Após chuvas excepcionais inundarem o interior de Queensland, helicópteros passaram a lançar feno para rebanhos cercados pela água, enquanto produtores e autoridades ampliavam uma operação emergencial que alcançou milhões de dólares.
O barulho da chuva que castigou o interior de Queensland, na Austrália, foi substituído pelo som quase constante de helicópteros.
Sobre propriedades cercadas por quilômetros de água, pilotos passaram a transportar e lançar fardos de feno para alcançar rebanhos isolados, enquanto pecuaristas tentavam conduzir animais para os poucos terrenos ainda elevados.
A operação ganhou força nos primeiros dias de janeiro de 2026, principalmente nos arredores de Julia Creek, uma das áreas mais atingidas pelas enchentes no noroeste do estado.
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Estradas, linhas ferroviárias e pistas de pouso ficaram interrompidas, transformando comunidades rurais em verdadeiras ilhas e fazendo do transporte aéreo uma das poucas alternativas para manter o gado alimentado.
O pecuarista Cody Rogers, envolvido na coordenação dos voos, contou à ABC australiana que sua equipe já havia distribuído 70 ou 80 fardos em propriedades da região.
Apenas em um dos dias da operação, segundo ele, combustível, feno e horas de helicóptero custaram aproximadamente A$ 40 mil.
Diante da emergência, os governos da Austrália e de Queensland anunciaram inicialmente um pacote conjunto de A$ 2 milhões para garantir alimento aos animais isolados.
O auxílio começou direcionado ao município de McKinlay, onde fica Julia Creek, e posteriormente foi ampliado conforme a dimensão dos danos ficou mais clara.
Uma chuva quase dez vezes maior que a média de dezembro
A dimensão da inundação ajuda a explicar por que propriedades normalmente acessíveis por estrada precisaram depender de helicópteros.
Dados do Bureau of Meteorology mostram que o aeroporto de Julia Creek acumulou 551,4 milímetros de chuva em dezembro de 2025, contra uma média histórica de aproximadamente 55,5 milímetros para o mês.
Foi o maior total de dezembro registrado naquele ponto em mais de duas décadas de observações.
Só em 30 de dezembro foram medidos 151,8 milímetros.
A maior parte da chuva caiu nos últimos dias do mês, quando uma baixa pressão tropical associada à monção avançou sobre o norte e o noroeste de Queensland.
O resultado apareceu rapidamente nos rios.
O Flinders, em Julia Creek, chegou a aproximadamente 4,88 metros em 30 de dezembro, ultrapassando o nível considerado de grande inundação.
A água permaneceu elevada por semanas e novas chuvas em janeiro prolongaram os alagamentos.

Um “mar interior” tomou conta das propriedades
A Queensland Reconstruction Authority chegou a descrever a paisagem depois das chuvas como um “inland sea” — um mar interior.
Pasto, cercas, estradas e acessos desapareceram sob a água.
Em alguns pontos, o problema para os pecuaristas não era apenas impedir que os animais se afogassem.
Mesmo bovinos que conseguiam chegar a terrenos mais altos acabavam cercados pela inundação, sem acesso suficiente ao capim e impossibilitados de receber alimento por caminhão.
Helicópteros passaram então a cumprir duas funções.

