Jorge Amado comprou casarão em Salvador com dinheiro dos direitos de “Gabriela”; a casa recebeu estrelas mundiais e hoje preserva sua memória.
O sucesso de “Gabriela, Cravo e Canela” não colocou apenas Jorge Amado definitivamente entre os escritores brasileiros de projeção internacional. O dinheiro obtido com a negociação dos direitos da obra para a MGM ajudou o escritor e Zélia Gattai a comprar, em 1960, uma grande casa no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, imóvel com mais de 2 mil metros quadrados que se transformaria durante décadas em residência, escritório, ponto de encontro de algumas das personalidades mais famosas do século XX e, posteriormente, em memorial dedicado à vida do casal.
Segundo o MuseusBr, ligado ao Instituto Brasileiro de Museus, passaram pelo endereço nomes como Pablo Neruda, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Tom Jobim, Dorival Caymmi, Glauber Rocha, Roman Polanski e Jack Nicholson. Hoje, móveis, documentos, objetos pessoais, fotografias e ambientes da residência preservam aquela história, enquanto no jardim permanecem depositadas as cinzas de Jorge Amado e Zélia Gattai, fazendo da antiga propriedade particular uma das materializações mais íntimas do legado do escritor.
Dinheiro de “Gabriela” ajudou Jorge Amado a comprar a casa
A origem do imóvel está diretamente ligada a uma das obras mais famosas de Jorge Amado.
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Publicado em 1958, “Gabriela, Cravo e Canela” tornou-se um marco na trajetória do escritor. Pouco depois, os direitos do livro foram negociados com a Metro-Goldwyn-Mayer, a MGM, e o dinheiro da operação foi utilizado pelo casal para adquirir a residência do Rio Vermelho.
O cadastro oficial do Memorial a Casa do Rio Vermelho registra a compra em 1960. A propriedade ficava na Rua Alagoinhas, número 33, em uma parte do bairro que ainda estava longe de possuir o prestígio e a estrutura turística que o Rio Vermelho teria décadas depois.
A decisão acabaria produzindo uma ligação quase inseparável entre Jorge Amado, Zélia Gattai, a literatura e aquele endereço.
A casa não seria apenas onde os dois dormiriam. Tornou-se parte de suas obras, amizades e histórias familiares.
Mais de 2 mil m² escondiam pomar, piscina e jardins
A propriedade possui mais de 2 mil metros quadrados, dimensão suficiente para abrigar uma casa cercada por ampla vegetação.
Relatos reunidos pelo turismo oficial de Salvador descrevem um pomar com mangueiras, jaqueiras, pitangueiras e outras árvores frutíferas, além de áreas de convivência que acabariam sendo ocupadas repetidamente pelos amigos do casal.

Havia piscina, jardins, dormitórios, espaços de trabalho e ambientes onde Jorge escrevia. Mas, diferentemente de muitas mansões ligadas a celebridades, o que tornaria o imóvel excepcional não era uma coleção de luxo.
Era quem atravessava suas portas.
Durante as décadas seguintes, aquele terreno de Salvador passou a funcionar como uma espécie de ponto de encontro informal da cultura brasileira e internacional.
Pablo Neruda e Vinicius de Moraes passaram pela piscina da propriedade
Poucas residências particulares brasileiras conseguiram reunir uma lista de visitantes comparável à Casa do Rio Vermelho.
Pablo Neruda, poeta chileno que receberia o Nobel de Literatura de 1971, esteve entre os amigos que frequentaram o imóvel. O material oficial da cidade também registra Vinicius de Moraes entre os nomes que passaram pela piscina da residência.
O círculo brasileiro incluía figuras intimamente ligadas à Bahia, como Dorival Caymmi, Carybé, Pierre Verger, Glauber Rocha e Calasans Neto.
A relação não era a de visitas protocolares a um escritor famoso. Muitos eram amigos pessoais do casal e permaneceram ligados à família durante anos.
A casa se transformou, assim, numa extensão do ambiente cultural que cercava Jorge Amado.
