Mais de 35 anos após afundar no Mar da Noruega com reator nuclear e dois torpedos com ogivas atômicas, o submarino soviético K-278 Komsomolets voltou ao centro das atenções após pesquisadores registrarem em vídeo um vazamento radioativo intermitente, embora sem impacto mensurável na vida marinha local
Mais de 35 anos após afundar no Mar da Noruega, o submarino soviético K-278 Komsomolets ainda libera material radioativo de seu reator em corrosão, segundo pesquisadores noruegueses que registraram o vazamento em vídeo pela primeira vez e apontaram que, apesar disso, a situação permanece amplamente controlada pelos indicadores analisados.
O registro foi feito a partir de dados de sonar, vídeo, sedimentos e água do mar coletados perto do naufrágio em julho de 2019 com o uso de submersíveis operados remotamente. A principal conclusão do estudo é que, embora exista liberação de radiação, o cenário segue contido segundo a maior parte dos parâmetros observados.
O K-278 Komsomolets, identificado pela OTAN como Classe Mike, afundou em 7 de abril de 1989 após um incêndio no compartimento de máquinas. O fogo foi rapidamente intensificado por ar comprimido vindo de um cano rachado do tanque de lastro.
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Dos 69 tripulantes que estavam a bordo, apenas 27 sobreviveram. Muitos dos demais morreram de hipotermia enquanto aguardavam resgate nas águas geladas do Mar da Noruega.
Atualmente, o submarino está a 1.680 metros de profundidade e ainda contém dois torpedos com ogivas nucleares e um reator nuclear.
Mesmo depois de mais de três décadas no fundo do mar, os destroços permanecem estruturalmente preservados a ponto de parecerem recentes, segundo Justin Gwynn, coautor do estudo e integrante da Autoridade Norueguesa de Segurança Radiológica e Nuclear.
De acordo com Gwynn, a embarcação está “simplesmente em posição vertical no fundo do mar”. A avaliação reforça a percepção de que a estrutura, embora corroída, continua suficientemente íntegra do ponto de vista visual.
Vazamento no submarino soviético foi registrado por câmera
Os pesquisadores identificaram uma pluma visível de material radioativo saindo de um tubo de ventilação próximo ao compartimento do reator. A observação foi acompanhada por níveis elevados de radionuclídeos em amostras de água e por proporções de isótopos de plutônio compatíveis com a origem do vazamento.
Com isso, a equipe confirmou que a fonte da contaminação era o combustível nuclear corroído do reator. A análise afastou a hipótese de que os sinais detectados fossem apenas contaminação de fundo decorrente da precipitação radioativa global ou de instalações nucleares próximas.
Gwynn afirmou que os pesquisadores ficaram muito surpresos ao ver material saindo do tubo de ventilação. Segundo ele, investigações russas anteriores já haviam detectado vazamentos naquele ponto.
Apesar da constatação, o estudo não identificou impacto mensurável na vida marinha nem no meio ambiente local. A explicação apresentada é que o material radioativo se dilui rapidamente na água do mar.
Torpedos nucleares seguem sem evidência de vazamento
As amostras de sedimentos coletadas nas proximidades do compartimento de torpedos não mostraram evidências de vazamento de plutônio das ogivas nucleares. Esse resultado indica que os reforços de titânio aplicados por expedições soviéticas e russas em 1994 continuam funcionando.
Entre 1989 e 2007, os submersíveis tripulados Mir, primeiro soviéticos e depois russos, realizaram mergulhos repetidos de avaliação no local do naufrágio. Em 1994, após surgirem evidências de que os torpedos nucleares haviam sido expostos à água do mar, equipes selaram os tubos dos torpedos com tampões de titânio e revestiram outras áreas expostas.
A contenção alcançada desde então é tratada pelos pesquisadores como um resultado ambiental importante dentro do contexto herdado da Guerra Fria. O monitoramento prolongado e as intervenções feitas no local contribuíram para manter sob controle os riscos mais graves ligados às ogivas.
Lições de Chernobyl e cooperação no monitoramento
Para Svetlana Savranskaya, do Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington, a postura adotada por autoridades russas naquele período foi influenciada pelas consequências políticas e internacionais de Chernobyl. Segundo ela, Mikhail Gorbachev e Boris Yeltsin queriam ser vistos como atores internacionais responsáveis.
Savranskaya afirmou que eles aprenderam com Chernobyl que o sigilo não ajuda em situações desse tipo. Ainda assim, ela observou que a Rússia provavelmente omitiu alguns detalhes técnicos, já que o Komsomolets era uma embarcação única, com casco de titânio e capacidade de mergulhar mais fundo do que qualquer submarino de sua época.
Mesmo com essa possível limitação, Savranskaya avaliou que a transparência oferecida foi suficiente para sustentar décadas de monitoramento conjunto eficaz. Esse acompanhamento contínuo ajudou a consolidar a avaliação de que a situação, embora sensível, permanece sob controle.
Recuperar o submarino não é considerado o melhor caminho
As autoridades russas concluíram ainda na década de 1990 que uma recuperação completa do Komsomolets seria cara e perigosa. Qualquer tentativa de salvamento que perturbe os destroços poderia liberar material radioativo na coluna d’água e, potencialmente, na atmosfera.
Por isso, a prioridade atual da equipe de pesquisa não é retirar a embarcação do fundo do mar, mas entender melhor o comportamento do vazamento. O foco está em esclarecer por que a liberação ocorre de forma intermitente, e não contínua, e se ela está se acelerando à medida que o reator sofre corrosão.
Os resultados do estudo foram publicados inicialmente nos Anais da Academia Nacional de Ciências, o Proceedings of the National Academy of Sciences. A publicação reúne as conclusões obtidas a partir das coletas e registros feitos perto dos destroços no Mar da Noruega.
