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Júri manda Johnson & Johnson pagar US$ 40 milhões a duas mulheres, liga talco a câncer de ovário e reacende avalanche de processos judiciais por produto acusado de conter amianto e causar tumores

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 14/12/2025 às 12:02
Júri nos EUA condena a Johnson & Johnson por talco ligado a câncer de ovário, reacende processos sobre amianto e expõe a disputa global entre vítimas, empresa e reguladores.
Júri nos EUA condena a Johnson & Johnson por talco ligado a câncer de ovário, reacende processos sobre amianto e expõe a disputa global entre vítimas, empresa e reguladores.
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Decisão em Los Angeles envolve duas pacientes com câncer de ovário que usaram por décadas o talco da Johnson & Johnson, põe em foco alegações de amianto nos frascos, questiona alertas ao consumidor e pressiona milhares de processos ainda pendentes na Justiça americana observados por investidores e autoridades regulatórias globalmente.

Em reportagem publicada em 13 de dezembro de 2025, veio a público a decisão de um júri da Califórnia que condenou a Johnson & Johnson a pagar 40 milhões de dólares em indenizações a duas mulheres com câncer de ovário, ambas usuárias do talco para bebês da marca durante cerca de quatro décadas após o banho. O veredicto foi proferido pela corte superior de Los Angeles e atribuiu 18 milhões de dólares a Monica Kent e 22 milhões de dólares a Deborah Schultz e ao marido.

A decisão foi atualizada em 14 de dezembro de 2025, quando a empresa reforçou que irá recorrer e classificou o resultado como um veredicto adverso isolado. Enquanto as pacientes apontam o talco da Johnson & Johnson como fator determinante para o desenvolvimento dos tumores, a companhia sustenta que não há consenso científico ou respaldo de autoridades de saúde dos Estados Unidos para estabelecer esse nexo causal direto.

Como foi o veredicto contra a Johnson & Johnson na Califórnia

O júri californiano analisou o histórico de uso do talco para bebês da Johnson & Johnson por duas residentes do estado, Monica Kent e Deborah Schultz, ambas com diagnóstico de câncer de ovário em 2014 e 2018.

As duas relataram o uso diário do produto ao longo de aproximadamente 40 anos, sempre após o banho.

Segundo os registros do julgamento, os tratamentos incluíram cirurgias de grande porte e dezenas de sessões de quimioterapia, o que reforçou, perante o júri, o caráter devastador da doença na vida das famílias.

Os advogados das pacientes sustentaram que a Johnson & Johnson sabia, desde a década de 1960, que seus produtos à base de talco poderiam representar risco de câncer, mas não incluiu advertências claras nos rótulos nem suspendeu a venda do talco tradicional.

O júri acolheu parte central dessa narrativa e concluiu que a empresa deveria responder financeiramente pelos danos. A condenação de 40 milhões de dólares, porém, não encerra a controvérsia.

A Johnson & Johnson anunciou que irá apelar imediatamente, buscando reverter a decisão em instâncias superiores ou, no mínimo, reduzir o valor da indenização.

O que alegam as pacientes e seus advogados

A linha de acusação apresentada ao júri associa diretamente o talco da Johnson & Johnson ao câncer de ovário das duas mulheres.

O argumento central é que o produto estaria contaminado com amianto, substância reconhecida mundialmente como cancerígena, e que a exposição crônica, por décadas, teria aumentado significativamente o risco de desenvolvimento de tumores ginecológicos.

O advogado Andy Birchfield afirmou que documentos internos mostrariam que a Johnson & Johnson tinha ciência, há muitos anos, de potenciais riscos relacionados ao talco e ao amianto, mas optou por não informar o público.

Na sustentação final, ele acusou a empresa de tentar “enterrar a verdade sobre os perigos” dos produtos, transformando uma linha voltada originalmente a bebês e cuidados pessoais em foco de uma crise de responsabilidade civil de larga escala.

Para as pacientes, o ponto central não é apenas a compensação financeira, mas o reconhecimento de que o uso de talco da Johnson & Johnson compôs o contexto de exposição que precedeu o câncer de ovário.

Ao lado das cirurgias e da quimioterapia, elas relatam mudança drástica de rotina, perda de capacidade de trabalho e impactos psicológicos duradouros, fatores que pesaram na quantificação dos danos morais pelo júri.

A defesa da Johnson & Johnson e a disputa científica

Do outro lado, a defesa da Johnson & Johnson insiste que os casos de câncer de ovário não podem ser atribuídos, com base na evidência disponível, ao uso do talco para bebês.

A advogada Allison Brown afirmou aos jurados que as únicas pessoas a vincular o produto aos tumores foram os advogados das pacientes, já que nenhuma autoridade de saúde relevante nos Estados Unidos teria reconhecido formalmente esse nexo de causalidade.

A empresa sustenta que não há estudo conclusivo demonstrando que partículas de talco consigam migrar da aplicação externa na pele até os órgãos reprodutivos femininos em quantidade e condições suficientes para provocar câncer.

