Descoberto por acaso em 1953 durante perfurações de petróleo na Líbia, o Sistema Aquífero Nubian Sandstone revelou 150 mil km³ de água fóssil sob o Saara e transformou a geopolítica hídrica do Norte da África.
Em 1953, perfurações realizadas no sul da Líbia em busca de petróleo levaram a uma descoberta inesperada: enormes volumes de água potável subterrânea armazenada em profundidade no deserto do Saara. As companhias petrolíferas que buscavam crude encontraram, em vez de óleo, vastas bacias contendo água limpa e potável. A primeira grande ocorrência foi registrada na região de Al-Kufrah, no sudeste da Líbia. Segundo o geólogo Zakaria Al-Keep, análises posteriores indicaram que aquela água fazia parte de um sistema muito maior: o Sistema Aquífero Nubian Sandstone.
O achado foi considerado estratégico. Na época, autoridades líbias avaliavam alternativas para abastecimento hídrico, incluindo dessalinização da água do mar ou importação de água da Europa por navios e oleodutos. A descoberta abriu uma terceira possibilidade: explorar água fóssil acumulada há milhares de anos sob o deserto.
As principais bacias identificadas na Líbia foram Sarir e Kufra, no sudeste, e Murzuq e Jabal Hasawana, no sudoeste.
-
Apenas 28% do fundo dos oceanos foi mapeado com precisão, menos do que já se conhece da superfície de Marte e da Lua, e cientistas apontam o tema como estratégico para o Brasil, com meta global de mapear tudo até 2030
-
Japão quer enterrar uma “esteira de carga” de 500 km entre Tóquio e Osaka para substituir até 25 mil caminhões por dia, mover mercadorias por túneis e corredores automatizados sem motoristas e evitar um colapso logístico em país cada vez mais envelhecido
-
Vietnã despeja areia no Mar do Sul da China e transforma recifes disputados em ilhas artificiais com área equivalente a mais de 1,5 mil campos de futebol, ergue 15 portos nas Spratly e amplia bases no oceano enquanto desafia a pressão chinesa em uma das regiões marítimas mais tensas do planeta
-
Rosie dos Jetsons está virando realidade? China testa “faxineiros robôs” com inteligência artificial dentro de casas por R$ 114, capazes de recolher lixo, dobrar roupas e mapear apartamentos, transformando faxina doméstica em laboratório vivo para empresas que querem ensinar máquinas a agir como humanos
O que é o Sistema Aquífero Nubian Sandstone (NSAS)
O Sistema Aquífero Nubian Sandstone (NSAS) é o maior reservatório conhecido de água fóssil do mundo. Ele se estende por mais de 2 milhões de quilômetros quadrados sob o deserto do Saara, abrangendo Líbia, Egito, Chade e Sudão.
Estima-se que contenha aproximadamente 150.000 km³ de água subterrânea, volume equivalente a cerca de 500 anos da descarga anual do rio Nilo e aproximadamente 20 vezes o volume dos Grandes Lagos da América do Norte.
O sistema também se conecta a formações correlatas que alcançam Israel, Jordânia, Síria e partes da Península Arábica, tornando-se um dos maiores sistemas aquíferos já identificados na Terra.
Água da Era do Gelo: origem fóssil e ausência de recarga significativa
A água armazenada no NSAS é considerada água fóssil. Ela foi acumulada durante o Pleistoceno, período da Era do Gelo, quando o Saara era significativamente mais verde e úmido.
Segundo o hidrogeólogo Cliff Voss, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a água se infiltrou no arenito Nubian há dezenas de milhares até mais de um milhão de anos, antes da desertificação do Saara.
Atualmente, a taxa de recarga é considerada efetivamente zero. Embora enchentes ocasionais possam contribuir marginalmente, o aquífero não faz parte ativa do ciclo hidrológico moderno.
Isso significa que o recurso é finito e não renovável em escala humana.
A água é descrita como limpa, pouco salina e, em muitos casos, potável sem necessidade de tratamento complexo.
Great Man-Made River: o maior projeto de transporte de água subterrânea do mundo
Após a descoberta do aquífero, a Líbia iniciou o projeto Great Man-Made River (GMMR) em 1984, sob liderança de Muammar Gaddafi.
