Fundada na Mooca e instalada em Guarulhos, a Italbronze produz peças de bronze para máquinas de mineração e emprega cerca de 470 pessoas. A finlandesa Metso assinou acordo para comprá-la, mas o negócio ainda depende de aprovação.
Uma fábrica brasileira que começou como pequena oficina de bronze na Mooca, em São Paulo, atravessou décadas, mudou-se para Guarulhos e passou a fornecer peças para equipamentos de mineração usados em diferentes países. Agora, essa história industrial entrou nos planos de uma gigante finlandesa. A Metso assinou um acordo para comprar a Italbronze, fabricante que reúne cerca de 470 trabalhadores e produz componentes capazes de manter máquinas enormes funcionando longe dos grandes centros.
O anúncio foi feito em 20 de outubro de 2026. A Italbronze já fornecia peças à Metso havia mais de 30 anos. A diferença é que a empresa estrangeira pretende deixar de ser apenas uma cliente importante para assumir o controle da fabricante paulista, caso o negócio receba as aprovações necessárias. O preço não foi divulgado, e a conclusão é esperada até o final de 2026. A operação, portanto, foi anunciada e contratada, mas ainda não estava concluída na data do comunicado.
Da Mooca a uma fábrica de 45 mil metros quadrados: a história por trás da negociação
Antes de atender mineradoras de vários continentes, o negócio surgiu de uma necessidade da indústria brasileira. Em 17 de abril de 1958, os irmãos Ferdinando e Silvano Maestripieri se uniram ao amigo Paulo Bovani e criaram a Indústria Metalúrgica Bovani-Maestripieri, na Mooca. O setor automobilístico estava crescendo e precisava de peças produzidas no Brasil que pudessem competir em qualidade com componentes importados.
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A manufatura ganhou espaço na indústria e, nos anos 1970, instalou uma unidade fabril em Guarulhos, na Grande São Paulo. O nome mudou para Italbronze, reunindo a referência à origem italiana de seus fundadores e ao metal que se tornou sua especialidade. A empresa descreve atualmente um complexo industrial de 45 mil metros quadrados, com mais de 16 mil metros quadrados de construções, laboratórios e máquinas de fundição e usinagem.
A empresa informa que passou a fornecer peças para cinco continentes e saiu das encomendas feitas à indústria automobilística paulista para atender mineração, energia, agricultura e outros segmentos. Ao divulgar a compra, a Metso descreveu a fabricante como uma empresa com 67 anos de trajetória. A própria Italbronze informa a data exata de fundação, em 17 de abril de 1958, anterior à mudança para Guarulhos.
Uma peça pequena pode parar uma máquina gigantesca de mineração
Caminhões de grande porte e escavadeiras dominam as imagens de uma mineração a céu aberto, mas a produção também depende de componentes que cabem nas mãos de um mecânico. Mas o minério retirado da terra precisa ser quebrado em pedaços menores antes de seguir para outras etapas. É aí que entram os britadores, máquinas construídas para trabalhar sob carga intensa e desgaste constante.
Dentro desses equipamentos existem componentes que o público quase nunca vê. Algumas peças de bronze servem como superfícies de apoio e deslizamento entre partes móveis, ajudando a suportar forças elevadas e reduzir o atrito em mecanismos específicos. Se um componente perde a especificação correta ou não há reposição disponível, a manutenção pode se prolongar e interromper o processamento do minério.
A Italbronze fabrica peças de desgaste, buchas, anéis e componentes usinados de acordo com medidas e exigências de cada aplicação. A produção envolve fundição contínua e centrífuga, seguida de usinagem de precisão em equipamentos controlados por computador. Segundo a fabricante, testes e medições de qualidade fazem parte do caminho que o material percorre antes de chegar ao cliente.

Para a Metso, que fornece equipamentos e serviços a mineradoras e produtores de agregados, manter esse conhecimento dentro do próprio grupo pode reduzir a dependência de fornecedores externos em uma etapa específica. A intenção declarada é aumentar a disponibilidade de peças sobressalentes e dar maior segurança aos prazos de fornecimento. O anúncio não informa mudanças imediatas nas linhas de produção da fábrica brasileira.
Depois de mais de 30 anos fornecendo peças, a Italbronze pode virar parte da própria cliente
A relação comercial entre as empresas não começou agora. A Metso compra componentes da Italbronze há mais de três décadas. Nesse período, a fabricante paulista acumulou experiência em ligas de bronze para equipamentos de britagem. A aquisição levaria essa capacidade de fundição, usinagem e controle de qualidade para a rede industrial e de serviços da companhia finlandesa.
