Sobras de drywall, forros e moldes são reaproveitadas na fabricação de cimento pela InterCement em quatro fábricas brasileiras. São 10 mil toneladas de gesso por mês substituindo parte da gipsita retirada de jazidas naturais.
Um forro de gesso é cortado para caber no teto. Uma placa de drywall perde uma faixa na montagem da parede. O material que sobra dessas obras muitas vezes termina numa caçamba de entulho. Mas uma parte desse material está fazendo um caminho pouco conhecido: volta para a indústria e ajuda a produzir o cimento usado em outras obras. A InterCement Brasil informou que suas fábricas aproveitam cerca de 10 mil toneladas de resíduos de gesso por mês, retirados de atividades da construção civil.
O volume é distribuído entre quatro unidades, situadas em Apiaí, no interior de São Paulo; Ijaci, em Minas Gerais; Nova Santa Rita e Candiota, no Rio Grande do Sul. Sobras de forros, placas de drywall e moldes usados na produção de peças cerâmicas substituem parte de um mineral extraído da natureza: a gipsita. A notícia foi divulgada em 23 de outubro de 2026 e mostra uma ligação direta entre duas atividades que normalmente aparecem separadas: a reforma que produz resíduos e a fábrica que transforma matérias-primas em cimento.
Da caçamba da obra à fábrica: como o gesso que seria descartado pode virar cimento
Imagine o corte de uma placa de drywall para ajustar uma parede, a retirada de um forro antigo ou a sobra de uma peça moldada em gesso. O material muitas vezes já cumpriu sua função naquela obra, mas continua contendo um composto usado pela indústria do cimento. Em vez de simplesmente procurar um lugar para descartá-lo, a cadeia de reciclagem pode separá-lo, prepará-lo e enviá-lo a uma fábrica que precisa justamente daquele componente.
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É esse percurso que está por trás das 10 mil toneladas mensais informadas pela InterCement. A empresa diz usar resíduos vindos de forros, drywall e moldes de peças cerâmicas em quatro instalações brasileiras. Para quem trabalha com construção, são sobras conhecidas; para uma cimenteira, representam uma fonte alternativa de gesso, desde que o material seja adequado aos requisitos da produção.
Entulho de obra pode reunir madeira, plástico, metais, argamassa, poeira e materiais diferentes no mesmo recipiente. O gesso precisa ser separado e encaminhado corretamente para que possa ter destinação industrial. A Associação Brasileira do Drywall mantém orientações de coleta, armazenagem e reciclagem justamente porque as sobras de chapas e de perfis metálicos podem seguir rotas diferentes de reaproveitamento.

O gesso recuperado não vira cimento sozinho. A fábrica o incorpora à composição de um produto que depende principalmente do clínquer, fabricado a partir de matérias-primas minerais. A função do gesso nessa mistura é específica e decisiva para o trabalhador que depois vai preparar concreto, argamassa ou outro produto à base de cimento.
O componente que permite ao pedreiro trabalhar antes de o cimento endurecer
Quem já preparou massa com cimento sabe que existe um intervalo entre misturar os ingredientes e o início do endurecimento. Esse tempo faz diferença para transportar o concreto, acomodá-lo em uma fôrma, nivelar uma superfície ou assentar materiais. Se a mistura começasse a enrijecer cedo demais, o trabalho ficaria mais difícil e o resultado poderia ser prejudicado.
O gesso ajuda a regular o chamado tempo de pega, período ligado ao início do endurecimento do cimento. Ele é misturado ao clínquer na fase final da fabricação. A InterCement explica que o composto pode vir da gipsita mineral ou de fontes alternativas de sulfato de cálcio, como resíduos da construção civil que atendam aos critérios necessários.