Sartre e Simone de Beauvoir também passaram pelo endereço
A dimensão internacional das amizades do escritor aparece em outra dupla impressionante.
O filósofo francês Jean-Paul Sartre e a escritora e filósofa Simone de Beauvoir também estiveram ligados ao círculo de Jorge Amado durante passagem pelo Brasil. O memorial lista os dois entre os visitantes da Casa do Rio Vermelho.
Jorge e Zélia já possuíam relações com intelectuais europeus devido ao período de exílio vivido no fim da década de 1940. A Biblioteca Nacional registra que o casal passou anos na França depois que o Partido Comunista Brasileiro foi colocado na ilegalidade.
Quando se estabeleceram definitivamente em Salvador, portanto, trouxeram para a Bahia uma rede de amizades construída entre escritores, artistas, intelectuais e militantes de vários países.
A casa passou a receber uma parte desse mundo.
Até Jack Nicholson e Roman Polanski passaram pela casa
A lista fica ainda mais improvável quando chega ao cinema. O ator americano Jack Nicholson, vencedor de três Oscars ao longo de sua carreira, é citado entre os visitantes ilustres da propriedade. O cineasta Roman Polanski também passou pelo endereço.
Tom Jobim aparece na mesma relação, ao lado de Glauber Rocha e Dorival Caymmi.

Em poucas palavras, o imóvel que havia sido adquirido com recursos provenientes do sucesso de um romance brasileiro acabou recebendo Nobel de Literatura, filósofos mundialmente conhecidos, estrelas de Hollywood, cineastas, compositores e alguns dos maiores nomes da cultura brasileira.
Não era uma instituição pública naquele período.
Era a casa onde Jorge e Zélia viviam.
Jorge Amado escreveu parte de sua obra dentro da propriedade
A importância da residência não se limita aos visitantes. O endereço também foi um espaço efetivo de criação literária.
O portal oficial de turismo de Salvador informa que Jorge Amado escreveu ali obras como “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, publicado em 1966, além de outros textos produzidos durante o longo período em que viveu no Rio Vermelho.
Uma das peças preservadas no memorial é justamente a máquina de escrever utilizada por Jorge, além de originais, correspondências e documentos relacionados ao trabalho do autor.
Isso acrescenta outra camada à importância histórica da casa.
Não se trata apenas do imóvel de um escritor famoso. Alguns dos personagens que ajudariam a espalhar a literatura brasileira pelo mundo foram desenvolvidos enquanto seu autor vivia naquele ambiente.
A própria Zélia transformou a casa em livro
O endereço tornou-se tão importante para a história familiar que acabou chegando às páginas de outro livro.
Zélia Gattai publicou “A Casa do Rio Vermelho”, obra memorialística dedicada justamente às experiências acumuladas pelo casal na propriedade. O cadastro do Ibram destaca que a residência acabou emprestando seu nome ao livro no qual Zélia narra acontecimentos e lembranças daquele período.

A obra registra uma característica que ajuda a compreender por que o imóvel se tornaria posteriormente um memorial tão particular: ali, a vida privada e a história cultural se misturavam.
Uma visita de um amigo podia envolver um dos grandes escritores do século XX. Uma conversa à beira da piscina podia reunir artistas que posteriormente entrariam para a história.
O cotidiano familiar acabava permanentemente atravessado pela literatura, música, cinema e política.
Jorge Amado morreu em 2001 e a casa entrou em outra fase
Jorge Amado morreu em 6 de agosto de 2001, aos 88 anos. Depois de sua morte, Zélia permaneceu ligada à residência. Uma publicação oficial de turismo de Salvador relata que ela chegou a permitir visitas ao imóvel, mas acabou interrompendo a prática depois de encontrar uma visitante desconhecida deitada na cama utilizada pelo casal.
A casa acabou permanecendo fechada ao público durante aproximadamente 11 anos.
Zélia Gattai morreu em 17 de maio de 2008. A Biblioteca Nacional registra que suas cinzas posteriormente foram depositadas junto às de Jorge no espaço que havia sido residência da família.
