Tecnologia japonesa de propulsão espacial avança com teste real em voo e reforça aposta em motores compactos e eficientes para futuras missões planetárias, integrando soluções inovadoras que podem reduzir massa, otimizar desempenho e ampliar possibilidades na exploração de Marte.
A JAXA testou no espaço um novo motor de detonação rotativa com propelentes líquidos, reforçando a estratégia japonesa de desenvolver sistemas de propulsão mais compactos, eficientes e compatíveis com missões planetárias que exigem menor massa e maior otimização estrutural.
Realizado a bordo do foguete de sondagem S-520-34, lançado em 14 de novembro de 2024, o experimento levou ao espaço o DES2, segunda versão do sistema de detonação desenvolvido em parceria com universidades japonesas para validação em ambiente real.
Dentro da câmara de combustão, a tecnologia opera por meio de uma onda de detonação que percorre continuamente o interior do motor, queimando o propelente recém-injetado e convertendo essa reação dinâmica em empuxo de forma mais concentrada e eficiente.
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Ao contrário dos motores convencionais, que dependem de combustão estável em toda a câmara, esse modelo busca entregar desempenho utilizando uma estrutura mais compacta, reduzindo o volume necessário e ampliando o potencial de aplicação em missões espaciais futuras.
Motor espacial com etanol e óxido nitroso ganha destaque

Em relação aos testes anteriores, a principal mudança foi a substituição dos propelentes gasosos por etanol líquido e óxido nitroso líquido, uma escolha que aumenta significativamente a densidade do material armazenado e melhora o aproveitamento do espaço disponível nos tanques.
Com maior densidade, torna-se possível transportar mais propelente em volumes menores, fator decisivo para projetos espaciais em que cada centímetro e cada quilo influenciam diretamente o desempenho, o custo e a viabilidade da missão.
No entanto, a adoção de propelentes líquidos trouxe desafios adicionais, já que em microgravidade esses fluidos não se comportam como na Terra, exigindo soluções específicas para garantir alimentação estável e precisa até a câmara de combustão.
Para resolver esse problema, a equipe utilizou nitrogênio em alta pressão para empurrar o etanol e o óxido nitroso até a base dos tanques, garantindo que os líquidos fossem corretamente direcionados antes da injeção no sistema.
Uma vez posicionados, os propelentes eram misturados e inflamados pela própria onda de detonação em movimento contínuo, mantendo o funcionamento do motor dentro da lógica característica desse tipo de arquitetura experimental.
Empuxo em voo valida conceito do DES2

Durante a missão, o foguete iniciou o voo impulsionado por combustível sólido, etapa padrão nesse tipo de lançamento, antes de realizar a transição para o sistema experimental desenvolvido pela equipe japonesa.
Na sequência, o DES2 entrou em operação e gerou 438 newtons de empuxo, conforme dados divulgados pela ISAS, demonstrando que o motor conseguiu funcionar no ambiente espacial com o novo sistema de alimentação líquida.
Esse resultado indica que o conceito ultrapassou a fase de testes em solo, ao comprovar que a combustão dos propelentes líquidos pode ocorrer de forma controlada em condições reais de voo fora da atmosfera terrestre.
Além disso, a equipe implementou uma alteração relevante na câmara de combustão, substituindo o modelo anterior de cilindro duplo por uma configuração de cilindro único, o que simplifica o projeto e reduz desafios associados ao resfriamento interno.
Segundo o pesquisador Jiro Kasahara, da Universidade de Nagoya, o sistema ainda precisa evoluir em aspectos como duração de operação e resistência térmica, já que manter a estabilidade da onda de detonação por períodos mais longos continua sendo um desafio técnico importante.
Estratégia japonesa conecta motor e entrada em Marte
Paralelamente ao teste do motor, a missão também transportou o RATS2, um aeroshell inflável desenvolvido para estudar técnicas de reentrada e desaceleração em atmosferas planetárias com baixa densidade.
Na visão da JAXA, essas duas tecnologias fazem parte de um mesmo esforço para viabilizar missões planetárias mais leves, combinando propulsão eficiente com sistemas inovadores de entrada atmosférica.
No caso específico de Marte, a dificuldade está na atmosfera rarefeita, que reduz o arrasto e torna mais complexa a desaceleração de sondas e módulos antes do pouso na superfície.
Para enfrentar esse cenário, o RATS utiliza uma estrutura inflável que amplia a área de contato com o ar, aumentando o arrasto e auxiliando na redução de velocidade durante a descida.
Embora ainda esteja em fase experimental, o conceito pode futuramente ser adaptado para pequenas cargas, desde que avanços sejam feitos em resistência estrutural e confiabilidade operacional.
Durante o voo do S-520-34, o RATS2 se separou conforme o previsto e transmitiu dados até próximo do pouso no mar, mas não foi recuperado após sofrer danos no anel inflável durante o processo de inflação.
Mesmo com essa falha, os dados essenciais do motor foram enviados diretamente à Terra, permitindo confirmar o desempenho do sistema e a combustão bem-sucedida dos propelentes líquidos durante o experimento.
Próximos avanços miram uso orbital
Para acelerar o desenvolvimento de novas tecnologias, a JAXA utiliza foguetes de sondagem como plataforma de testes rápidos, permitindo validar sistemas em ambiente espacial antes de sua aplicação em missões mais complexas e de maior custo.
Vale lembrar que o Japão já havia demonstrado em 2021 um motor de detonação em voo utilizando propelentes gasosos, o que serviu como base para o avanço atual com combustíveis líquidos.
Com o DES2, essa linha de pesquisa avança para uma etapa mais exigente, aproximando a tecnologia de aplicações práticas em sistemas de propulsão espacial compactos e eficientes.
Entre os próximos passos estão o desenvolvimento de tanques dedicados, a ampliação do tempo de funcionamento do motor e a integração de múltiplas unidades em um mesmo sistema.
A meta da equipe é alcançar, futuramente, uma demonstração em órbita, etapa considerada essencial para validar o uso da tecnologia em missões reais.
Ainda que o motor não esteja pronto para aplicações imediatas em missões a Marte, o teste indica que a tecnologia começa a sair do ambiente puramente experimental e passa a acumular resultados consistentes em voo.
Nesse contexto, avanços que reduzem massa e simplificam sistemas ganham relevância, especialmente em projetos de exploração planetária, nos quais cada quilo economizado pode influenciar diretamente o desenho e a viabilidade das missões.


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