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Lagoa temporária sem peixes feita no barro para atrair anfíbios explode de vida no primeiro ano: pererecas e rãs aparecem, libélulas dominam, aves raras caçam, raposas visitam e a água teima em não secar totalmente

Escrito por Carla Teles
Publicado em 11/01/2026 às 15:11
Assista o vídeoLagoa temporária sem peixes feita no barro para atrair anfíbios explode de vida no primeiro ano pererecas e rãs aparecem, libélulas dominam, aves raras caçam, raposas visitam (4)
Veja como uma Lagoa simples virou lagoa temporária, lagoa sem peixes, lagoa para anfíbios e lagoa de vida selvagem que transforma qualquer quintal.
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Entenda como uma Lagoa simples, pensada como lagoa temporária e lagoa sem peixes, virou lagoa para anfíbios, lagoa de vida selvagem e imã de biodiversidade.

Uma lagoa pequena, cavada no barro e sem nenhum peixe, parece pouco diante de um grande açude. Mas bastou um ano para essa Lagoa temporária, pensada para anfíbios, se transformar em um ponto de encontro de pererecas, rãs, libélulas, aves raras e até raposas, enquanto a água insiste em não secar completamente.

Tudo começou como um experimento simples: criar uma lagoa rasa, sazonal, logo abaixo de um lago de trutas, para oferecer um local de reprodução seguro para espécies que evitam viver junto com peixes. Ao longo da primeira estação de crescimento, a Lagoa mostrou por que ambientes pequenos e bem planejados são capazes de atrair uma cadeia inteira de vida selvagem em pouquíssimo tempo.

Por que uma lagoa sem peixes pode explodir de vida

Na frente da propriedade já existia um lago de trutas, de bom tamanho, mas com um problema ecológico claro: os únicos anfíbios que de fato se reproduziam ali eram rãs-verdes.

A maior parte dos reprodutores de início de primavera evitava o lago cheio de peixes, como sapos-da-floresta e salamandras de diferentes espécies, justamente porque peixes se alimentam de ovos e girinos.

Para resolver isso, a ideia foi criar, mais abaixo, uma lagoa menor, sem peixes, desenhada como uma poça vernal: rasa, sazonal, capaz de segurar água apenas o tempo necessário para que anfíbios e invertebrados completem seu ciclo de vida, em dois ou três meses.

Lagoas rasas desse tipo são campeãs em produtividade, porque a luz penetra facilmente, aquece rápido a água e acelera o desenvolvimento de plantas, algas e microfauna.

Ao mesmo tempo, ter um local que fica alagado parte do ano e seca no restante cria condições ideais para espécies que dependem justamente dessa alternância de água e solo exposto. Foi assim que o plano saiu do papel e a lagoa começou a nascer no barro.

Cavando a lagoa no barro: simples, barata e eficiente

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No início da primavera, o trabalho começou em uma área abaixo do lago de trutas, onde já passavam águas de degelo, chuva e um pouco do excesso do próprio lago.

Havia ali um ponto perfeito: solo de argila profunda, exatamente o tipo de base que ajuda a lagoa a reter água sem precisar de lona ou concreto.

Primeiro, foram abertas pequenas poças rasas ao longo do caminho natural da água, como funis, para desacelerar o fluxo quando a neve derrete e a chuva forte desce o morro. Essas poças ajudam a direcionar a água suavemente até a lagoa principal, reduzindo a erosão e capturando nutrientes.

Na sequência, a lagoa principal foi aberta com a retroescavadeira. A argila retirada foi amontoada na parte de trás para formar um pequeno dique.

A ideia nunca foi criar um reservatório permanente, apenas uma lagoa sazonal suficientemente vedada para segurar água por alguns meses. Do lado oposto do dique, foi feito um declive suave, permitindo que animais entrem e saiam sem dificuldade.

A parte mais profunda ficou com cerca de 60 centímetros, o que pode parecer pouco, mas está totalmente dentro do padrão das lagoas efêmeras naturais, às quais muitas espécies de anfíbios já estão adaptadas.

Em poucas horas de trabalho, a lagoa estava cavada. No dia seguinte, o sedimento já tinha assentado e a água se mostrava mais clara.

O dique foi nivelado e semeado com gramíneas e flores silvestres nativas. Galhos foram posicionados como suportes para ovos de anfíbios e poleiros para libélulas, enquanto um balde de folhas secas foi espalhado no fundo para criar abrigo.