O clínquer é obtido pela transformação de matérias-primas minerais em instalações industriais de alta temperatura. Depois, passa por moagem e recebe outros componentes conforme o tipo de cimento que será produzido. O gesso é um desses ingredientes. Seu papel não é substituir todo o clínquer nem transformar qualquer resíduo em concreto por simples mistura; é controlar uma característica importante do produto final.
Para as fábricas, a presença de gesso recuperado significa poder atender parte dessa necessidade sem depender exclusivamente do mineral novo. A companhia não apresentou a quantidade de gipsita substituída em cada unidade, nem a proporção de gesso reciclado em cada tipo de cimento. O volume mensal anunciado refere-se aos resíduos de gesso empregados nas quatro plantas.
Quatro cidades, três estados e 10 mil toneladas reaproveitadas a cada mês
A operação citada pela InterCement alcança Apiaí (SP), Ijaci (MG), Nova Santa Rita (RS) e Candiota (RS). Essas unidades incorporam o gesso vindo da construção civil à fabricação de cimento. A empresa não detalhou quanto cada instalação recebe isoladamente; as cerca de 10 mil toneladas correspondem ao conjunto das quatro fábricas.
Se esse ritmo mensal fosse mantido por doze meses, o volume chegaria a aproximadamente 120 mil toneladas em um ano. Essa é uma projeção aritmética, não um balanço anual já apresentado pela companhia. Para os fornecedores e transportadores de resíduos, a escala mostra que o reaproveitamento pode funcionar como uma atividade industrial contínua, em vez de depender apenas de uma coleta pontual.

O gesso retirado de obras tem origens muito diferentes. Pode sobrar em placas cortadas durante a montagem de paredes, em peças de forro substituídas durante reformas ou em moldes de processos produtivos. A possibilidade de reaproveitamento depende de sua composição e das condições em que foi coletado. O material que entra no cimento precisa atender a controles de qualidade; a mistura indiscriminada de entulhos não faz parte desse caminho.
Quando uma cimenteira compra ou recebe insumos recuperados, precisa organizar fornecimento regular e conferir características do material. O controle técnico é especialmente importante porque o cimento deve manter desempenho previsível no uso em construções. A InterCement aponta pesquisas feitas com universidades, em parceria desde as primeiras etapas, como parte da história que ajudou a validar a utilização desse gesso na fabricação industrial.
Menos gipsita retirada das minas: onde entra a mineração nessa história?
Antes de chegar a uma fábrica de cimento, a gipsita normalmente passa por uma etapa de extração mineral. É uma rocha rica em sulfato de cálcio, explorada em jazidas e usada em diferentes segmentos industriais. Quando resíduos de gesso recuperados conseguem cumprir a mesma função na composição do cimento, a demanda por matéria-prima mineral virgem pode ser reduzida.
A extração de gipsita continua atendendo outras demandas; o volume substituído depende da disponibilidade do resíduo, de sua qualidade e do quanto a indústria consegue incorporar. A InterCement informou o volume reaproveitado, mas não publicou uma redução em toneladas de mineração atribuída especificamente a esse programa, nem um percentual de substituição da gipsita em todo o grupo.
O destino do material descartado é outro aspecto. Sobras de gesso enviadas para locais inadequados ocupam espaço e podem gerar problemas de gerenciamento de resíduos. O envio para reaproveitamento industrial permite que uma parcela siga para nova utilização, com o controle necessário. A vantagem ambiental surge dessa substituição de recursos e da menor necessidade de descarte, não de uma promessa de que todo o gesso da construção civil brasileira já foi reciclado.
O processo também envolve uma cadeia fora da fábrica de cimento: construtoras, reformadores, empresas de coleta, triagem e preparação, transportadores e responsáveis pela destinação dos resíduos. Para o setor de obras, separar os materiais desde a origem facilita encontrar um caminho de reaproveitamento. Para a fábrica, receber um insumo com qualidade consistente evita problemas na formulação.