Na avaliação da Johnson & Johnson, a associação entre o talco e o câncer de ovário permanece controversa, e os dados apresentados pela acusação seriam insuficientes para sustentar a responsabilização.

Mesmo sob forte pressão de opinião pública, a companhia afirma que seus talcos são seguros, não contêm amianto e não causam câncer, baseando-se em análises internas e avaliações laboratoriais encomendadas ao longo dos anos.

A decisão do júri californiano, portanto, é tratada pela Johnson & Johnson como um resultado pontual, que deverá ser revisto nas cortes de apelação.

Talco, amianto e mudança na estratégia de produtos

Os processos contra a Johnson & Johnson se concentram na acusação de que o talco utilizado na formulação de produtos populares, como o Johnson’s Baby, teria sido contaminado por amianto em determinadas remessas e períodos de produção.

O amianto é um agente cancerígeno amplamente reconhecido, e a simples suspeita de sua presença em um produto de uso cotidiano ampliou a repercussão do caso.

Em 2019, a empresa divulgou resultados de análises que, segundo sua própria versão, não identificaram amianto nos talcos avaliados.

Já testes conduzidos pela Food and Drug Administration, agência federal de saúde dos Estados Unidos, encontraram vestígios do material cancerígeno em produtos da marca, o que alimentou a controvérsia regulatória e fortaleceu a argumentação de parte dos demandantes.

Em maio de 2020, a Johnson & Johnson anunciou a suspensão da venda do talco Johnson’s Baby nos Estados Unidos e no Canadá, substituindo a fórmula por versões à base de amido de milho.

Oficialmente, a empresa vinculou a mudança a uma reavaliação de portfólio durante a pandemia e à queda de demanda, mas a medida ocorreu após uma escalada de litígios e questionamentos públicos sobre a segurança do talco tradicional.

Paralelamente, a agência de câncer da Organização Mundial da Saúde já classificou o talco como “potencialmente” cancerígeno, o que não equivale a uma confirmação absoluta de risco, mas reforça a necessidade de avaliações de exposição em longo prazo.

É nesse cenário de incerteza científica e forte sensibilidade regulatória que decisões como a da Califórnia ganham peso simbólico.

Avalanche de ações e o impasse do acordo bilionário

O caso de Monica Kent e Deborah Schultz é apenas uma fração de um contencioso massivo.

A Johnson & Johnson enfrenta, hoje, dezenas de milhares de ações judiciais relacionadas ao talco.

Documentos apresentados em tribunal falam em mais de 67 mil demandantes, enquanto reportagens de veículos como o New York Times mencionam mais de 90 mil reivindicações distribuídas nas cortes norte americanas.

Para tentar encerrar o litígio de forma global, a Johnson & Johnson recorreu a uma estratégia de falência controlada, por meio de pedidos de Chapter 11, mecanismo equivalente à recuperação judicial no sistema dos Estados Unidos.

A ideia era concentrar todas as demandas em uma estrutura específica e viabilizar um acordo coletivo de cerca de 9 bilhões de dólares com pessoas que alegam ter desenvolvido câncer após o uso do talco.

Tribunais federais rejeitaram essas tentativas em três ocasiões.

A decisão mais recente, no fim de março de 2025, partiu de um juiz de falências em Houston, que recusou o plano da Johnson & Johnson e manteve aberto o caminho para que as ações individuais continuassem tramitando.

As tentativas de falência haviam suspendido temporariamente a maioria dos processos, e os casos de Kent e Schultz estão entre os primeiros a ir a julgamento após esse último revés jurídico.

Na prática, isso significa que a companhia volta a enfrentar, caso a caso, o risco de ver novos jurados reconhecerem vínculos entre o talco da Johnson & Johnson e diferentes tipos de câncer.

Cada veredicto desfavorável tende a fortalecer a posição de outros demandantes, ao mesmo tempo em que pressiona a empresa a recalibrar sua estratégia de defesa e negociação.

O que está em jogo para consumidores e investidores

A disputa em torno do talco da Johnson & Johnson extrapola a responsabilização por dois casos individuais.

Ela coloca em xeque a forma como grandes empresas farmacêuticas e de higiene lidam com evidências de risco, rótulos, transparência e decisões de retirada de produtos do mercado.

Também reacende o debate sobre o papel de agências reguladoras e tribunais na proteção do consumidor diante de incertezas científicas.

Para investidores, o resultado do julgamento na Califórnia funciona como um termômetro de risco financeiro e reputacional.

Um histórico de decisões desfavoráveis pode levar a provisões bilionárias em balanços, rebaixamento de percepção de governança e revisão de estratégias comerciais.

Para consumidores, o caso serve como alerta sobre a importância de acompanhar informações técnicas, recomendações médicas e posicionamentos regulatórios antes de manter o uso prolongado de qualquer produto potencialmente controverso.

Diante desse cenário, depois de acompanhar os argumentos do júri, da defesa e das pacientes, você acredita que decisões como essa devem mudar a forma como o público enxerga a Johnson & Johnson e o uso de talco no dia a dia?

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Bruno Teles

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