Logo atrás da lagoa, um abrigo para morcegos foi instalado, com a esperança de que, no futuro, esses caçadores noturnos também fizessem parte do sistema.

Primeiros colonizadores: a base invisível da lagoa

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Com o lago de trutas transbordando para a lagoa recém-criada, os primeiros colonizadores chegaram quase imediatamente.

Milhares de pequenos crustáceos, como daphnias, foram arrastados pela água corrente até o novo ambiente. Esses minúsculos filtradores são a fundação de uma cadeia alimentar poderosa.

Alimentando-se principalmente de algas e bactérias, as daphnias reduzem a chance de florescimentos prejudiciais e mantêm a água mais estável.

Ao mesmo tempo, são alimento perfeito para invertebrados maiores. Logo depois surgiram besouros aquáticos mergulhadores e insetos de superfície como os “bakswimmers”, que encontraram na lagoa um banquete fácil e constante.

Com o entorno ainda pouco vegetado, foi impressionante ver a velocidade com que a lagoa começou a receber visitantes.

Aves como phoebes e tordos-americanos passaram a frequentar a área, tanto para caçar quanto para coletar barro para seus ninhos. A lagoa, ainda jovem, já funcionava como mercado, restaurante e canteiro de obras ao mesmo tempo.

Anfíbios na lagoa: rãs, pererecas e salamandras ganham um refúgio

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Entre as espécies-alvo, um dos primeiros visitantes importantes foi o sapo-da-floresta. Ele apareceu no início da primavera para se reproduzir, aproveitando a lagoa sem peixes e com água relativamente quente.

A expectativa é que, nos próximos anos, mais sapos-da-floresta, outras rãs e salamandras passem a usar esse ambiente à medida que as plantas aumentarem e proporcionarem mais abrigo.

Em termos de cobertura, os anfíbios não exigem tanta estrutura quanto se imagina. Em outro experimento de água rasa na mesma propriedade, uma área pensada como “spa de aves”, com pequenas cascatas e rochas, acabou sendo tomada por pererecas de primavera que usaram cada fresta entre as pedras como esconderijo e ponto de reprodução. Ali, o simples fato de haver água parada e microrefúgios foi suficiente para transformar o espaço.

Na lagoa de barro, a lógica é semelhante. À medida que a vegetação cresce e a margem fica mais “suja” e natural, os anfíbios ganham espaços para se esconder, caçar e colocar ovos.

Algumas rãs verdes, inicialmente ligadas ao lago de trutas, passaram a explorar a Lagoa sazonal, principalmente para aproveitar a abundância de insetos.

Amphíbios são extremamente sensíveis à qualidade da água, graças à pele fina e permeável. O fato de eles escolherem a lagoa como área de reprodução e alimentação é um sinal claro de que o ambiente está funcionando bem, não só para eles, mas para vários outros grupos de espécies.

Libélulas, insetos e um céu em movimento sobre a lagoa

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Com a chegada do calor de verão, a lagoa passa pela maior transformação. O nível da água começa a oscilar, partes do fundo ficam expostas e novas sementes germinam rapidamente ao redor.

Quase da noite para o dia, a borda da lagoa se enche de verde, com uma mistura de plantas semeadas e espécies que já estavam no banco de sementes, esperando a condição certa.

Nesse cenário, libélulas e donzelinhas viram donas do espaço aéreo. Elas cruzam o espelho d’água sem parar, pousam nos galhos colocados como poleiros e patrulham tanto a lagoa quanto o lago de trutas vizinho. A variedade de espécies e comportamentos é quase hipnótica.

Os machos defendem territórios, voam em círculos, perseguem competidores e esperam fêmeas se aproximarem.

Quando conseguem iniciar a corte, usam estruturas especiais na ponta do abdômen para se agarrar à região do pescoço da fêmea. Com alguma manobra, ela curva o próprio abdômen até o macho, formando a clássica “roda de acasalamento” em forma de coração.

Depois, cada toque do abdômen dela na água representa um ovo depositado. Em outros casos, a fêmea usa o ovipositor para cortar caules de plantas e colocar os ovos diretamente no tecido vegetal.

Sem vegetação ao redor da lagoa, esse ciclo simplesmente não acontece, o que mostra a importância de deixar a natureza ocupar margens e rasos.

