Pesquisadores chineses criaram um método de dessalinização solar tridimensional que funciona sem eletricidade e reduz os custos de produção de água potável.
Para reduzir os custos da purificação hídrica e universalizar o acesso ao recurso, pesquisadores do Instituto de Engenharia de Processos da Academia Chinesa de Ciências e da Universidade de Shenzhen desenvolveram um sistema inédito de dessalinização capaz de retirar o sal da água do mar sem consumir energia elétrica.
A tecnologia, divulgada dia 21 de junho de 2026 na revista científica Advanced Materials, utiliza um novo material fototérmico tridimensional feito de nanopartículas que capta diretamente a luz solar para evaporar e purificar a água salgada.
O protótipo experimental foi testado com sucesso ao ar livre por um ano contínuo em uma pequena área, mostrando-se viável para abastecer regiões isoladas e irrigar plantações sem depender da rede de luz.
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Alto aproveitamento solar e economia no processo
O grande diferencial da pesquisa chinesa reside na estrutura interna do material evaporador, projetada para fazer com que os raios solares sofram múltiplos reflexos e rebatimentos em seu interior. Essa dinâmica física inovadora fez com que o dispositivo alcançasse uma taxa de absorção da radiação solar de impressionantes 90,2%.
Além disso, o método reduziu em 45,7% a quantidade de energia térmica necessária para transformar a água salgada em vapor, agilizando o ciclo de purificação.
De acordo com as projeções financeiras feitas pela equipe de cientistas, caso o equipamento opere por pelo menos dois anos, o custo de produção da água dessalinizada poderá ficar abaixo do preço de mercado da água engarrafada.
Portanto, a descoberta quebra uma barreira histórica do setor, que sempre esteve associado a investimentos bilionários e alta demanda energética. Assim, abre-se uma perspectiva realista de expansão para projetos de longo prazo em territórios afetados pela seca extrema.

Inspiração em botões de roupas garantiu durabilidade
Para alcançar esse nível de estabilidade e funcionamento contínuo, os pesquisadores buscaram uma solução criativa inspirada na estrutura de botões de vestuário cotidianos.
Historicamente, os experimentos com materiais fototérmicos esbarravam em falhas mecânicas crônicas: as partículas microscópicas tendiam a se aglomerar com o tempo, bloqueando as vias de escape do vapor de água.
Além disso, as bases plásticas usadas para unir os componentes sofriam rachaduras e degradação precoce sob a ação do sol forte.
Em contrapartida, os cientistas chineses moldaram as nanopartículas como pequenos botões individuais e usaram polímeros resistentes como se fossem fios para costurá-las de forma estável. Essa arquitetura impediu a união prejudicial das partículas e criou uma estrutura tridimensional muito mais robusta.
Com o objetivo de comprovar a longevidade desse novo composto em cenários marítimos hostis, o material foi submetido a rigorosos testes de estresse em laboratório:
- Imersão completa da estrutura em tanques com água do mar;
- Agitação mecânica contínua a 450 rotações por minuto;
- Manutenção do experimento de desgaste por um ciclo de 30 dias seguidos;
- Análise microscópica posterior que constatou desprendimento praticamente nulo de nanopartículas.
Resultados práticos na produção de água e na agricultura
A validação prática da descoberta foi conduzida em uma instalação compacta com dimensões de apenas 0,75 metro quadrado. O mecanismo contava com um módulo de condensação e um pequeno ventilador alimentado por painéis solares comuns, responsável por direcionar o vapor gerado até a área de coleta de água doce.
Sob condições de luz solar natural, o equipamento foi capaz de gerar mais de 20 litros de água limpa por dia de funcionamento.
Esse montante diário, segundo os dados da pesquisa, atende com folga as necessidades básicas de consumo de um grupo de aproximadamente 10 pessoas, estando em total conformidade com as diretrizes de potabilidade da Organização Mundial da Saúde.
Paralelamente, o projeto estendeu sua atuação para o campo da produção de alimentos. O volume purificado foi direcionado para manter a irrigação de uma plantação teste de 5 metros quadrados, sustentando com sucesso o desenvolvimento completo de culturas agrícolas de espinafre, milho e repolho chinês, sem qualquer conexão com a rede elétrica convencional.
O contraste com o modelo tradicional do Golfo Pérsico
A inovação proposta pela equipe chinesa surge como um contraponto descentralizado e ecológico ao panorama histórico da purificação hídrica no planeta, iniciada em escala comercial na década de 1950. Até hoje, o padrão global baseia-se na osmose reversa, técnica que exige complexas estruturas de engenharia e alto gasto elétrico para impulsionar a água por membranas filtradoras.
Por exigir investimentos volumosos e fartos recursos fósseis, essa atividade acabou concentrada historicamente nos países árabes localizados no Golfo Pérsico. Dados de um relatório divulgado pela corporação de mídia Al Jazeera indicam a magnitude desse cenário concentrado:
- A região do Golfo Pérsico concentra atualmente cerca de 40% de toda a água dessalinizada produzida no mundo;
- Mais de 400 usinas de grande porte operam ativamente ao longo das linhas costeiras daquela zona geográfica;
- O modelo tradicional depende de infraestruturas centralizadas e caras.
Enquanto isso, os cientistas em Pequim e Shenzhen direcionam os próximos passos do estudo no aprimoramento da eficiência da condensação e no barateamento dos insumos fabris.
A meta final é levar o sistema para ilhas distantes, comunidades costeiras isoladas e áreas remotas que sofrem com a falta crônica de água potável e de infraestrutura de energia.
Com informações do Exame
