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O lago que concentra até 40% de salinidade, produz cerca de 60.000 toneladas de sal anuais e sustenta milhares de trabalhadores enquanto enfrenta riscos ambientais ligados a urbanização, turismo e mudanças climáticas

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 18/01/2026 às 11:48
Atualizado em 18/01/2026 às 11:56
Lago Retba, no Senegal, concentra até 40% de salinidade, produz 60.000 toneladas por ano e sofre impactos de clima, urbanização e turismo.
Lago Retba, no Senegal, concentra até 40% de salinidade, produz 60.000 toneladas por ano e sofre impactos de clima, urbanização e turismo.
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Com salinidade que pode atingir 40%, produção anual de cerca de 60.000 toneladas e trabalho majoritariamente artesanal, o Lago Retba, no Senegal, sustenta milhares de famílias, mas enfrenta riscos crescentes provocados por enchentes, expansão urbana desordenada, turismo sem infraestrutura e impactos diretos das mudanças climáticas sobre sua coloração e viabilidade econômica.

O Lago Retba, conhecido como Lac Rose, no Senegal, alcança salinidade de até 40%, supera o Mar Morto e gera aproximadamente 60.000 toneladas de sal por ano, base econômica de comunidades locais que agora lidam com enchentes, pressão urbana e ameaças à integridade ambiental do lago.

Extração artesanal sustenta a principal cadeia salineira da África Ocidental

O Lago Retba é um dos centros mais relevantes da produção de sal na África Ocidental, com milhares de trabalhadores envolvidos em um sistema artesanal que opera diariamente, sem mecanização pesada e com baixa margem de renda individual. O Business Insider fez uma reportagem sobre como é o trabalho nesse lago.

A rotina começa antes do amanhecer. Mineiros como Usman Dembele, conhecido como Baba, entram na água hipersalina protegendo a pele com manteiga de karité, criando uma barreira mínima contra queimaduras e feridas provocadas pelo contato prolongado.

O método de extração é manual. Com pás longas e os próprios pés, os trabalhadores localizam crostas de sal no fundo raso do lago, onde a evaporação intensa concentra os depósitos minerais.

A ausência de equipamentos básicos, como óculos de mergulho, obriga os mineiros a evitar submersões profundas, já que a alta salinidade pode causar danos permanentes à visão.

Cada jornada dura entre quatro e cinco horas. O processo se repete dezenas de vezes, acumulando cestos que, quando cheios, pesam cerca de 55 libras cada.

Em um bom dia, Baba e o irmão conseguem carregar até 60 cestos em uma única canoa de madeira, limite máximo antes do risco de capotagem.

Geografia isolada explica salinidade extrema e coloração rosada

A composição química do Lago Retba resulta de um isolamento natural do Oceano Atlântico por dunas de areia formadas há milhares de anos, que permitem infiltração de água salgada sem criar um canal de escoamento.

Com o sol evaporando a água superficial mais rápido do que a reposição marinha, a concentração de sal e minerais aumenta progressivamente, alcançando níveis até 10 vezes superiores aos do oceano.

Em períodos de pico, a salinidade chega a 40%, superando inclusive a do Mar Morto, referência mundial em águas hipersalinas.

A coloração rosa característica surge pela presença da alga Dunaliella salina, que produz pigmentos alaranjados e avermelhados ao absorver luz solar em ambientes extremamente salinos.

Esse efeito visual se intensifica durante a estação seca, entre novembro e junho, quando a evaporação é maior e o lago adquire tonalidade mais vibrante, atraindo turistas nacionais e internacionais.

Trabalho físico intenso garante renda mínima para comunidades locais

Após a coleta, o sal é transportado da canoa até as margens do lago por trabalhadores responsáveis pelo descarregamento, função que exige dezenas de viagens diárias sob sol intenso.

Cada canoa descarregada rende cerca de 1.000 francos CFA, o equivalente a US$ 2, valor suficiente para comprar poucos alimentos básicos na região.

A remuneração é diretamente proporcional ao volume movimentado. Quanto mais viagens, maior o ganho, o que leva muitos trabalhadores a ignorarem dores e lesões acumuladas.

Baba, por exemplo, cobre feridas abertas com fita adesiva comum, única proteção acessível diante de uma atividade que provoca cortes, infecções e ferimentos recorrentes.