O mesmo princípio já aproveita resíduos de termelétricas e fábricas de fertilizantes
O gesso vindo da construção não é a única alternativa à gipsita natural estudada pela InterCement. A companhia também informa que utiliza material obtido da dessulfurização de gases em termelétricas a carvão, principalmente no Sul do Brasil. Nesse processo, compostos de enxofre são retirados dos gases industriais e podem resultar na formação de gesso como subproduto.
Outro exemplo é o fosfogesso, que se forma na fabricação de ácido fosfórico usado pela indústria de fertilizantes. A InterCement afirma reaproveitar esse material em sua produção de cimento. Embora as fontes sejam diferentes — sobras de obra, tratamento de gases ou fabricação de insumos agrícolas —, o interesse da indústria é aproveitar compostos que possam desempenhar a função esperada no produto final.
Essas rotas exigem avaliações próprias de composição, presença de impurezas e adequação às normas e aos processos industriais. Os 10 mil toneladas mensais divulgados em outubro referem-se especificamente ao gesso recuperado da construção civil nas quatro fábricas citadas. A companhia não apresentou, nessa comunicação, um volume conjunto que some termelétricas e fosfogesso ao dado principal.
Para um leitor que vê apenas um pedaço de drywall descartado, pode ser difícil imaginar essa conexão com mineração, geração elétrica e fertilizantes. No entanto, todas essas atividades trabalham com materiais que, depois de cumprir uma função, ainda podem ter utilidade química em outra etapa industrial.
Pesquisas com universidades ajudaram a levar o gesso recuperado ao cimento
A InterCement informa que pesquisas realizadas com universidades, desde as etapas iniciais em parceria com a empresa, contribuíram para comprovar a viabilidade técnica do uso de resíduos de gesso. O desafio é que o material deve agir na mistura de forma previsível. O gesso participa do controle do endurecimento, uma característica que muda a maneira de preparar, transportar e aplicar o produto.
Nas fábricas, não basta que um resíduo contenha gesso para que toda a carga seja imediatamente aproveitada. O material precisa ser compatível com a formulação e com os controles aplicados à produção. A comunicação da empresa menciona a participação de sua área de Qualidade, liderada por Denis Silva, na busca de fontes alternativas; Bryan Garrido, da área de Suprimentos, destaca a importância de conectar resíduos disponíveis com necessidades industriais.
Para que o reaproveitamento aconteça todos os meses, é necessário manter fornecimento, separar os resíduos, conferir suas características e utilizá-los em proporções adequadas. O produto final continua sendo cimento, sujeito às exigências de desempenho e qualidade que os consumidores esperam ao construir ou reformar.
O que pode mudar para obras, fábricas e mineração se esse aproveitamento crescer?
Uma obra que separa gesso de outros entulhos pode facilitar seu envio para destinos de reciclagem. Uma fábrica que incorpora esse material reduz a dependência de parte da gipsita recém-extraída. E uma cadeia de coleta e preparação consegue atender uma demanda industrial que já chega a milhares de toneladas por mês nas instalações mencionadas pela InterCement.
Os resultados futuros dependerão de organização, custos de transporte, disponibilidade regional e qualidade do gesso coletado. A companhia divulgou o volume mensal reaproveitado nas quatro fábricas, mas o comunicado de outubro não estabeleceu metas de expansão para todas as suas unidades nem investimentos específicos para ampliar essa atividade.
Há uma mudança concreta nesse percurso: um material que deixou de servir como parede, forro ou molde pode voltar a participar da construção de outra obra. Para a mineração, isso representa uma forma de reduzir a necessidade de extrair parte de um mineral; para a indústria, é uma fonte alternativa de insumo; e para quem reforma ou constrói, mostra por que separar o gesso do restante do entulho pode fazer diferença.
Você já viu placas de drywall ou sobras de gesso descartadas em uma obra? Compartilhe esta reportagem com quem trabalha na construção civil e quer entender para onde esses materiais podem ir depois da reforma.
