Cerca de 120 mamíferos marinhos formavam o programa americano em 2024; capacidades naturais ainda superam equipamentos eletrônicos em águas rasas, turvas e repletas de obstáculos
Golfinhos e leões-marinhos da Marinha dos Estados Unidos executam tarefas que parecem retiradas de uma história de espionagem: procuram minas submersas, recuperam equipamentos no fundo do mar e ajudam a deter mergulhadores que entram sem autorização em áreas militares.
O programa começou em 1959, com apenas um golfinho, e chegou a aproximadamente 120 animais em 2024. Eles ficam baseados principalmente em Point Loma, na baía de San Diego, onde são treinados para trabalhar ao lado de marinheiros, fuzileiros navais e equipes da Guarda Costeira.
Embora sejam frequentemente chamados de “golfinhos de combate”, os animais não recebem armas nem são treinados para matar pessoas. Na interceptação de um mergulhador, o procedimento é mais preciso: o mamífero aciona uma braçadeira ligada a um cabo, afasta-se e deixa a contenção para a equipe humana.
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Tudo começou com um golfinho usado para estudar velocidade
A origem do programa não estava diretamente ligada à guerra submarina. Em 1959, pesquisadores da Marinha começaram a estudar a velocidade e a hidrodinâmica de um golfinho para descobrir se características do animal poderiam contribuir para o desempenho de navios e torpedos.
Nos primeiros anos, mais de uma dezena de espécies de mamíferos marinhos passou por avaliações. Tubarões, raias, tartarugas e aves marinhas também foram estudados. A seleção acabou reduzida a duas espécies: o golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) e o leão-marinho-da-Califórnia (Zalophus californianus).
A escolha não ocorreu por apelo visual. De acordo com o Marine Mammal Program do NIWC Pacific, as duas espécies combinam capacidade de aprendizado, adaptação a diferentes ambientes marinhos, audição direcional e desempenho em mergulhos repetidos.
Em 2024, quando o programa completou 65 anos, a Marinha mantinha aproximadamente 120 animais treinados para detectar minas e outros perigos submarinos, conforme levantamento publicado pelo Navy Times.
O sonar natural dos golfinhos encontra objetos que equipamentos podem perder
O principal instrumento do golfinho é a ecolocalização. O animal emite sons e interpreta os ecos devolvidos por objetos, sedimentos e estruturas submersas. Isso permite distinguir formas em águas escuras, rasas ou repletas de obstáculos, cenários nos quais um sonar eletrônico pode enfrentar dificuldade.
Os golfinhos são enviados para procurar minas posicionadas na coluna d’água ou no fundo do mar. Quando encontram um objeto suspeito, retornam à equipe e recebem um marcador para indicar a localização. Eles não são utilizados para detonar ou desarmar o explosivo.
Os leões-marinhos cumprem uma função diferente. Sua visão em baixa luminosidade e a audição direcional subaquática permitem localizar equipamentos perdidos e prender cabos de recuperação a objetos submersos. A partir daí, guinchos e equipes humanas realizam o içamento.
As duas espécies conseguem mergulhar repetidamente a centenas de pés sem sofrer a doença descompressiva que ameaça mergulhadores humanos. A própria Marinha admite que veículos submarinos não tripulados poderão assumir essas missões no futuro, mas sustenta que a tecnologia ainda não igualou todas as capacidades naturais dos animais.
Esse detalhe explica a longevidade do programa. Os mamíferos não substituem apenas um sensor: reúnem mobilidade, percepção, capacidade de decisão e adaptação a ambientes desorganizados em um único “sistema” vivo.
A braçadeira é presa ao mergulhador, mas quem faz a captura é a equipe humana
A interceptação de mergulhadores costuma gerar as descrições mais exageradas do programa. Documentos operacionais da própria Marinha esclarecem como o procedimento funciona.
Primeiro, o animal procura o nadador ou mergulhador não autorizado. Após a detecção, ele retorna à embarcação e alerta os treinadores. Em seguida, recebe um marcador ou uma braçadeira equipada com mecanismo acionado por pressão.
O animal volta até o alvo, fixa o dispositivo — normalmente na perna — e deixa a área. A braçadeira permanece ligada a um cabo, utilizado pelo pessoal da embarcação de segurança para trazer o invasor até a superfície.
Essa sequência aparece em uma avaliação ambiental da Marinha dos Estados Unidos. O documento desfaz a imagem de um leão-marinho lutando fisicamente contra o mergulhador: o animal marca o alvo, enquanto militares realizam a captura.