A renda diária varia entre US$ 5 e US$ 10, dependendo da quantidade de sal extraída e vendida a intermediários que revendem o produto por até o dobro do preço pago aos mineiros.

Apesar disso, trabalhadores afirmam que a remoção contínua do sal evita o assoreamento do lago, mantendo sua capacidade produtiva ao longo do tempo, um argumento usado para defender a atividade artesanal.

Classificação oficial impulsionou produção sem royalties

A extração artesanal ganhou escala a partir do início da década de 1970, quando o governo senegalês classificou oficialmente o Lago Retba como área de mineração.

A decisão permitiu a coleta sem exigência de licenças formais ou pagamento de royalties, facilitando o acesso de comunidades locais à atividade econômica.

Atualmente, o lago responde por cerca de 60.000 toneladas métricas anuais, enquanto a produção total de sal do Senegal chega a aproximadamente 500.000 toneladas por ano.

Mesmo com esse volume, o país não figura entre os dez maiores produtores globais. A liderança pertence à China, seguida por Estados Unidos e Índia, que operam com sistemas altamente mecanizados.

A diferença estrutural reflete-se na renda. Enquanto a extração industrial movimenta grandes cadeias logísticas, no Retba a economia permanece fragmentada e dependente de intermediários.

Esse modelo mantém a produção ativa, mas limita investimentos em segurança, equipamentos e melhoria das condições de trabalho, criando um ciclo de baixa remuneração.

Mulheres assumem papel central em áreas adjacentes de coleta

Além do Lago Retba, outras regiões costeiras do Senegal concentram atividades salineiras, como poços naturais que acumulam água salgada do mar.

Nessas áreas, mulheres passam até oito horas diárias recolhendo salmoura e deixando o líquido evaporar ao sol até a formação dos cristais.

Em salinas próximas, iniciativas lideradas por mulheres introduziram a iodação do sal, prática exigida em muitos países africanos, mas pouco fiscalizada.

Uma pesquisa de 2021 apontou que a deficiência de iodo na África Subsaariana é duas vezes superior à média global, contribuindo para problemas de saúde e complicações na gravidez.

A adição de iodo aumentou a aceitação do produto no mercado local, ampliando a renda de pequenas produtoras e diversificando a cadeia salineira regional.

Mudanças climáticas e turismo ameaçam equilíbrio do lago

Nos últimos anos, o Lago Retba passou a enfrentar pressões ambientais crescentes associadas a chuvas mais intensas e eventos extremos ligados às mudanças climáticas.

Em 2022, enchentes romperam partes das margens, abrindo novos canais de entrada de água doce que diluíram a salinidade e alteraram temporariamente a cor rosa do lago.

Em visitas realizadas em 2024, o lago apresentava aspecto turvo. Apenas em 2025 a coloração característica começou a se recuperar gradualmente.

Paralelamente, o avanço do turismo provocou a remoção de dunas próximas para construção de hotéis e casas de veraneio, acelerando processos de erosão.

A ausência de sistemas adequados de esgoto em parte desses empreendimentos resulta no despejo de resíduos não tratados, elevando níveis de nitrato e contaminando o sal em alguns pontos.

Cientistas alertam que, sem extração contínua, o acúmulo de crostas pode preencher a depressão natural do lago, levando ao seu desaparecimento em poucos anos, uma possibilidade cada vez mais discutida.

Propostas de proteção internacional ganham força

Embora praticamente não existam organismos vivos no interior do lago, o ecossistema ao redor é relevante para aves e áreas úmidas costeiras.

Ambientalistas defendem o reconhecimento do Lago Retba como patrimônio mundial da UNESCO, medida que poderia impor limites à ocupação urbana e estimular políticas de conservação.

A proposta busca conciliar preservação ambiental, turismo controlado e manutenção da atividade salineira, evitando a perda de renda das comunidades que dependem diretamente do lago.

Enquanto debates avançam lentamente, trabalhadores como Baba continuam sua rotina diária, sustentando famílias que muitas vezes vivem em países vizinhos, como Mali.

Após longas jornadas, o convívio comunitário nas vilas próximas torna-se o principal espaço de descanso e socialização, reforçando laços que mantêm viva a economia local, apesar dos desafios crescentes e das condições dificeis enfrentadas diariamente.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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