasado.
Lula entrou no assunto, mas o BC rejeita tabelar o juro
A escalada do endividamento já virou problema político. Em março, Lula pediu ao Ministério da Fazenda e ao Banco Central estudos para aliviar a dívida das famílias e buscar alternativas para reduzir o peso do rotativo.
Galípolo, porém, sinalizou resistência a um novo tabelamento direto das taxas e disse que o BC prefere criar opções de crédito mais adequadas, para evitar que o controle de preços reduza ainda mais a oferta de crédito.
O resultado é um retrato duro do crédito no Brasil: os bancos continuam cobrando uma das taxas mais pesadas do mercado, milhões de brasileiros seguem presos nas dívidas do cartão de crédito, e o governo ainda procura uma saída que não chegue tarde demais para quem já está no vermelho.
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