Dentro da água, outro grupo chama atenção: as larvas de tricópteros (caddisflies). Dos pequenos ovos gelatinodos surgem larvas capazes de construir “casinhas” com pedrinhas, gravetos ou restos de plantas, colados com uma seda extremamente aderente. Essas estruturas funcionam como armaduras móveis, camuflando e protegendo o corpo mole das larvas.

Cada espécie explora um tipo de alimento: restos vegetais em decomposição, partículas orgânicas suspensas, algas e até presas vivas.

A presença de tricópteros na lagoa é um excelente indicativo de água limpa e bem oxigenada, já que suas brânquias delicadas não toleram ambientes poluídos.

Aves raras e raposas: a lagoa vira ponto de encontro

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À medida que a lagoa vai ganhando vegetação e invertebrados, o fluxo de aves aumenta. Filhotes de tordos que nasceram em construções próximas começam a visitar a Lagoa com os pais, usando a água para tomar banho e o entorno para aprender a caçar.

Predadores maiores também aparecem. Uma grande garça-azul visita a lagoa, seguida por um maçarico-solitário, ambos usando as margens rasas como ponto de caça.

Talvez o registro mais especial do ano tenha sido a visita de um jovem socó-americano, espécie discreta que costuma preferir grandes áreas úmidas com capim alto. O fato de um indivíduo ter parado nessa pequena lagoa vernal mostra o potencial de atração do novo ambiente.

Em terra firme, raposas passaram a usar a área da lagoa como rota de caça e ponto de curiosidade. Em um ano particularmente difícil para o grupo local, com filhotes em situação delicada e até necessidade de resgate de um filhote ferido, foi marcante ver esses animais voltando a se movimentar com mais confiança nos arredores, caçando e explorando os campos ao lado da água.

Uma lagoa pequena não resolve todos os desafios da fauna, mas cria um ponto de apoio real para animais que lutam para sobreviver.

Quando a água sobe, desce e a lagoa insiste em ficar

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O plano original era simples: fazer a lagoa secar depois de cerca de três meses, como muitas lagoas vernais naturais.

De fato, houve momentos em que o nível baixou tanto que parecia que a água iria sumir completamente. Mas, sempre que chegava perto disso, uma sequência de chuvas fortes enchia tudo novamente.

No fim das contas, a lagoa se mostrou mais estanque do que o esperado para um ambiente sazonal sem lona, mantendo água por muito mais tempo em seu primeiro ano.

Em temporadas mais secas, é provável que ela seque totalmente; em anos mais chuvosos, pode manter uma lâmina d’água residual até o outono. De qualquer forma, continua cumprindo a função ecológica para a qual foi criada.

Com a chegada do outono, as primeiras flores começaram a aparecer no dique da lagoa. Espécies semeadas, que em teoria só floririam no segundo ano, aproveitaram condições favoráveis e anteciparam o espetáculo: manchas de flores azuis, amarelas e roxas pontilharam o entorno.

Mudas de íris-de-brejo, trazidas de outra área úmida, também foram plantadas na borda, prometendo um contorno ainda mais colorido nos próximos anos e atraindo beija-flores assim que a floração se intensificar.

O que essa pequena lagoa ensina para quem tem um pedaço de terra

Depois de um ano, o saldo da experiência é claro: uma lagoa pequena, bem posicionada e sem peixes pode concentrar uma quantidade impressionante de vida em pouco tempo. Do micro ao macro, a sucessão foi evidente: microcrustáceos, insetos aquáticos, libélulas, anfíbios, aves, mamíferos.

Tudo isso aconteceu com obras simples, uso inteligente da argila do próprio terreno, aproveitamento da água já disponível e plantio de algumas espécies nativas. O restante veio sozinho, com a natureza ocupando cada nicho disponível.

Para quem tem um pedaço de terra, mesmo pequeno, a mensagem é direta: não é preciso construir um grande lago artificial para gerar impacto positivo, às vezes uma lagoa rasa de barro já é o suficiente para mudar o mapa da fauna local.

A partir daqui, a expectativa é acompanhar como a lagoa vai se comportar em anos mais secos, como a vegetação vai se consolidar e quantas novas espécies ainda vão descobrir esse refúgio. O experimento continua, e a cada estação a Lagoa ganha um novo capítulo na história de recuperação de ambientes.

E você, depois de ver o que aconteceu com essa Lagoa temporária, teria coragem de cavar uma lagoa simples no seu terreno para ver que tipo de vida apareceria por aí?

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Carla Teles

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