O plano consistia em perfurar aproximadamente 1.300 poços, muitos com profundidade superior a 500 metros, conectados por uma rede de 2.820 km de tubulações subterrâneas.
Cada tubo de concreto pré-estressado possui 7 metros de comprimento e 4 metros de diâmetro. Foram fabricadas cerca de 250.000 seções.
A escavação envolveu quase 100 milhões de metros cúbicos de solo. O sistema transporta água por até 1.600 km até cidades costeiras como Trípoli, Benghazi e Sirte.
Atualmente, o GMMR fornece aproximadamente 6,5 milhões de metros cúbicos de água doce por dia, atendendo cerca de 70% do consumo hídrico da Líbia.
Custos bilionários e engenharia faraônica
O custo estimado do projeto variou entre US$ 25 bilhões e US$ 36 bilhões. A obra foi financiada majoritariamente com receitas do petróleo líbio, sem empréstimos de instituições internacionais.
Reservatórios artificiais com mais de 1 km de diâmetro e capacidade de até 24 milhões de m³ foram construídos como nós de distribuição.
Durante o conflito de 2011 e a intervenção da OTAN, partes da infraestrutura, incluindo a fábrica de tubos em Brega, foram danificadas.
Características geológicas do aquífero Nubian
O Sistema Aquífero Nubian é composto principalmente por arenito ferruginoso duro depositado entre o Pré-Cambriano e o Quaternário em bacias intra-cratônicas.
A profundidade do sistema pode chegar a 4.000 metros, com poços perfurados atingindo até 1.500 metros.
O embasamento geológico é formado por rochas ígneas e metamórficas, incluindo granito, granodiorito, xisto e gnaisse.
A porosidade efetiva varia entre 1% e 7%, influenciando as estimativas de volume total armazenado. O Volume Total de Armazenamento de Água Doce é estimado entre 135 e 150 trilhões de metros cúbicos.
Cooperação internacional e gestão transfronteiriça
Em 1989, Líbia e Egito criaram a Autoridade Conjunta do Aquífero Nubian. Posteriormente, Sudão e Chade aderiram.
Em 2006, foi lançado o Projeto IAEA/UNDP/GEF Nubian, coordenado pela Agência Internacional de Energia Atômica, UNESCO e governos regionais.
O projeto desenvolveu modelos computacionais para simular o fluxo subterrâneo e prever mudanças nos níveis de água ao longo do tempo.
Técnicas de hidrologia isotópica ajudam a compreender a idade e a dinâmica da água.
Sustentabilidade e risco de esgotamento
Autoridades líbias afirmam que o aquífero pode durar centenas de anos. Algumas estimativas falam em 650 anos.
Outros especialistas sugerem que, dependendo das taxas de retirada e crescimento populacional, o recurso pode sofrer declínio significativo ainda no século XXI.
Atualmente, estima-se que a Líbia extraia cerca de 2,4 km³ por ano do sistema. Como se trata de água não renovável, o consumo representa redução permanente do estoque.
Pressão demográfica e riscos geopolíticos
A população dos países da bacia aumentou drasticamente:
- Egito: de 27 milhões em 1960 para mais de 100 milhões atualmente
- Sudão: quintuplicou desde 1960
- Líbia: quadruplicou em 50 anos
- Chade: quadruplicou no mesmo período
A pressão sobre recursos hídricos transfronteiriços aumenta a complexidade geopolítica. Relatos indicam que alguns poços no lado egípcio já apresentaram declínio.
Especialistas defendem diversificação de fontes, incluindo dessalinização e reuso de água.
Reservas gigantescas, mas finitas
O Sistema Aquífero Nubian Sandstone é uma das maiores reservas de água doce do planeta. Contudo, por ser fóssil e não recarregável em escala humana, seu uso exige gestão estratégica de longo prazo.
O que foi descoberto por acidente em 1953 pode ter sido mais valioso que o petróleo. Mas, diferentemente do petróleo, a água é insubstituível.


-
1 pessoa reagiu a isso.