A missão tem caráter defensivo. Portos, submarinos, navios e instalações costeiras podem ser vulneráveis a mergulhadores encarregados de instalar explosivos, recolher informações ou sabotar estruturas abaixo da linha d’água.
Contrato poderia chegar a US$ 77,5 milhões até 2031
Manter aproximadamente 120 animais, treinadores, instalações, alimentação especializada, transporte e atendimento veterinário exige uma estrutura distante da imagem de um simples adestrador lançando peixes de uma pequena embarcação.
Em agosto de 2024, o governo americano concedeu à Science Applications International Corporation um contrato inicial de US$ 10,79 milhões para treinamento e cuidados com os animais empregados nos sistemas de mamíferos marinhos da Marinha.
O acordo tinha duração inicial de um ano e previa seis opções adicionais. Se todas fossem exercidas, o valor potencial chegaria a US$ 77,56 milhões e os serviços continuariam até agosto de 2031, segundo o comunicado contratual do Departamento de Defesa.
Esse teto não deve ser confundido com dinheiro integralmente gasto ou com o orçamento total do programa. Trata-se do valor máximo estimado para aquele contrato, condicionado à ativação das opções anuais.
A Marinha também afirma que o trabalho produziu mais de 1.200 publicações científicas sobre saúde, fisiologia, sentidos e comportamento de mamíferos marinhos. Veterinários acompanham os deslocamentos, inclusive quando golfinhos são transportados em macas acolchoadas e recipientes com água a bordo de navios ou aeronaves.
Programa russo saiu da era soviética e voltou ao serviço em Sebastopol
Os Estados Unidos não foram os únicos a perceber o valor militar dos mamíferos marinhos. A União Soviética desenvolveu programas semelhantes durante a Guerra Fria, incluindo uma unidade instalada perto de Sebastopol, na Crimeia.
Com o fim da União Soviética, em 1991, a estrutura passou para a Ucrânia e sobreviveu com dificuldades. A Rússia assumiu o controle da instalação após a anexação da Crimeia, em 2014, e posteriormente ampliou o emprego operacional dos animais.
Em fevereiro de 2022, imagens de satélite mostraram dois cercados para golfinhos posicionados na entrada do porto de Sebastopol, principal base da Frota Russa do Mar Negro. A avaliação publicada pelo USNI News indicou que os animais poderiam estar sendo utilizados contra mergulhadores encarregados de sabotar navios.
Novas imagens analisadas em 2023 sugeriram que a quantidade de cercados havia dobrado e que entre seis e sete golfinhos poderiam estar envolvidos na proteção da base, conforme o Naval News. A estimativa nasceu da análise visual das instalações, não de uma divulgação oficial russa sobre o número de animais ou suas ordens operacionais.
Uso militar dos animais permanece cercado por críticas
A presença de golfinhos e leões-marinhos em missões militares provoca uma discussão que vai além das condições veterinárias. Organizações de proteção animal questionam se uma espécie pode ser mantida em cativeiro e exposta a zonas de conflito para atender a decisões humanas.
O Dolphin Project, organização fundada pelo ativista Ric O’Barry, defende o encerramento do programa e argumenta que o confinamento, o treinamento baseado em recompensas e os riscos de uma operação militar não podem ser justificados apenas pela eficiência dos animais. A posição completa está publicada na campanha contra o uso de golfinhos pela Marinha.
A Marinha contesta a imagem de animais convertidos em armas ofensivas. Segundo o NIWC Pacific, décadas de sigilo ajudaram a alimentar relatos sobre golfinhos armados ou treinados para matar. O programa foi desclassificado no início dos anos 1990, e a instituição afirma que as missões conhecidas se concentram em detecção, marcação, recuperação e segurança.
O ponto ainda sem desfecho é tecnológico. A Marinha espera que robôs submarinos possam assumir mais tarefas, mas reconhece que, por enquanto, eles não reproduzem completamente o sonar biológico, a percepção e a capacidade de adaptação desses animais. Mais de seis décadas depois do primeiro experimento, golfinhos e leões-marinhos continuam ocupando um espaço que as máquinas ainda não conseguiram tomar.
Fontes
NIWC Pacific, Departamento de Defesa dos Estados Unidos, Navy Times, USNI News, Naval News, documentos ambientais da Marinha dos Estados Unidos e Dolphin Project.


