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Em 2022, a NASA atirou uma nave contra um asteroide a 6,6 km por segundo e mudou sua órbita em 33 minutos — agora a sonda Hera da Europa viaja até lá para inspecionar o estrago e tornar a defesa planetária uma ciência exata

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 20/04/2026 às 11:00
Sonda Hera da ESA se aproximando do sistema de asteroides Didymos-Dimorphos
Sonda Hera viaja desde outubro de 2024 e chega ao asteroide que a NASA rebateu em novembro de 2026
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Em 2022, a NASA atirou uma nave contra um asteroide para desviá-lo da rota — agora a sonda Hera da Europa viaja até lá para inspecionar o estrago de perto e transformar o teste em uma técnica real de defesa planetária

Há quatro anos, a humanidade fez algo inédito. Em 26 de setembro de 2022, a nave DART, da NASA, colidiu intencionalmente contra o asteroide Dimorphos a uma velocidade de 6,6 quilômetros por segundo. O impacto alterou a órbita do asteroide em 33 minutos — 25 vezes mais do que o mínimo necessário para provar que a técnica funciona.

Mas provar que funciona foi só o primeiro passo. Agora a Europa quer entender exatamente como e por quê.

A sonda Hera, da Agência Espacial Europeia, chega ao sistema Didymos-Dimorphos em novembro de 2026, após uma viagem de dois anos desde seu lançamento em outubro de 2024.

O que a Hera vai fazer quando chegar ao asteroide

A missão da Hera é simples de entender, mas extraordinariamente difícil de executar.

Ela precisa encontrar dois asteroides pequenos e escuros no meio do espaço profundo, se aproximar a apenas 1 quilômetro da superfície e estudar cada detalhe do que a DART deixou para trás.

A sonda vai mapear a cratera do impacto, medir a massa e a estrutura interna dos asteroides e analisar se o choque escavou material da superfície ou expôs camadas mais profundas.

A investigação terá seis meses de duração. Durante esse período, a Hera também liberará dois mini-satélites chamados CubeSats:

  • Juventas — analisará a superfície do asteroide de perto
  • Milani — equipado com uma câmera hiperespectral que capta luz em comprimentos de onda invisíveis ao olho humano, revelando a composição do asteroide

Os dados coletados vão alimentar modelos de impacto da ESA e da NASA, permitindo calcular com precisão o chamado “fator beta” — a eficiência real de desvio por impacto.

DART momentos antes do impacto com Dimorphos

O que a DART fez em 2022 — e por que não foi suficiente

A DART pesava 570 quilogramas. Dimorphos tem cerca de 160 metros de diâmetro. É como jogar uma bola de tênis contra uma montanha — e fazer a montanha se mover.

E funcionou. O período orbital de Dimorphos ao redor do asteroide maior Didymos mudou de 11 horas e 55 minutos para 11 horas e 22 minutos.

Mas telescópios terrestres só conseguem medir a mudança orbital. Não conseguem ver o tamanho da cratera, a composição do material ejetado ou como a estrutura interna do asteroide absorveu o impacto.

Sem esses dados, a técnica de desvio por impacto é um tiro no escuro. Sabemos que funcionou uma vez, mas não sabemos prever como funcionaria em outro asteroide com tamanho, composição ou estrutura diferente.

É exatamente isso que a Hera vai resolver.

A viagem de dois anos e a manobra que equivale a “ir de parado a supersônico”

A Hera foi lançada de Cabo Canaveral em 7 de outubro de 2024, a bordo de um foguete Falcon 9 da SpaceX.

Durante a viagem, a sonda teve uma surpresa: passou pela cauda cometária do objeto interestelar 3I/ATLAS em outubro de 2025, coletando dados de bônus sobre um visitante vindo de fora do Sistema Solar.

Entre fevereiro e março de 2026, a Hera executou sua maior manobra de espaço profundo, descrita pelos engenheiros da ESA como “equivalente a acelerar de estacionário a supersônico.”

A sonda mede apenas 2,2 por 2 por 1,8 metros — menor que um carro popular — e pesa até 1.214 quilogramas com combustível. Seus painéis solares cobrem 8,7 metros quadrados e alimentam 12 instrumentos científicos.

Em outubro de 2026, queimas precisas de motor farão a transição de cruzeiro para rendezvous com o asteroide.

Cratera de impacto na superfície de Dimorphos

Por que proteger a Terra de asteroides importa — mesmo sem ameaça atual

Não existe nenhum asteroide conhecido em rota de colisão com a Terra nos próximos séculos.

Mas a história geológica mostra que impactos acontecem. Há 66 milhões de anos, um asteroide de 10 quilômetros extinguiu os dinossauros. E asteroides menores — de 100 a 300 metros — poderiam devastar cidades inteiras ou gerar tsunamis catastróficos.

A diferença entre um cenário de ficção científica e uma catástrofe real é justamente ter uma técnica validada e previsível de desvio pronta antes que a ameaça apareça.

É isso que a combinação DART + Hera representa: o primeiro teste completo de defesa planetária da história.

A DART provou que é possível mover um asteroide. A Hera vai transformar essa prova em uma técnica que pode ser repetida e calculada com precisão.

14 anos de colaboração entre NASA e ESA

O projeto começou a ser planejado em 2013, quando NASA e ESA discutiram pela primeira vez missões complementares de defesa planetária.

Foram 14 anos do conceito inicial até a chegada da Hera ao asteroide — uma das mais longas colaborações entre as duas maiores agências espaciais do Ocidente.

Nenhuma outra agência espacial — nem a russa Roscosmos, nem a chinesa CNSA — tem missão equivalente em andamento.

A combinação DART-Hera coloca Estados Unidos e Europa na liderança absoluta em defesa planetária.

A Hera integra o Programa de Segurança Espacial da ESA, e a rede Estrack de estações terrestres da agência rastreia a sonda durante toda a missão.

CubeSat liberado da sonda Hera

O que esperar a partir de novembro de 2026

Quando a Hera chegar, os primeiros dados da cratera de impacto serão os mais aguardados.

Saber o tamanho e a profundidade da cratera revelará quanta energia o impacto transferiu para o asteroide — e quanta foi perdida na ejeção de material.

A estrutura interna de Dimorphos também é crucial. Se o asteroide é um aglomerado frouxo de rochas, o impacto se dissipa de forma diferente do que em um corpo sólido.

Entender essa diferença é o que separa uma técnica de defesa planetária “provável” de uma que pode ser calculada com certeza.

Porém, a missão enfrenta desafios técnicos consideráveis. Dimorphos é pequeno e escuro — difícil de localizar mesmo para instrumentos avançados. As manobras de aproximação exigem precisão extrema, e atualizações de software estão sendo enviadas à sonda continuamente para otimizar as operações próximas ao asteroide.

Se tudo correr como planejado, a humanidade terá, pela primeira vez na história, não apenas provado que pode desviar um asteroide — mas entendido exatamente como fazer de novo.

Se a humanidade já provou que pode desviar um asteroide, por que ainda não investimos o mesmo esforço para mapear todos os que podem nos atingir?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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