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Filha de cuidadora de idosos e motorista de aplicativo, jovem de 21 anos estudou por três anos, pegava VLT e metrô para o cursinho, enquanto a mãe acordava às 4h para preparar sua comida, e chegou a dormir em cadeira e no chão de hospital acompanhando o pai até conquistar vaga em Medicina na Uece

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Escrito por Andriely Medeiros de Araújo Publicado em 05/09/2026 às 07:39 Atualizado em 05/09/2026 às 07:40
Maria Clara, de 21 anos, estudou em escola pública, enfrentou três anos de preparação e conquistou uma vaga em Medicina na Uece.
Maria Clara, de 21 anos, estudou em escola pública, enfrentou três anos de preparação e conquistou uma vaga em Medicina na Uece. Fonte: Arquivo pessoal.
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Maria Clara, de 21 anos, estudou em escola pública, enfrentou três anos de preparação e conquistou uma vaga em Medicina na Uece.

A aprovação que Maria Clara Nunes Sousa, de 21 anos, buscava havia três anos chegou enquanto ela estava na casa de uma tia. A jovem havia conquistado uma vaga em Medicina na Universidade Estadual do Ceará (Uece) e decidiu contar a novidade aos pais por chamada de vídeo. Do outro lado da tela estavam uma cuidadora de idosos e um motorista de aplicativo que, naquele momento, continuavam trabalhando.

A conquista encerrou uma preparação iniciada depois da conclusão do ensino médio, em 2022. Aluna da EEMTI Professora Adalgisa Bonfim Soares, da rede pública estadual, Maria Clara atravessou parte dessa etapa escolar durante a pandemia de Covid-19 e depois precisou recuperar conteúdos enquanto se preparava para um dos cursos que havia escolhido como objetivo profissional.

Duas semanas antes da prova, rotina mudou para dentro de um hospital

A fase mais delicada aconteceu justamente quando faltavam cerca de duas semanas para o vestibular. O pai de Maria Clara, Salviano Costa, precisou ser internado no Hospital Frotinha da Parangaba.

A estudante e a mãe, Maria da Conceição, passaram a se revezar para acompanhá-lo e garantir que ele não permanecesse sozinho.

A preparação para Medicina passou, então, a dividir espaço com noites no hospital. Maria Clara contou que chegou a dormir em uma cadeira e, em alguns momentos, no chão do corredor enquanto acompanhava o pai.

A proximidade da prova aumentava a preocupação, mas ela decidiu comparecer ao vestibular mesmo depois da interrupção de uma rotina que havia sido construída ao longo de meses.

Mãe acordava às 4h para deixar comida pronta antes do trabalho

Por trás das horas de estudo havia uma organização familiar que começava antes do amanhecer. Maria da Conceição acordava às quatro horas da manhã para preparar o almoço e o lanche que a filha levaria durante o dia. Depois, seguia para o próprio trabalho como cuidadora de idosos.

O pai também participava da rotina quando conseguia conciliar os horários com o trabalho como motorista de aplicativo. Ele buscava a filha após as atividades e a acompanhava em provas e simulados sempre que possível.

Para Maria Clara, esse suporte teve peso principalmente emocional. Os pais procuravam eliminar pequenas dificuldades cotidianas para que a jovem pudesse concentrar a maior parte do tempo disponível na preparação acadêmica.

A família também precisou administrar os gastos com apostilas, materiais e atividades de estudo. Mesmo com as dificuldades financeiras, a mãe afirma que a aprovação era um sonho compartilhado dentro de casa.

Maria Clara, de 21 anos, estudou em escola pública, enfrentou três anos de preparação e conquistou uma vaga em Medicina na Uece.
Maria Clara, de 21 anos, estudou em escola pública, enfrentou três anos de preparação e conquistou uma vaga em Medicina na Uece. Fonte: Arquivo pessoal.

Trajeto até o cursinho começava de VLT e continuava de metrô

Os três anos seguintes ao ensino médio foram marcados por uma rotina extensa fora de casa.

Maria Clara utilizava VLT e metrô para chegar às atividades de preparação. Ao longo do dia, alternava aulas, biblioteca, simulados e resolução de questões. Quando o vestibular se aproximava, prolongava os estudos até a noite.

Nesse período, frequentou um cursinho popular da Universidade Federal do Ceará (UFC) e também conseguiu bolsas integrais no Ari de Sá e no Farias Brito.

