Maior sistema de cânions do Sistema Solar tem 4.000 km, paredões de até 7 km e minerais que indicam rios e lagos duradouros em Marte por milhões de anos.
No hemisfério marciano existe uma cicatriz tão grande que desafia qualquer referência terrestre. Ela se estende por mais de 4.000 quilômetros, atinge paredões que ultrapassam 7 quilômetros de profundidade e atravessa o planeta como se um continente inteiro tivesse sido rasgado. Essa estrutura é o Valles Marineris, o maior sistema de cânions já identificado no Sistema Solar e, cada vez mais, um arquivo geológico que aponta para água líquida persistente em Marte por intervalos longos do passado.
Por décadas, o cânion foi tratado apenas como um fenômeno tectônico extremo. Hoje, com dados de orbitadores, radares e análises mineralógicas, a narrativa mudou: há evidências consistentes de rios, lagos e colapsos associados à água atuando repetidamente ao longo de milhões de anos.
Um colosso que reescreve escalas planetárias
Comparações ajudam a entender a dimensão do Valles Marineris. Se fosse colocado na Terra, ele atravessaria um continente inteiro, superando o Grand Canyon em comprimento e profundidade combinados. Seus segmentos incluem fossas paralelas, escarpas abruptas e bacias internas capazes de conter lagos gigantescos.
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As paredes expõem camadas sedimentares como páginas de um livro: depósitos empilhados, superfícies erodidas e marcas de colapsos antigos. Essa estratigrafia é crucial porque registra processos repetidos, não um evento isolado.
Por que a tectônica sozinha não explica tudo
Marte não tem placas tectônicas móveis como a Terra. Ainda assim, o Valles Marineris mostra fraturas extensivas associadas ao soerguimento da região de Tharsis (onde ficam os maiores vulcões do planeta). Essa tensão abriu o terreno, mas abrir não é esculpir.
A escavação profunda e a geometria de muitos trechos apontam para erosão prolongada, com materiais removidos em grande volume. É aí que entram os sinais de água: canais de entrada, leques sedimentares, depósitos em camadas finas e minerais hidratados que só se formam na presença de água líquida.
Minerais que denunciam lagos duradouros
Mapeamentos espectrais revelaram argilas (filossilicatos) e sulfatos hidratados nas paredes e no fundo do cânion. Argilas indicam interação água-rocha em condições relativamente neutras; sulfatos apontam para ambientes evaporíticos, como lagos que secaram e voltaram a encher.
Esse conjunto sugere corpos d’água estáveis por longos períodos, não enxurradas rápidas. Em outras palavras, o cânion teria abrigado lagos internos alimentados por drenagens regionais e, possivelmente, por aquíferos subterrâneos pressurizados.
Colapsos gigantescos e vazões catastróficas
Alguns segmentos exibem marcas de desmoronamentos colossais, com blocos do tamanho de cidades e superfícies “arrancadas”. Esses colapsos são compatíveis com liberação súbita de água subterrânea, quando o suporte do terreno falha.
Após o colapso, a água teria escoado por canais profundos, ampliando o cânion e redistribuindo sedimentos. O padrão lembra megainundações terrestres, mas em escala planetária.
Além de rios superficiais antigos, cresce a evidência de que a água subterrânea desempenhou papel central. Em Marte, a criosfera (solo permanentemente congelado) pode aprisionar água em profundidade. Quando o calor geotérmico, o vulcanismo ou fraturas permitem a liberação, surgem vazões intensas.
Esse mecanismo explica por que o Valles Marineris apresenta erosão concentrada em certos trechos e depósitos espessos em outros, além de repetição temporal de eventos.
Tempo profundo: milhões de anos em atividade
A grande virada conceitual é temporal. As feições não se alinham a um único episódio. Camadas sobrepostas e superfícies retrabalhadas indicam múltiplos ciclos: água fluindo, evaporando, retornando. Isso empurra a história para milhões de anos, quando Marte teve clima capaz de sustentar água líquida de forma intermitente, mas recorrente.
Esse cenário é compatível com um Marte menos frio e menos seco do que se imaginava, ao menos em janelas climáticas prolongadas.
Potencial de habitabilidade: onde água e energia se encontram
Onde há água líquida, minerais reativos e energia (calor, gradientes químicos), a vida encontra oportunidades. O Valles Marineris reúne os três: água antiga, interação rocha-água e possíveis fontes hidrotermais associadas a fraturas e vulcanismo regional.
Mesmo que a vida nunca tenha surgido ali, o cânion preserva ambientes que seriam habitáveis por padrões terrestres. Por isso, ele se tornou alvo prioritário para astrobiologia.
Por que o sistema de cânions importa para missões atuais e futuras
Orbitadores continuam refinando mapas de minerais e estruturas. O próximo passo envolve selecionar locais de pouso que maximizem o retorno científico: acesso a camadas antigas, depósitos lacustres e zonas de fratura.
Explorar o Valles Marineris é, na prática, explorar a história hídrica de Marte — e testar hipóteses sobre quando, como e por quanto tempo a água moldou o planeta.
Hoje, a visão mais aceita é híbrida: tectônica abriu, água esculpiu, colapsos ampliaram. O resultado é um cânion que não apenas impressiona pelo tamanho, mas documenta a transição climática de Marte.
Cada nova imagem adiciona detalhes; cada novo mapa mineral fecha lacunas. O Valles Marineris deixou de ser um “rasgo” e passou a ser um registro contínuo.
O que ainda falta descobrir
Ainda há perguntas em aberto: a duração exata dos lagos, a conectividade entre bacias, a química da água em diferentes épocas e o papel do gelo. Respostas virão com novas missões, amostragens direcionadas e, no futuro, exploração humana.
Até lá, o maior cânion do Sistema Solar segue entregando pistas em silêncio de que Marte já foi um mundo onde a água trabalhou com persistência.


Muito linda reportagem. Obrigada