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Maior aquífero fóssil do mundo, com 150 mil km³, foi descoberto acidentalmente em 1953 durante perfuração de petróleo na Líbia e abastece quatro países com água da Era do Gelo que quase não exige tratamento

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 03/03/2026 às 12:30
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Maior aquífero fóssil do mundo, com 150 mil km³, foi descoberto acidentalmente em 1953 durante perfuração de petróleo na Líbia e abastece quatro países com água da Era do Gelo que quase não exige tratamento
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Descoberto por acaso em 1953 durante perfurações de petróleo na Líbia, o Sistema Aquífero Nubian Sandstone revelou 150 mil km³ de água fóssil sob o Saara e transformou a geopolítica hídrica do Norte da África.

Em 1953, perfurações realizadas no sul da Líbia em busca de petróleo levaram a uma descoberta inesperada: enormes volumes de água potável subterrânea armazenada em profundidade no deserto do Saara. As companhias petrolíferas que buscavam crude encontraram, em vez de óleo, vastas bacias contendo água limpa e potável. A primeira grande ocorrência foi registrada na região de Al-Kufrah, no sudeste da Líbia. Segundo o geólogo Zakaria Al-Keep, análises posteriores indicaram que aquela água fazia parte de um sistema muito maior: o Sistema Aquífero Nubian Sandstone.

O achado foi considerado estratégico. Na época, autoridades líbias avaliavam alternativas para abastecimento hídrico, incluindo dessalinização da água do mar ou importação de água da Europa por navios e oleodutos. A descoberta abriu uma terceira possibilidade: explorar água fóssil acumulada há milhares de anos sob o deserto.

As principais bacias identificadas na Líbia foram Sarir e Kufra, no sudeste, e Murzuq e Jabal Hasawana, no sudoeste.

O que é o Sistema Aquífero Nubian Sandstone (NSAS)

O Sistema Aquífero Nubian Sandstone (NSAS) é o maior reservatório conhecido de água fóssil do mundo. Ele se estende por mais de 2 milhões de quilômetros quadrados sob o deserto do Saara, abrangendo Líbia, Egito, Chade e Sudão.

Estima-se que contenha aproximadamente 150.000 km³ de água subterrânea, volume equivalente a cerca de 500 anos da descarga anual do rio Nilo e aproximadamente 20 vezes o volume dos Grandes Lagos da América do Norte.

O sistema também se conecta a formações correlatas que alcançam Israel, Jordânia, Síria e partes da Península Arábica, tornando-se um dos maiores sistemas aquíferos já identificados na Terra.

Água da Era do Gelo: origem fóssil e ausência de recarga significativa

A água armazenada no NSAS é considerada água fóssil. Ela foi acumulada durante o Pleistoceno, período da Era do Gelo, quando o Saara era significativamente mais verde e úmido.

Segundo o hidrogeólogo Cliff Voss, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a água se infiltrou no arenito Nubian há dezenas de milhares até mais de um milhão de anos, antes da desertificação do Saara.

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Atualmente, a taxa de recarga é considerada efetivamente zero. Embora enchentes ocasionais possam contribuir marginalmente, o aquífero não faz parte ativa do ciclo hidrológico moderno.

Isso significa que o recurso é finito e não renovável em escala humana.

A água é descrita como limpa, pouco salina e, em muitos casos, potável sem necessidade de tratamento complexo.

Great Man-Made River: o maior projeto de transporte de água subterrânea do mundo

Após a descoberta do aquífero, a Líbia iniciou o projeto Great Man-Made River (GMMR) em 1984, sob liderança de Muammar Gaddafi.

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O plano consistia em perfurar aproximadamente 1.300 poços, muitos com profundidade superior a 500 metros, conectados por uma rede de 2.820 km de tubulações subterrâneas.

Cada tubo de concreto pré-estressado possui 7 metros de comprimento e 4 metros de diâmetro. Foram fabricadas cerca de 250.000 seções.

A escavação envolveu quase 100 milhões de metros cúbicos de solo. O sistema transporta água por até 1.600 km até cidades costeiras como Trípoli, Benghazi e Sirte.

Atualmente, o GMMR fornece aproximadamente 6,5 milhões de metros cúbicos de água doce por dia, atendendo cerca de 70% do consumo hídrico da Líbia.

Custos bilionários e engenharia faraônica

O custo estimado do projeto variou entre US$ 25 bilhões e US$ 36 bilhões. A obra foi financiada majoritariamente com receitas do petróleo líbio, sem empréstimos de instituições internacionais.

Reservatórios artificiais com mais de 1 km de diâmetro e capacidade de até 24 milhões de m³ foram construídos como nós de distribuição.

Durante o conflito de 2011 e a intervenção da OTAN, partes da infraestrutura, incluindo a fábrica de tubos em Brega, foram danificadas.

Características geológicas do aquífero Nubian

O Sistema Aquífero Nubian é composto principalmente por arenito ferruginoso duro depositado entre o Pré-Cambriano e o Quaternário em bacias intra-cratônicas.

A profundidade do sistema pode chegar a 4.000 metros, com poços perfurados atingindo até 1.500 metros.

O embasamento geológico é formado por rochas ígneas e metamórficas, incluindo granito, granodiorito, xisto e gnaisse.

A porosidade efetiva varia entre 1% e 7%, influenciando as estimativas de volume total armazenado. O Volume Total de Armazenamento de Água Doce é estimado entre 135 e 150 trilhões de metros cúbicos.

Cooperação internacional e gestão transfronteiriça

Em 1989, Líbia e Egito criaram a Autoridade Conjunta do Aquífero Nubian. Posteriormente, Sudão e Chade aderiram.

Em 2006, foi lançado o Projeto IAEA/UNDP/GEF Nubian, coordenado pela Agência Internacional de Energia Atômica, UNESCO e governos regionais.

O projeto desenvolveu modelos computacionais para simular o fluxo subterrâneo e prever mudanças nos níveis de água ao longo do tempo.

Técnicas de hidrologia isotópica ajudam a compreender a idade e a dinâmica da água.

Sustentabilidade e risco de esgotamento

Autoridades líbias afirmam que o aquífero pode durar centenas de anos. Algumas estimativas falam em 650 anos.

Outros especialistas sugerem que, dependendo das taxas de retirada e crescimento populacional, o recurso pode sofrer declínio significativo ainda no século XXI.

Atualmente, estima-se que a Líbia extraia cerca de 2,4 km³ por ano do sistema. Como se trata de água não renovável, o consumo representa redução permanente do estoque.

Pressão demográfica e riscos geopolíticos

A população dos países da bacia aumentou drasticamente:

  • Egito: de 27 milhões em 1960 para mais de 100 milhões atualmente
  • Sudão: quintuplicou desde 1960
  • Líbia: quadruplicou em 50 anos
  • Chade: quadruplicou no mesmo período

A pressão sobre recursos hídricos transfronteiriços aumenta a complexidade geopolítica. Relatos indicam que alguns poços no lado egípcio já apresentaram declínio.

Especialistas defendem diversificação de fontes, incluindo dessalinização e reuso de água.

Reservas gigantescas, mas finitas

O Sistema Aquífero Nubian Sandstone é uma das maiores reservas de água doce do planeta. Contudo, por ser fóssil e não recarregável em escala humana, seu uso exige gestão estratégica de longo prazo.

O que foi descoberto por acidente em 1953 pode ter sido mais valioso que o petróleo. Mas, diferentemente do petróleo, a água é insubstituível.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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