Na genealogia que Charles Holman perseguiu por mais de 50 anos, o nome Foree abriu uma ponte brutal entre seus parentes Thomas e os ancestrais da família Bush, mostrando como a escravidão uniu, pelo domínio e pela violência, duas linhagens que o tempo mantinha formalmente separadas até então nos EUA.
A genealogia de Charles Holman começou com uma ausência e terminou com uma ligação histórica incômoda. Aos 66 anos, depois de mais de 50 anos reunindo nomes, documentos e conexões familiares, ele descobriu que ancestrais da família Bush escravizaram ancestrais seus no Kentucky, aproximando duas árvores separadas durante gerações pelo cativeiro.
A descoberta não surgiu por coincidência banal. Ela apareceu quando Holman reconheceu o nome Foree em uma apuração sobre essa linhagem do Kentucky e confirmou que a família havia possuído terras de vários membros da família Thomas, ramo de seus ancestrais. Foi nesse ponto que a genealogia deixou de ser apenas busca por origem e virou confronto direto com a estrutura da escravidão.
Uma busca de infância que durou mais de meio século

A trajetória de Holman começou ainda na escola, quando um professor da quinta série pediu à turma um trabalho sobre a história dos próprios ancestrais antes da imigração para os Estados Unidos. Ele não soube responder.
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A pergunta ficou aberta e, com o tempo, virou motor de uma investigação pessoal que atravessou décadas.
Mais tarde, já adolescente, Holman teve contato com Alex Haley enquanto o autor trabalhava em Raízes. Esse encontro aprofundou o interesse que já estava em formação.
A partir dali, a genealogia se transformou em projeto persistente, levado adiante ao longo de mais de 50 anos por um homem que decidiu preencher as lacunas deixadas pela escravidão nos registros de sua própria família.
No caminho, Holman foi encontrando parentes negros e brancos, além de descendentes de pessoas que mantiveram a posse legal de seus familiares durante o século XIX.
Cada novo documento não apenas ampliava a árvore familiar, mas expunha a lógica do cativeiro como mecanismo de separação e de registro desigual da memória.
Essa longa pesquisa explica por que a revelação envolvendo a família Bush não apareceu como um choque isolado, mas como o ponto mais visível de uma investigação já amadurecida.
A genealogia, nesse caso, não produziu uma simples curiosidade de sobrenomes. Produziu uma conexão concreta entre poder político contemporâneo e a história de pessoas mantidas em cativeiro.
O nome Foree e a ponte documental com a família Bush
O elo decisivo surgiu quando Holman leu uma apuração sobre a família Foree, do Kentucky, identificada como linhagem ancestral direta dos presidentes George H.W. Bush e George W. Bush.
O sobrenome não lhe pareceu estranho.
Ao aprofundar a checagem, ele confirmou que os Foree haviam possuído terras de vários membros da família Thomas, seus ancestrais.
Esse ponto é central porque não se trata de uma associação vaga.
O que a pesquisa de Holman encontrou foi uma sobreposição entre duas histórias familiares que haviam sido mantidas juntas pela violência da escravidão e separadas pela forma como o passado foi transmitido.
De um lado, uma linhagem preservada no espaço do prestígio político; de outro, uma linhagem quebrada pelo cativeiro e pelo apagamento.
A partir daí, Holman entrou em contato com integrantes da família Bush, incluindo George W. Bush, Laura Bush, Jenna Bush Hager e Jeb Bush.
Até o momento mencionado na base, nenhum deles havia respondido. O silêncio não altera o dado principal, mas reforça o desconforto do caso: a genealogia produziu uma ponte documental que encosta diretamente a memória familiar de Holman em uma das famílias políticas mais conhecidas dos Estados Unidos.
Há ainda outros elementos que agravam o peso histórico dessa ligação.
Na apuração mencionada, a família Foree aparece ligada à posse de mais de duas dúzias de pessoas escravizadas, enquanto um dos ancestrais da família Bush teria participado de quase uma dúzia de viagens do comércio de escravos entre os Estados Unidos e a costa oeste da África.
Quando a genealogia chega a esse ponto, ela deixa de contar apenas de onde alguém veio e passa a mostrar como certas fortunas e certos sobrenomes foram construídos.
O que o cativeiro fez com as duas árvores familiares
A força simbólica da descoberta está no fato de que essas duas árvores nunca estiveram realmente separadas no passado. Elas foram unidas de forma brutal pelo cativeiro.
O que estava separado era a maneira como essa ligação era lembrada, registrada e transmitida. Em uma ponta ficaram sobrenomes vinculados a riqueza, terra e projeção pública.
Na outra, ancestrais cuja história precisou ser remontada contra o desaparecimento documental produzido pela escravidão.
Essa diferença importa porque a escravidão não operou apenas como exploração econômica. Ela também reorganizou a memória.
O cativeiro quebrou linhas familiares, embaralhou nomes, apagou vínculos e dificultou que descendentes pudessem saber quem eram.
A pesquisa de Holman enfrenta exatamente esse efeito prolongado: o de uma estrutura que não terminou quando a escravidão acabou formalmente.
É por isso que a ligação com a família Bush tem peso maior do que a curiosidade pública em torno de um sobrenome famoso.
O caso mostra como a escravidão continua presente não só nos arquivos, mas na própria arquitetura da sociedade americana, onde linhagens de poder e linhagens marcadas pela violência do cativeiro muitas vezes nasceram da mesma relação histórica.
Ao identificar essa conexão no Kentucky, Holman não encontrou apenas uma coincidência genealógica. Ele encontrou uma prova de que duas famílias que hoje parecem ocupar lugares completamente distintos foram unidas por uma ordem social fundada na posse de pessoas.
A genealogia, quando chega a esse tipo de evidência, vira também uma forma de desmontar a falsa neutralidade do passado.
Quando a genealogia deixa de ser memória privada e vira problema público
A descoberta de Holman ocorre em um momento em que famílias, universidades e instituições poderosas vêm sendo pressionadas a lidar com seus próprios vínculos com a escravidão.
A base enviada lembra, por exemplo, a investigação anunciada pelo Rei Charles sobre os laços da família real britânica com o tráfico de escravos e a decisão de Harvard de destinar US$ 100 milhões para enfrentar disparidades raciais ligadas a seu passado escravista.
Nesse contexto, a pesquisa de Holman ganha uma dimensão pública clara. Ela não fala apenas da família Bush ou de seus ancestrais.
Ela fala da dificuldade dos Estados Unidos em lidar com a própria formação. Enquanto algumas instituições começam a encarar esse legado, outros ambientes políticos seguem tentando minimizar a escravidão ou reduzir seu espaço no ensino de história.
A genealogia, nesse cenário, vira uma ferramenta de confronto com versões confortáveis do passado.
O caso também ajuda a entender por que buscas familiares assim são tão sensíveis. Elas não produzem apenas reconciliação ou pertencimento.
Às vezes, produzem atrito, silêncio e desconforto. No caso de Holman, a descoberta une duas linhagens do Kentucky que o cativeiro separou em posição social, memória e poder.
O que reaparece não é uma história de reencontro harmonioso, mas de proximidade histórica construída pela violência.
Ainda assim, há um efeito reparador nesse tipo de investigação.
Ao reconstruir a trajetória dos Thomas e ligá-la aos Foree e à família Bush, Holman devolve densidade aos seus ancestrais e impede que o passado permaneça reduzido à opacidade. Quando a genealogia consegue nomear quem foi apagado, ela já altera a balança da memória.