Para o trabalhador que atua na fundição ou nas máquinas de usinagem, a notícia envolve uma mudança possível de controle empresarial, não um anúncio de encerramento da fábrica. A própria Metso informou que aproximadamente 470 colaboradores deverão passar a integrar seu grupo quando a transação for concluída. O anúncio trata da integração dos atuais colaboradores após o fechamento do negócio, e não apresenta plano de demissões ou de transferência da produção para o exterior.
O diretor estatutário da Italbronze, Jaime Ortiz Jimenez, afirmou no anúncio que o acordo prevê continuidade para empregados, clientes e parceiros e que a integração poderia trazer oportunidades dentro de uma rede internacional. São compromissos e expectativas apresentados pelos executivos, ainda sujeitos à conclusão da compra e às decisões que serão tomadas depois dela.
Os clientes que já utilizam as peças também aparecem na negociação. A Metso informa que o atendimento e o fornecimento da Italbronze continuarão durante o processo. Para uma empresa de mineração que precisa de um componente sob medida, o fator mais imediato costuma ser conseguir a peça correta dentro do prazo de manutenção planejado.
Por que uma multinacional quer controlar uma fundição brasileira?
A Metso é conhecida por fabricar tecnologias de britagem, moagem e processamento de minerais, mas uma parte relevante de sua atividade acontece depois da venda das máquinas. Equipamentos industriais exigem substituição de peças, revisão e assistência ao longo de anos. Esse mercado de manutenção e reposição é chamado de pós-venda, ou aftermarket, e depende da disponibilidade de componentes adequados.
Em seu relatório referente ao terceiro trimestre de 2026, a Metso informou que o pós-venda respondeu por 57% das vendas do grupo naquele período. O dado ajuda a dimensionar por que o fornecimento de peças é uma atividade central para a multinacional, e não um detalhe pequeno diante da venda de máquinas novas. A companhia também anunciou investimentos em serviços e atendimento aos clientes de mineração no Brasil.
A compra da Italbronze atende a essa necessidade industrial. A fundição paulista possui máquinas de usinagem de precisão, laboratório e conhecimento acumulado na fabricação de componentes que precisam trabalhar sob atrito, pressão e desgaste. Incorporar essa estrutura permitiria à Metso coordenar diretamente uma parte da produção que hoje recebe de uma fornecedora tradicional.
O alcance da fábrica vai além da mineração. A Italbronze descreve atuação em áreas como indústria automobilística, agricultura, siderurgia, geração de energia e petróleo e gás. A compra foi anunciada com ênfase nos equipamentos de britagem, mas a empresa brasileira também atende outras linhas industriais. O comunicado não detalha se haverá mudanças específicas nesses contratos.
Os 470 empregados serão incorporados, mas a compra ainda precisa passar pelas autoridades
O acordo divulgado em outubro prevê que os colaboradores da Italbronze se juntem à Metso após o fechamento da transação. Esse passo ainda depende de aprovação das autoridades de defesa da concorrência. O prazo indicado pelas empresas é até o final de 2026, e não há confirmação pública de que o negócio tenha sido concluído em outubro.
Os grupos decidiram manter em sigilo o valor negociado. Também não divulgaram metas de produção adicionais, número de novas contratações ou investimentos específicos para ampliar a unidade de Guarulhos. A informação oficial é que a aquisição não deverá ter impacto material no desempenho financeiro da Metso, avaliação feita pela compradora.
A análise concorrencial ainda precisa avaliar a operação nas instâncias competentes. Até a conclusão do procedimento, a Italbronze e a Metso continuam seguindo as condições aplicáveis ao acordo. A formalização da transferência de controle dependerá desse encerramento da operação.
Uma indústria nascida para substituir importações agora abastece uma rede mundial
A fundação de 1958 tinha como ponto de partida fornecer ao Brasil peças que, naquele momento, a indústria automobilística precisava importar. Quase sete décadas depois, a mesma tradição de trabalhar o bronze passou a interessar a um grupo com presença em dezenas de países. A fábrica de Guarulhos se tornou fornecedora de um mercado em que uma peça de reposição pode determinar quanto tempo uma máquina continuará operando.
Se a aquisição for aprovada, a operação terá uma consequência concreta: uma indústria brasileira com história própria passará a integrar a cadeia global de serviços de uma fabricante finlandesa de equipamentos de mineração. Para os funcionários e clientes, o próximo marco será a confirmação do fechamento e as informações que as empresas divulgarem sobre a integração.
A história que começou numa pequena manufatura da Mooca ainda está em movimento em Guarulhos. O acordo está assinado. O próximo passo é a avaliação concorrencial e, depois dela, a definição de como a Metso integrará a fábrica, os clientes e o conhecimento técnico de sua equipe brasileira.
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