Era o encerramento de uma etapa de quase meio século. A casa, porém, continuaria existindo.
Antiga residência virou memorial em 2014
Depois da morte do casal, familiares, poder público e instituições culturais trabalharam para transformar o imóvel em um espaço de preservação.
A Casa do Rio Vermelho foi convertida em memorial e aberta ao público em 2014, preservando ambientes, objetos pessoais, mobiliário e elementos associados à rotina dos escritores. Uma publicação oficial da cidade registra que a transformação ocorreu a partir de iniciativa da Prefeitura de Salvador em parceria com a Fundação Casa de Jorge Amado e os familiares.
O visitante não encontra apenas vitrines tradicionais.
O espaço foi estruturado em ambientes temáticos e utiliza vídeos, projeções, documentos, fotografias, depoimentos e objetos do casal. O cadastro nacional de museus informa que há mais de 30 horas de material audiovisual e projeções relacionadas à história da casa.
A intenção é preservar a sensação de residência.
Quarto, máquina de escrever e móveis continuam contando a história
Parte da força do memorial está na permanência de elementos cotidianos. O quarto do casal, a cama, a máquina de escrever, os móveis, as fotografias e os objetos pessoais ajudam a reconstruir a vida doméstica que existia atrás da fama internacional de Jorge Amado.
Há também correspondências trocadas com personalidades brasileiras e estrangeiras, incluindo registros das relações mantidas com nomes como Pablo Neruda.

Segundo o Ministério do Turismo, o memorial possui 15 ambientes internos dedicados à trajetória dos escritores, além do jardim.
O contraste é justamente o que torna o local diferente. Uma residência privada comprada com dinheiro de direitos autorais passou a funcionar como arquivo físico de décadas da cultura brasileira.
Cinzas de Jorge e Zélia permanecem sob uma mangueira no jardim
O ponto mais simbólico da propriedade está fora da casa. No jardim, as cinzas de Jorge Amado e Zélia Gattai permanecem depositadas junto a uma mangueira, mantendo o casal no mesmo terreno em que viveu durante décadas.
A escolha dá ao memorial uma dimensão que vai além da conservação de objetos.
O jardim não representa apenas um cenário reconstruído da vida do escritor. É também seu local definitivo de memória.
As mesmas árvores e espaços que testemunharam encontros com amigos, almoços, conversas, festas e décadas da vida familiar passaram a fazer parte da homenagem permanente ao casal.
Mais de 200 mil pessoas já haviam passado pelo antigo casarão
A transformação também modificou profundamente a relação da propriedade com a cidade. O que durante décadas foi um endereço particular passou a receber visitantes interessados na literatura, na história de Salvador e na vida de Jorge Amado.
Publicação oficial de turismo de Salvador registrava que, até 2022, cerca de 200 mil pessoas de diferentes partes do mundo já haviam visitado o memorial.
O número mostra a dimensão da mudança ocorrida desde 1960. Naquele momento, Jorge e Zélia estavam simplesmente procurando um lugar para morar na Bahia e utilizaram o dinheiro obtido com a venda dos direitos de “Gabriela” à MGM para realizar a compra.
Mais de seis décadas depois, o terreno de mais de 2 mil metros quadrados não é lembrado pelo preço pago, pelo tamanho da construção ou por seu valor imobiliário.
É lembrado pelo que aconteceu dentro dele.
Pablo Neruda passou por lá. Sartre e Simone de Beauvoir passaram por lá. Tom Jobim, Glauber Rocha, Dorival Caymmi, Roman Polanski e Jack Nicholson passaram por lá. Jorge Amado escreveu em seus cômodos, Zélia transformou suas lembranças em literatura e, no fim da história, os dois permaneceram definitivamente no próprio jardim.
O dinheiro de um dos maiores sucessos literários de Jorge Amado comprou uma casa. O tempo transformou aquela casa em um pedaço preservado da história cultural brasileira.
