No deserto do Iêmen, uma cidade murada de torres de barro preserva técnicas construtivas seculares, enfrenta ameaças naturais e segue no centro de debates sobre patrimônio, urbanismo e conservação em uma das paisagens históricas mais singulares da região.
No leste do Iêmen, no vale do Wadi Hadramaut, a cidade murada de Shibam é apontada pela UNESCO como um dos exemplos mais conhecidos de urbanismo vertical em arquitetura de terra.
Atrás de uma muralha, o núcleo histórico reúne cerca de 500 casas-torre de tijolo de barro, muitas com vários andares e algumas com mais de 30 metros de altura.
A paisagem fez a cidade ficar conhecida pelo apelido de “Manhattan do deserto”.
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A organização internacional informa que o sítio preserva um conjunto urbano compacto, erguido em uma planície sujeita a cheias sazonais.
Nesse espaço, as construções foram dispostas lado a lado, formando um tecido adensado, com ruas estreitas e prédios altos em relação ao entorno.
Para a UNESCO, Shibam é um dos exemplos mais expressivos de planejamento urbano baseado em edificações de vários pavimentos.
Shibam e a ocupação vertical dentro da muralha
A configuração urbana de Shibam está ligada à necessidade de concentrar moradias dentro de uma área murada.
O sítio histórico reconhecido pela UNESCO corresponde, sobretudo, à cidade reconstruída no século XVI, já com traçado denso e organização vertical.
Essa forma urbana permitiu ocupar menos espaço horizontal e manter as residências agrupadas em um mesmo perímetro protegido.
Além disso, a posição de Shibam no Hadramaut ajudou a dar importância histórica ao assentamento.

Ao longo dos séculos, a região esteve ligada a rotas comerciais e a disputas locais, o que ajuda a explicar a valorização de uma ocupação compacta.
No caso da cidade murada, a verticalização aparece como parte da lógica de ocupação do solo, e não como um elemento isolado.
Como foram construídas as torres de barro de Shibam
As casas-torre de Shibam foram construídas com tijolos de terra crua secos ao sol, técnica tradicional da arquitetura hadrami.
As paredes são mais espessas na base e, em diferentes edifícios, a madeira foi usada como reforço estrutural.
O método depende de conhecimento construtivo transmitido localmente e de manutenção frequente para enfrentar os efeitos do clima sobre o barro.
Em muitos casos, os andares térreos eram destinados ao armazenamento e ao abrigo de animais.
Já os pavimentos superiores concentravam os espaços de moradia.
A conservação dessas construções exige reparos periódicos, porque chuva, vento e variação de temperatura aceleram o desgaste do material quando o revestimento externo deixa de ser renovado.
O conjunto urbano também é analisado por especialistas em arquitetura vernacular e construção em terra por causa da adaptação ao clima árido.
A proximidade entre os edifícios reduz a incidência direta do sol em parte das fachadas e cria áreas de sombra nas vias internas.
Por isso, Shibam costuma ser citada em estudos sobre técnicas tradicionais de construção e ocupação urbana em regiões desérticas.
A enchente de 1532 e a reconstrução da cidade histórica
Embora a ocupação de Shibam seja mais antiga, a maior parte do conjunto preservado hoje remonta à reconstrução realizada depois de uma grande inundação em 1532.
Esse dado é central para entender a cidade histórica.
Há continuidade do assentamento ao longo de muitos séculos, mas o núcleo urbano atualmente reconhecido como Patrimônio Mundial corresponde, em grande medida, ao período posterior à destruição causada pela enchente.
Ainda assim, a cidade preserva estruturas associadas a fases anteriores.
Essa permanência ajuda a explicar a relevância do sítio no patrimônio do Iêmen.
Em Shibam, convivem a continuidade de uso, a permanência da população e a preservação de uma linguagem construtiva que atravessou gerações, mesmo após desastres naturais e ciclos de reconstrução.
“Manhattan do deserto” e o reconhecimento da UNESCO
Nos anos 1930, a exploradora britânica Freya Stark associou Shibam à expressão “Manhattan do deserto”.
A referência se consolidou porque resume o impacto visual provocado pelas torres de barro erguidas em bloco no meio de uma planície árida.
A comparação, no entanto, é usada como imagem descritiva e não apaga as diferenças entre a cidade iemenita e os centros verticais modernos.
Em Shibam, a verticalização não está ligada ao uso de aço, elevadores ou técnicas industriais contemporâneas.
O que existe é uma solução urbana anterior, baseada em materiais locais, adaptação ao ambiente e organização interna do espaço murado.
Foi esse valor histórico que levou a UNESCO a inscrever a cidade murada de Shibam na Lista do Patrimônio Mundial em 1982.
Segundo a UNESCO, o reconhecimento considerou a qualidade da arquitetura hadrami, o caráter excepcional do conjunto vertical e a relação entre a cidade e a planície de inundação do wadi.
O interesse do sítio, portanto, não se resume à altura dos edifícios.
Também pesa a forma como essas construções organizam uma cidade inteira em um espaço limitado.
Enchentes, guerra e os riscos ao patrimônio de Shibam
A água que historicamente moldou a ocupação do vale também figura entre as principais ameaças ao sítio.
A UNESCO registra que Shibam sofreu repetidamente com enchentes, e a inundação de 2008 voltou a expor a vulnerabilidade das fundações e das paredes de barro diante de eventos extremos.
Em cidades construídas com terra, esse tipo de impacto tende a exigir resposta rápida para evitar agravamento dos danos.
Ao mesmo tempo, a guerra no Iêmen ampliou a fragilidade do patrimônio.
A cidade foi incluída pela UNESCO na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo em 2015, em meio ao conflito, e permaneceu nessa condição em decisões posteriores do comitê.
Em relatório apresentado em 2025, o Estado iemenita informou que Shibam continuava ameaçada pelo conflito em curso, por pressões no entorno protegido, pelos efeitos das mudanças climáticas e por limitações na conservação.
Esse cenário afeta não só edifícios isolados, mas o funcionamento cotidiano do sítio histórico.
A preservação de Shibam depende de mão de obra especializada, uso de materiais compatíveis com a técnica tradicional e capacidade institucional para coordenar reparos contínuos.
Sem esse trabalho, o desgaste natural se soma aos riscos provocados por cheias, tensões armadas e intervenções inadequadas.
Conservação do patrimônio e manutenção das casas-torre
Nos últimos anos, projetos apoiados por organismos internacionais e parceiros externos buscaram recuperar casas e marcos históricos em cidades iemenitas, entre elas Shibam.
Em 2023, foi divulgado que uma iniciativa apoiada pela União Europeia, com participação da UNESCO e do Fundo Social para o Desenvolvimento do Iêmen, restaurou centenas de edifícios e criou oportunidades de trabalho para jovens no país.
Esse dado indica que a preservação do patrimônio depende não apenas de obras emergenciais, mas também de formação técnica e continuidade institucional.
No caso de Shibam, manter os prédios em condições adequadas implica reaplicar revestimentos, corrigir pontos de erosão e preservar métodos construtivos compatíveis com a técnica original.


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