Marcas preservadas no volume comprado pelo Itaú Cultural levaram à investigação de sua procedência e à confirmação de que a obra pertencia ao Museu Paraense Emílio Goeldi, onde havia desaparecido do acervo de livros raros e especiais.
As marcas ainda presentes em um livro raro adquirido em leilão pelo Instituto Itaú Cultural permitiram identificar que o exemplar pertencia ao Museu Paraense Emílio Goeldi e havia sido furtado de seu acervo de obras raras e especiais.
O volume, “Delectus Florae et Faunae Brasiliensis”, do naturalista Johann Christian Mikan, reúne 24 litogravuras coloridas à mão e teve valor estimado em cerca de R$ 120 mil pelo Museu Goeldi, instituição vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
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A identificação começou quando curadores do Itaú Cultural perceberam sinais ligados ao museu no próprio exemplar e decidiram verificar sua origem antes de incorporá-lo definitivamente à coleção, cruzando as informações com o banco de dados da Interpol e procurando a instituição paraense.
De acordo com a nota pública do Museu Paraense Emílio Goeldi, bibliotecários da instituição examinaram o livro nas instalações do Itaú Cultural, em São Paulo. Um laudo técnico-pericial solicitado pelo comprador também integrou o processo de identificação.
A avaliação confirmou que não se tratava apenas de outro exemplar da mesma edição, mas de uma das obras furtadas do Museu Goeldi em 2008, que permaneceu fora da coleção por aproximadamente 16 anos até ser reconhecida e devolvida em 2024.
Marcas no papel ajudaram a revelar a procedência
O reconhecimento físico do exemplar teve papel decisivo. Reportagem de O Liberal informou que a então curadora da Coleção de Obras Raras do Museu Goeldi, Berenice Bacelar, explicou que a capa havia sido cortada durante o furto e apenas o miolo levado.
Segundo a reportagem, marcas secas da instituição permaneceram nas páginas, dando aos curadores um indício concreto de que a procedência precisava ser verificada, mesmo depois de o livro ter circulado fora do acervo e chegado ao mercado de obras raras.
A confirmação combinou a observação material do volume, a consulta a registros internacionais e a avaliação feita por profissionais ligados ao acervo original. Com a identidade estabelecida, o Itaú Cultural organizou a restituição do livro ao museu, em Belém.
Livro registra fauna e flora brasileiras do século XIX
“Delectus Florae et Faunae Brasiliensis” foi publicado em quatro partes entre 1820 e 1825 e reúne observações de Mikan sobre espécies encontradas nos arredores do Rio de Janeiro.
O Museu Goeldi classifica a publicação entre os primeiros e mais completos registros impressos da fauna e da flora brasileiras produzidos no século XIX. Além do conteúdo científico, o volume se destaca pelo conjunto de pranchas ilustradas que documentam espécies observadas no país.
As 24 litogravuras foram coloridas à mão e são atribuídas pelo museu a Ferdinand Lucas Bauer, Brunner, Buchberger, Funk, Sandler, Satory e Stoll, reunindo documentação científica e produção gráfica em uma mesma obra.
Mikan, nascido em 1769 e morto em 1844, foi botânico, zoólogo, entomólogo e professor de história natural na Universidade de Praga. Ele participou da Expedição Austríaca ao Brasil, iniciativa científica ligada à viagem da princesa Leopoldina após seu casamento com o então príncipe regente D. Pedro I.
O trabalho desenvolvido durante essa passagem pelo Brasil resultou em registros de espécies que posteriormente integraram a publicação, ligando o volume recuperado às expedições naturalistas que ajudaram a documentar a biodiversidade brasileira no século XIX.
Além do interesse histórico, o exemplar funciona como fonte documental para pesquisas sobre biodiversidade, história da ciência, expedições naturalistas e formas de representação de espécies. A devolução restabeleceu o acesso institucional a um material que havia sido retirado de uma coleção pública dedicada à preservação científica.
Recuperação integra esforço maior do Museu Goeldi
O caso de Mikan faz parte de um conjunto mais amplo de perdas sofridas pela biblioteca da instituição. Em atualização oficial posterior, o Museu Goeldi informou que 60 publicações desapareceram do acervo em 2008 e que algumas delas foram recuperadas ao longo dos anos no Brasil e no exterior.
A Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna reúne cerca de 350 mil exemplares, dos quais aproximadamente 4 mil são classificados como obras raras, segundo dados divulgados pelo próprio museu.
Depois dos furtos, a instituição reforçou a proteção da coleção com medidas como sala-cofre de acesso restrito, controle eletrônico, monitoramento, climatização e sistemas de combate a incêndio. As mudanças foram adotadas para proteger materiais bibliográficos de elevado valor histórico e científico.
A recuperação do exemplar de Mikan se diferencia porque não começou com uma operação direcionada à peça, mas com vestígios físicos mantidos no próprio livro, percebidos após a compra em leilão e suficientes para desencadear as verificações que reconstruíram sua procedência.
Após a devolução, a curadoria do Museu Goeldi informou a O Liberal que o volume passaria por quarentena e teria seu histórico reconstruído nos inventários da instituição. O registro passaria a incorporar também as informações conhecidas sobre o período em que permaneceu fora do acervo.

