Influenciador diz que a capital haitiana foi o lugar visualmente mais sujo que já viu e o tema expõe crise de coleta, desigualdade urbana e gestão de resíduos
Drew Binsky, criador de conteúdo que afirma ter visitado todos os países do mundo, publicou um vídeo em que aponta Porto Príncipe, capital do Haiti, como a cidade mais suja que já conheceu.
A fala ganhou tração nas redes e levantou uma discussão que vai além do choque das imagens, tocando em infraestrutura, serviços públicos e estigma sobre áreas pobres.
No conteúdo, ele destaca principalmente bairros periféricos, onde o lixo se acumula nas ruas e a coleta aparece como irregular ou inexistente. A percepção, no entanto, é apresentada como uma experiência pessoal, não como um ranking técnico.
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Por trás do rótulo de cidade mais suja, há um pano de fundo de crise urbana e de baixa cobertura de coleta de resíduos no país. Organismos e estudos citam taxas reduzidas de coleta em centros urbanos haitianos, o que ajuda a explicar por que o lixo permanece exposto por longos períodos.
Por que Porto Príncipe virou o foco do vídeo sobre cidade mais suja do mundo
Segundo o relato repercutido, Binsky afirma ter cruzado áreas como Cité Soleil e mostrado ruas com entulho, plásticos e restos de construção acumulados. O vídeo se apoia na força visual do cenário e em depoimentos locais sobre a precariedade do serviço.
A dinâmica de Porto Príncipe também pesa na forma como o problema aparece para quem visita. O Haiti concentra desafios históricos de saneamento e gestão urbana, e a capital reúne parte relevante da pressão por serviços, com bairros muito desiguais em estrutura e atendimento.
Esse tipo de registro costuma viralizar porque traduz um problema complexo em uma imagem simples e fácil de compartilhar. O risco é que a narrativa acabe reduzida a um rótulo, sem contexto sobre por que o lixo se acumula e quem é mais afetado.
Crise da coleta de lixo no Haiti explica parte do cenário visto nas ruas
Dados divulgados pelo PNUD no Haiti descrevem uma coleta e gestão de resíduos pouco organizadas em grandes centros urbanos, com pilhas de lixo em calçadas, esquinas e mercados. O mesmo texto aponta uma taxa de coleta em torno de 12 por cento, citando números associados ao Banco Mundial. UNDP

Um estudo técnico do NREL sobre opções de energia a partir de resíduos em Truitier, na região de Porto Príncipe, também registra estimativas baixas de coleta e entrega ao local de descarte. O relatório menciona estimativas de apenas 20 a 22 por cento do lixo gerado na região chegando ao sítio de Truitier, além de valores de geração diária por pessoa na faixa de 0,6 a 0,7 kg.
A situação se torna ainda mais sensível porque Truitier é apontado como o principal ponto de destinação para a área metropolitana, embora com limitações e problemas estruturais. Uma ficha do UNEP Grid descreve Truitier como uma grande área a céu aberto, próxima ao mar e cercada por assentamentos, sem incineração ou reciclagem estruturada no local.
Além do desafio ambiental, há um componente recente de segurança que complica a logística. Em dezembro de 2025, o site haitiano AyiboPost relatou que grupos armados estariam bloqueando o acesso a Truitier e cobrando taxas de caminhões, o que, segundo autoridades municipais ouvidas, piora uma crise já grave de coleta e gestão de resíduos.
Quando a coleta falha, o impacto aparece em cadeia, com lixo em vias públicas, descarte em ravinas e queima a céu aberto em alguns locais, aumentando incômodo e riscos sanitários. É esse cenário, muitas vezes concentrado em áreas periféricas, que tende a ser capturado por câmeras e recortado em vídeos curtos.
Outros lugares citados pelo viajante mostram que sujeira também tem a ver com desigualdade
No material repercutido, Binsky cita ainda Tondo, nas Filipinas, Manshiyat Naser, no Egito, e Stolipinovo, na Bulgária, como exemplos de lugares visualmente muito poluídos. A lista reforça um padrão comum, o problema costuma se concentrar onde serviços públicos falham e comunidades vulneráveis ficam mais expostas.
Ao mesmo tempo, nem todo lugar marcado pelo lixo é só colapso. Em Manshiyat Naser, conhecida como cidade do lixo, há uma economia de triagem e reciclagem associada à comunidade Zabaleen, com relatos de taxas de reciclagem que podem chegar a cerca de 80 por cento do material coletado, apesar das condições precárias de infraestrutura.
Quando relatos de viagem moldam reputações e podem reforçar estigmas
Vídeos de viagem funcionam como guias informais, capazes de influenciar decisões de turismo, doações, investimentos e até a forma como um país é comentado no exterior. Quando o tema é sujeira urbana, a repercussão costuma vir acompanhada de comentários que associam determinadas áreas a risco e doença, o que pode aprofundar estigmas.
Há também um ponto ético recorrente, quem filma geralmente passa pouco tempo no local, enquanto moradores convivem com o problema diariamente e, muitas vezes, sem poder escolher alternativas. Em bairros marginalizados, a falta de coleta regular pode se somar a outras ausências, como água, esgoto e infraestrutura básica, formando um quadro difícil de romper.
Por outro lado, a visibilidade pode pressionar governos e parceiros internacionais a priorizar o tema, além de ajudar a direcionar atenção para políticas de gestão de resíduos, coleta seletiva e educação ambiental. O PNUD, por exemplo, discute soluções que combinam organização da coleta, valorização econômica do resíduo e geração de trabalho.
No caso do Haiti, especialistas e organismos apontam que melhorar a limpeza urbana passa por aumentar cobertura e regularidade da coleta, fortalecer instituições responsáveis e tratar o destino final do lixo. Sem isso, o ciclo de acúmulo, descarte irregular e poluição tende a se repetir, independente do que um influenciador registre em vídeo.
Se um viajante chama uma cidade de mais suja do mundo, isso ajuda a acelerar soluções ou só humilha quem vive ali e precisa de políticas públicas reais? Deixe seu comentário com sua opinião, especialmente se você acha que influenciadores devem mostrar esse tipo de realidade ou se isso apenas reforça estereótipos.


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