Michael Hingson, com 76 anos, estava no 78º andar da torre norte com o colega David Frank e a labrador Roselle quando o avião bateu às 8h46 de 11 de setembro de 2001. Os três desceram, cruzaram a Broadway e se abrigaram numa estação de metrô. Roselle morreu em 2011
Michael Hingson, cego de nascença, estava na porta do escritório no 78º andar da torre norte do World Trade Center, em Nova York, quando um avião sequestrado por agentes da Al-Qaeda atingiu o prédio às 8h46 de 11 de setembro de 2001. Ele desceu as escadas ao lado da cadela-guia Roselle, uma labrador retriever amarela, e do colega David Frank, chegou à rua e sobreviveu ao desabamento das duas torres.
As informações foram publicadas pela revista People em 7 de setembro de 2026, em reportagem de Diane Herbst, com entrevista de Hingson, hoje com 76 anos, 25 anos depois do atentado.
8h46: o prédio balançou “uns seis metros” e os dois colegas se despediram
Hingson ouviu uma explosão abafada, e o prédio estremeceu e começou a inclinar-se, a quase 100 andares acima das ruas da parte baixa de Manhattan. “Provavelmente nos movemos uns seis metros”, recorda.
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“David e eu nos despedimos, porque achávamos que íamos cair do 78º andar até a rua”, conta Hingson. Frank, gerente regional de vendas de uma empresa de armazenamento de dados, se agarrava a uma mesa; os dois preparavam um seminário naquela manhã. Embaixo da mesa de Hingson, Roselle dormia.
“Tem fogo e fumaça em cima de nós”: a decisão de descer

Hingson ligou para a esposa, Karen, em casa em Westfield, Nova Jersey, e avisou que havia uma emergência. Após uma varredura do escritório, para confirmar que não havia outros colegas, ele, Roselle e Frank começaram a descer. Cerca de 15 andares acima, a torre era consumida pelo fogo.
“Os cães não lideram. Eles guiam”: Roselle na escada apertada

Na fuga, Roselle às vezes caminhava ao lado de Hingson, guiando-o em torno dos obstáculos. Na escadaria apertada, muitas vezes não havia espaço, e ela seguia ao lado enquanto ele segurava o corrimão.
“Os cães não lideram. Eles guiam”, explica Hingson.
“Boa cachorra, Roselle”: a calma como estratégia
Enquanto desciam, Hingson repetia à cadela: “Boa cachorra, Roselle. Você está fazendo um ótimo trabalho”.
“Eu sabia que ela ia perceber o medo em todos os outros, então precisava que ela soubesse que eu estava bem”, diz.
Abraço em grupo na escada e beijos da cadela
Cerca de 10 andares abaixo, uma mulher atrás deles parou e disse: “Não consigo respirar, não consigo continuar”. Hingson voltou para ajudar.
“Literalmente, nos abraçamos em grupo ali mesmo na escada”, conta. Roselle ofereceu o próprio consolo: beijos.
50º andar: “Mike, nós vamos morrer”
No 50º andar, o medo tomou conta de Frank. “Mike, nós vamos morrer. Não vamos sair daqui”, gritou, segundo Hingson.
“Pare com isso, David. Se eu e Roselle conseguimos descer essas escadas, você também consegue”, ordenou Hingson. Frank se acalmou, passou a caminhar um andar à frente e a narrar o que via. “David foi, sem dúvida, uma das principais forças que impediram as pessoas naquela escadaria de entrarem em pânico”, diz Hingson.
Cerca de 50 bombeiros subindo; 343 morreram naquele dia
Com o tempo, os bombeiros começaram a ultrapassá-los na subida, cerca de 50 no total, estima Hingson. Algumas pessoas perguntaram se podiam ajudar.
“Sua tarefa é descer e sair. Nós cuidaremos do que está acontecendo lá em cima”, disseram os socorristas. Ao todo, 343 bombeiros de Nova York morreram no desabamento das torres.
Broadway: “Saiam daqui imediatamente, o prédio vai desabar!”
No saguão, um agente do FBI orientou Hingson e Frank a sair do complexo. Logo depois de atravessar a Broadway, um policial gritou: “Saiam daqui imediatamente, o prédio vai desabar!”.
A torre sul, de 110 andares, atingida pouco depois da norte por outro avião, se desintegrava. Hingson descreve o som como uma “onda que era uma combinação de um trem de carga e uma cachoeira”. “Todo mundo virou as costas e correu”, diz.
“Não se preocupe com o que você não pode controlar”: a voz na cabeça
“A primeira coisa que pensei foi: ‘Meu Deus, não acredito que você nos tirou de um prédio só para ele desabar em cima de nós'”, relata Hingson.
“E quando fiz isso, literalmente ouvi na minha cabeça uma voz que dizia: ‘Não se preocupe com o que você não pode controlar. Concentre-se em correr com a Roselle, e o resto se resolverá sozinho’.”
Roselle parou no topo da escada e levou o grupo ao metrô
Na rua, a cadela-guia parou abruptamente no topo de uma escada e conduziu Hingson a um abrigo subterrâneo em uma estação de metrô.
Quando um policial liberou a saída, Hingson, Roselle e Frank voltaram à rua. “David olhou para nós e disse: ‘Meu Deus, Mike, tudo o que vejo são colunas de fumaça com centenas de metros de altura. Acabou'”, conta.
“O World Trade Center não existe mais. Ele sumiu.”
Cerca de 10 minutos depois, a torre norte, de onde haviam acabado de escapar, também desabou.
“Nós nos agachamos e, quando todo o barulho cessou, nos levantamos e David olhou em volta e disse: ‘Meu Deus, Mike, o World Trade Center não existe mais. Ele sumiu'”, relata Hingson.
Em casa, Roselle pegou o brinquedo favorito
Na noite de 11 de setembro, Hingson voltou para casa, em Nova Jersey. Roselle pegou o brinquedo favorito e começou a brincar.
“Para ela, tudo havia acabado. Nada a ameaçava. Ela estava bem”, diz ele.
25 anos depois: livros, prêmio de Roselle e o nono cão-guia em Victorville

Após os ataques, Hingson se mudou para a Califórnia e trabalhou na organização Guide Dogs for the Blind. Virou palestrante sobre confiança, trabalho em equipe e controle do medo; suas memórias de 2011, “Thunder Dog”, foram best-seller do New York Times, e “Live Like a Guide Dog” saiu em 2024. Roselle recebeu em 2002 o Prêmio de Excelência Canina (ACE) na categoria cães de serviço e morreu em junho de 2011, aos 14 anos.
Em setembro de 2026, Hingson vive em Victorville, na Califórnia, com Alamo, seu nono cão-guia; a esposa, Karen, morreu em 2022. “Não se preocupe com o que você não pode controlar. Concentre-se nas coisas que você pode, porque se você se preocupar com tudo, só vai enlouquecer”, diz. “Se nos deixarmos cegar pelo medo, tudo o que vamos conseguir é tornar a nossa vida mais difícil.”
Na sua opinião, o que salvou Michael Hingson no 11 de setembro: a calma que ele manteve para não assustar Roselle, o treinamento da cadela-guia ou a decisão de David Frank de narrar a descida um andar à frente? Deixe sua opinião nos comentários.
