Previsões feitas há 70 anos sobre inteligência artificial ajudam a entender chatbots, automação e o antropomorfismo tecnológico atual.
A inteligência artificial voltou ao centro do debate global ao entrar de vez no cotidiano das pessoas, seja por meio de chatbots usados no trabalho, nos estudos ou até como apoio emocional.
O fenômeno envolve empresas de tecnologia, governos e usuários comuns, ganhou escala a partir de 2022 e se espalhou rapidamente pelo mundo.
No entanto, apesar da aparência de novidade, muitos desses debates começaram ainda nos anos 1950.
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Desde então, cientistas questionam como essas tecnologias funcionam, quais riscos oferecem e por que os humanos tendem a tratá-las como se fossem pessoas.
Nos primeiros estudos sobre inteligência artificial, pesquisadores já levantavam perguntas que seguem atuais: máquinas podem pensar?
Elas vão substituir pessoas?
E até que ponto é seguro atribuir características humanas a sistemas automatizados?
A principal diferença entre ontem e hoje está no volume de recursos financeiros, políticos e simbólicos que essas tecnologias atraem.
“Existe uma diferença de que hoje estamos em um contexto do capital financeiro e dos investimentos que essas empresas atraem, o espaço que elas conseguem junto a governos”, afirmou à BBC News Brasil Bernardo Gonçalves.
Chatbots e o apego emocional às máquinas
Muito antes do ChatGPT, a inteligência artificial já despertava curiosidade e vínculo emocional.
Na década de 1960, o cientista Joseph Weizenbaum criou o Eliza, um dos primeiros chatbots a ganhar notoriedade.
O programa simulava diálogos a partir de regras simples, sem compreender de fato o conteúdo das conversas.
Mesmo assim, Eliza surpreendeu ao assumir o papel de terapeuta, reformulando frases dos usuários em forma de perguntas.
O impacto psicológico surgiu rapidamente.
Muitas pessoas passaram a tratar o software como alguém capaz de ouvir e compreender emoções.
O próprio Weizenbaum se alarmou com essa reação.
“Sem dúvida há técnicas para facilitar a projeção do terapeuta na vida do paciente.
Mas que fosse possível a um psiquiatra defender que esse componente crucial do processo terapêutico pudesse ser substituído, isso eu não tinha imaginado”, escreveu.
Mais tarde, reforçou a crítica: “Por mais inteligentes que as máquinas possam vir a ser, há certos atos de pensamento que devem ser tentados apenas por seres humanos”.
Esse episódio se tornou um marco do antropomorfismo tecnológico, a tendência de atribuir emoções, intenções e consciência a sistemas que apenas executam comandos.
História da IA e a origem da pergunta central
Na história da inteligência artificial, poucas perguntas tiveram tanto impacto quanto a formulada em 1950 pelo matemático Alan Turing: “As máquinas podem pensar?”.
No artigo Computing Machinery and Intelligence, ele antecipou objeções religiosas e filosóficas, incluindo a ideia de que apenas humanos conseguiriam criar algo genuinamente novo.
Parte dessas críticas, segundo Bernardo Gonçalves, se relacionava diretamente ao vocabulário usado para descrever máquinas.
Em 1956, pesquisadores adotaram oficialmente o termo “inteligência artificial” durante uma conferência acadêmica.
A definição buscou evitar comparações diretas com a mente humana e descreveu sistemas que se comportariam como inteligentes se fossem pessoas.
Antropomorfismo tecnológico e disputas de narrativa
Assim, apesar desse cuidado conceitual, o antropomorfismo tecnológico atravessou décadas.
A jornalista Karen Hao, autora do livro Império da IA, afirma que essa linguagem persiste até hoje.
“Desenvolvedores de IA falam com frequência sobre como seus softwares aprendem, leem ou criam, como os humanos.
Isso não só alimentou a percepção de que as tecnologias atuais de IA são muito mais capazes do que realmente são, como também se tornou uma ferramenta retórica para que empresas evitem responsabilidade legal”, argumenta.
Para Gonçalves, esse tipo de crítica retoma debates já presentes nos anos 1940, quando cientistas alertavam que metáforas humanas poderiam distorcer o papel real da tecnologia.
Automação, poder e impacto social
A discussão sobre automação sempre esteve ligada à redistribuição de poder.
Nos primórdios da computação, o termo “computador” designava pessoas — em sua maioria mulheres — responsáveis por cálculos complexos.
Com o avanço da automação, sistemas passaram a executar tarefas antes realizadas por humanos, o que alterou o mercado de trabalho e a organização social.
“São tecnologias de automação que deslocam poder e impactam diretamente a vida das pessoas e a economia”, afirma.
Promessas, frustrações e o futuro da inteligência artificial
Assim, a inteligência artificial já atravessou ciclos de entusiasmo e frustração.
Nos anos 1970, o chamado “inverno da IA” surgiu após críticas de que o campo prometia mais do que conseguia entregar.
Hoje, um novo ciclo de expectativas aparece, impulsionado por grandes empresas e investimentos bilionários.
Ainda assim, Gonçalves faz uma ressalva: “Desde 2022, quando surge o ChatGPT, esses sistemas vêm melhorando.
E aí não estou falando do que se promete, mas do que de fato se observa”.
Assim, ao revisitar a história da inteligência artificial, fica evidente que os dilemas atuais não surgiram agora.
O que mudou foi a escala. E, como no passado, compreender os limites entre máquinas, chatbots, automação e antropomorfismo tecnológico pode definir como a sociedade vai lidar com essa tecnologia no futuro.
Veja mais em: As previsões sobre inteligência artificial de 70 anos atrás que são realidade hoje – BBC News Brasil

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