Enquanto algumas equipes transportavam feno, pilotos e produtores também trabalhavam para conduzir o gado através da água até áreas mais altas.
Rogers descreveu à ABC uma equipe de pilotos atuando diretamente nessa movimentação durante dois dias consecutivos.
A operação dependia, porém, de um recurso caro.
Cada voo consome combustível, horas de aeronave e pessoal especializado.
Além disso, era necessário comprar ou deslocar o próprio alimento até pontos onde pudesse ser carregado.
A$ 2 milhões foram anunciados para manter o feno chegando
Em 2 de janeiro de 2026, os governos federal e estadual anunciaram o primeiro pacote emergencial voltado especificamente à distribuição de alimento.
Os A$ 2 milhões foram financiados conjuntamente por meio dos Disaster Recovery Funding Arrangements, mecanismo utilizado pelos dois níveis de governo para responder a grandes desastres.
Inicialmente, o foco era McKinlay Shire.
Pouco depois, o alcance foi ampliado para produtores de Carpentaria, Cloncurry, Flinders, McKinlay e Richmond.
O dinheiro poderia cobrir justamente os custos extraordinários da operação, incluindo combustível de aviação, aluguel de helicópteros e salários adicionais ligados à distribuição aérea de feno.
Os pecuaristas precisavam comunicar a necessidade aos conselhos locais, que organizariam o apoio.
Naquele momento, a ministra de Recuperação de Desastres de Queensland, Ann Leahy, afirmou que outras áreas poderiam ser incorporadas caso novos pedidos e impactos justificassem a expansão.
O pacote de A$ 2 milhões acabou crescendo
A extensão da inundação levou essa ampliação a ocorrer poucos dias depois.
Em 6 de janeiro, os governos anunciaram mais A$ 5 milhões para o programa emergencial de alimentação, fazendo o pacote então chegar a A$ 7 milhões.
O reforço fazia parte de um conjunto adicional de A$ 38 milhões destinado à recuperação do noroeste de Queensland.
Nos meses seguintes, o apoio cresceu novamente.
Informações atualizadas do governo de Queensland registram atualmente um programa coordenado de A$ 12 milhões para fornecimento emergencial de alimento, cobrindo dez áreas de governo local, entre elas McKinlay, Cloncurry, Richmond e Winton.
Assim, os A$ 2 milhões citados no início da operação foram o primeiro pacote, anunciado quando ainda não se conhecia toda a extensão dos prejuízos.

Número de animais perdidos aumentou com o recuo das águas
Nos primeiros dias de janeiro, o Department of Primary Industries ainda não tinha um balanço consolidado.
Alguns proprietários relatavam perdas pequenas, enquanto outros tentavam encontrar rebanhos inteiros que haviam desaparecido em áreas alagadas.
À medida que as avaliações avançaram, os números cresceram.
Em 6 de janeiro, autoridades já falavam em mais de 24 mil animais mortos ou desaparecidos em propriedades afetadas.
Em fevereiro, documentos do Parlamento de Queensland registravam mais de 94 mil cabeças de gado e outros animais de produção declarados mortos ou desaparecidos.
O Bureau of Meteorology, em seu balanço posterior da temporada, passou a estimar que as enchentes provocaram perdas superiores a 100 mil bovinos no noroeste de Queensland.
Isso coloca a imagem dos helicópteros soltando fardos sobre áreas alagadas dentro de uma operação muito maior do que parecia nos primeiros dias.

Julia Creek recebeu quase dez vezes sua chuva normal
A própria prefeitura regional de McKinlay detalhou posteriormente a excepcionalidade do episódio.
Entre 24 e 31 de dezembro, Julia Creek recebeu 498,6 milímetros de chuva, e outros 75,8 milímetros foram registrados apenas na primeira semana de janeiro.
Moradores de longa data compararam o episódio com as grandes enchentes de 2019 e até com inundações de 1974.
Apesar das comparações, cada desastre teve distribuição e intensidade diferentes.
No caso de 2025 e 2026, o volume acumulado de dezembro chamou atenção: os 551,4 milímetros registrados no aeroporto foram quase dez vezes a média histórica daquele mês.
O Bureau of Meteorology classificou dezembro de 2025 como o dezembro mais chuvoso em Queensland desde 2010, com grandes áreas do norte e do oeste do estado registrando totais muito acima da média ou recordes históricos.
Mesmo depois da emergência, alimento continuou chegando
A necessidade não terminou quando os primeiros helicópteros deixaram de dominar o céu.
Em março de 2026, uma organização beneficente que atuou em Julia Creek informou ter distribuído mais de 200 toneladas de ração e alimento doados a produtores e pecuaristas afetados pelas enchentes.
Meses depois, o governo de Queensland ainda mantinha mecanismos específicos de apoio para propriedades atingidas pelo período de chuvas entre dezembro de 2025 e março de 2026.
Para quem observava de cima durante os dias mais críticos, porém, a urgência era muito mais imediata.
Onde antes havia extensões de pasto e estradas rurais, havia água.
Onde os caminhões não conseguiam chegar, o alimento precisava vir pelo ar.
E foi assim que fardos de feno começaram a descer de helicópteros sobre um pedaço do interior australiano temporariamente transformado em um mar de água doce com milhares de animais esperando em pequenas faixas de terra seca.
