Satélites da NASA e da NOAA registraram a floração de algas mais precoce já observada no Lago Erie desde o início do monitoramento em 2002.
No verão de 2024, uma enorme mancha verde começou a aparecer no oeste do Lago Erie, um dos cinco Grandes Lagos da América do Norte. Vista do espaço, a coloração lembrava tinta espalhada sobre a água. Mas o fenômeno chamou a atenção dos cientistas por outro motivo: tratava-se da floração de algas mais precoce registrada desde que a NOAA começou a monitorar o lago em 2002. Segundo a NASA Earth Observatory, a floração começou a ser identificada em 24 de junho de 2024, permaneceu ativa durante boa parte do verão e continuou visível no início de setembro. O fenômeno ocorreu no setor oeste do lago, região que historicamente concentra os maiores episódios de proliferação de cianobactérias.
Uma mancha verde visível do espaço começou a crescer sobre um dos maiores lagos do planeta
O Lago Erie é o quarto maior dos Grandes Lagos em área superficial e abastece milhões de pessoas nos Estados Unidos e no Canadá. Quando o satélite Landsat 9 registrou imagens em 13 de agosto de 2024, a floração já ocupava aproximadamente 830 km². Poucos dias depois, em 22 de agosto, a área havia mais que dobrado, atingindo cerca de 1.700 km², segundo estimativas da NASA.
A imagem impressionava porque transformava uma parte significativa do lago em uma enorme faixa verde brilhante visível do espaço. Para quem observava apenas as fotografias de satélite, parecia que alguém havia despejado tinta sobre a superfície da água.
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O fenômeno não era poluição comum, mas bilhões de organismos microscópicos
Apesar da aparência incomum, a mancha não era formada por óleo ou resíduos industriais. Ela era composta principalmente por Microcystis, um grupo de cianobactérias frequentemente chamado de alga azul-esverdeada. Esses organismos microscópicos realizam fotossíntese e podem se multiplicar rapidamente quando encontram condições favoráveis.

O problema é que algumas espécies produzem substâncias tóxicas. A NASA explica que a Microcystis produz microcistina, uma toxina capaz de causar problemas de saúde em seres humanos e animais. Em concentrações elevadas, a exposição pode provocar náuseas, tontura, vômitos e danos ao fígado.
O ano de 2024 registrou o início mais precoce desde o começo do monitoramento
O aspecto que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a data de início. Segundo a NOAA, nenhuma floração havia sido detectada tão cedo desde o início da série histórica de monitoramento em 2002. A formação começou no final de junho, superando registros anteriores observados em anos como 2018 e 2023.
Os pesquisadores observaram que a floração se desenvolveu inicialmente próximo à costa de Michigan e depois se expandiu gradualmente ao longo do verão.
Embora tenha começado cedo, o crescimento foi relativamente lento durante julho, atingindo seu pico apenas em agosto.
Chuvas intensas e calor extremo ajudaram a alimentar a explosão de algas
Diversos fatores contribuíram para o fenômeno. Especialistas ouvidos pela NASA apontaram que a floração ocorreu após um período de chuvas recordes em abril e uma intensa onda de calor durante os meses seguintes. Essas condições aumentaram a entrada de nutrientes na água e criaram um ambiente favorável para o crescimento das cianobactérias.

Outro fator importante foi o aporte de fósforo transportado pelo Rio Maumee, considerado um dos principais responsáveis pela variabilidade anual das florações no oeste do Lago Erie.
Quando nutrientes como fósforo e nitrogênio chegam em excesso ao lago, as cianobactérias encontram condições ideais para se multiplicar rapidamente.
O pico da floração cobriu uma área comparável à de uma grande cidade
A NOAA calculou que, no momento de maior expansão, a floração cobriu aproximadamente 550 milhas quadradas, o equivalente a cerca de 1.424 km².
Embora a área estimada pela NASA em determinado momento tenha chegado a aproximadamente 1.700 km², os cientistas destacam que tamanho não significa necessariamente maior toxicidade.

Uma floração relativamente pequena pode produzir mais toxinas do que uma muito maior. Por isso, além da área coberta, os pesquisadores monitoram continuamente a composição biológica e os níveis de toxinas presentes na água.
A NOAA precisou emitir alertas para pessoas e animais
Durante o verão, medições realizadas pela NOAA identificaram concentrações de toxinas acima dos limites recreativos em determinadas áreas.
A agência alertou que as toxinas podem se concentrar em manchas superficiais conhecidas como “scums”, áreas onde as cianobactérias se acumulam em alta densidade. Nessas condições, pessoas e animais domésticos são orientados a evitar contato com a água.
Esses episódios são acompanhados com atenção porque o Lago Erie desempenha papel fundamental no abastecimento de água e na economia regional.
Satélites se tornaram a principal ferramenta para acompanhar a evolução da mancha
Sem observação espacial seria impossível acompanhar um fenômeno dessa escala em tempo real. A NOAA utiliza imagens de satélite para monitorar a posição, extensão e evolução das florações. Modelos computacionais complementam os dados e ajudam a prever para onde a mancha pode se deslocar.
A NASA também destacou o papel dos satélites Landsat e da missão PACE, lançada para ampliar a capacidade de monitoramento de ecossistemas aquáticos utilizando centenas de comprimentos de onda diferentes.
Essas tecnologias permitem identificar mudanças na qualidade da água com precisão muito superior à disponível apenas alguns anos atrás.
O Lago Erie continua sendo um dos principais laboratórios naturais para estudar florações tóxicas
Os episódios de algas no Lago Erie não são novos. A região enfrenta florações recorrentes há décadas e se tornou uma das áreas mais estudadas do mundo quando o assunto é proliferação de cianobactérias.
Os pesquisadores utilizam os dados coletados no lago para entender melhor a relação entre clima, nutrientes, qualidade da água e crescimento de algas tóxicas.
Por isso, a mancha verde registrada em 2024 foi muito mais do que uma curiosidade visual vista do espaço.
Ela serviu como um lembrete de que mudanças no clima, chuvas intensas e excesso de nutrientes continuam influenciando profundamente um dos maiores sistemas de água doce do planeta.
E justamente por ter começado mais cedo do que em qualquer outro ano desde o início do monitoramento moderno, a floração de 2024 acabou se tornando um dos eventos mais observados da história recente do Lago Erie.