A disciplina era percebida por quem dividia a rotina com ela. Bruno Alves, amigo desde a época do cursinho, lembra que Maria Clara frequentemente estava entre os primeiros alunos a chegar e os últimos a deixar o local.

Ensino médio começou justamente quando aulas presenciais foram interrompidas

A preparação também precisou enfrentar consequências de um período anterior. Maria Clara iniciou o ensino médio em 2020, justamente quando a pandemia interrompeu as aulas presenciais. Embora avalie positivamente a escola onde estudou, ela percebeu mais tarde que havia conteúdos de determinadas disciplinas que precisariam ser retomados.

As dificuldades ficaram mais evidentes quando começou a estudar especificamente para o vestibular. Parte do trabalho realizado nos anos seguintes consistiu, portanto, em preencher lacunas acumuladas durante o afastamento da sala de aula.

A jovem concluiu toda a educação média em uma escola da rede pública estadual antes de concentrar a rotina no objetivo de conquistar uma vaga em Medicina.

Aprovações que não vieram quase fizeram Maria Clara desistir

O resultado não apareceu na primeira tentativa. Em seleções anteriores para o mesmo curso na Uece, Maria Clara chegou perto da aprovação, situação que aumentava a frustração justamente porque ela acompanhava diariamente o esforço realizado pelos pais para manter sua preparação.

Em alguns momentos, pensou em abandonar o projeto. A decisão, no entanto, foi continuar. Cada resultado insuficiente passou a servir como referência para uma nova etapa de estudos, em vez de encerrar definitivamente a tentativa de ingresso na universidade.

A persistência tornou-se uma das características mais lembradas por Bruno Alves. Para o amigo, a disciplina mantida ao longo dos anos indicava que a aprovação poderia vir mesmo depois das tentativas frustradas.

Maria Clara, de 21 anos, estudou em escola pública, enfrentou três anos de preparação e conquistou uma vaga em Medicina na Uece.
Maria Clara, de 21 anos, estudou em escola pública, enfrentou três anos de preparação e conquistou uma vaga em Medicina na Uece. Fonte: Arquivo pessoal.

Ligação por vídeo levou resultado até os pais durante o expediente

Quando finalmente consultou o resultado, Maria Clara estava longe dos pais. Ela fez uma chamada de vídeo para os dois, que estavam trabalhando naquele momento. Salviano lembra da reação física provocada pela notícia e conta que sentiu as pernas tremerem de emoção.

Para ele, a aprovação também foi consequência de uma orientação repetida desde a infância: estudar para tentar chegar a uma universidade pública.

Maria da Conceição recebeu o resultado como a realização de um objetivo construído em família. As madrugadas preparando refeições, os custos da preparação e a rotina conciliada com o trabalho passaram a ganhar outro significado depois da confirmação da vaga.

Medicina representa profissão e possibilidade de mudar realidade da família

A escolha do curso possui dois significados para a jovem. Maria Clara diz ser apaixonada por Medicina, mas também enxerga na graduação uma possibilidade de melhorar as condições de vida da família e, no futuro, oferecer maior conforto aos pais.

Prestes a iniciar a universidade, ela também passou a olhar para a própria trajetória como uma mensagem dirigida a estudantes que vivem situações semelhantes às que enfrentou.

Maria Clara, de 21 anos, estudou em escola pública, enfrentou três anos de preparação e conquistou uma vaga em Medicina na Uece.
Maria Clara, de 21 anos, estudou em escola pública, enfrentou três anos de preparação e conquistou uma vaga em Medicina na Uece. Fonte: Arquivo pessoal.

Durante a preparação, ouviu repetidamente que chegar à universidade seria mais difícil para alguém pobre, preto, periférico e vindo da escola pública. Para Maria Clara, reconhecer essas barreiras não significa tratá-las como uma sentença definitiva.

Aos 21 anos, ela começa uma nova etapa depois de três anos dedicados ao vestibular, de tentativas que terminaram perto da vaga e de uma reta final atravessada pela internação do pai.

A aprovação em Medicina na Uece encerra um ciclo de preparação, mas também abre aquele que motivou toda a rotina: transformar o esforço dos últimos anos em formação profissional e, como deseja a própria Maria Clara, em uma oportunidade de retribuir o apoio recebido dentro de casa.

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Andriely Medeiros de Araújo

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