Robson Lisboa entrou no IFBA disposto a transformar experiência técnica em uma nova carreira; pouco depois, viu a filha Lídia seguir o mesmo caminho e, no trabalho, os papéis entre quem ensina e quem aprende começaram a se inverter
Voltar para a faculdade aos 53 anos já colocaria Robson Lisboa diante de uma rotina pouco comum para alguém que decidiu redesenhar a própria trajetória profissional. O que ele não esperava era encontrar, dentro dessa nova fase, uma companheira que conhecia desde o nascimento: a própria filha.
Lídia Lisboa tem 20 anos. Os dois estudam Ciência da Computação no Instituto Federal da Bahia (IFBA) e passaram a compartilhar disciplinas, trabalhos, provas e, em alguns momentos, a mesma sala de aula.
A história ganhou outro capítulo fora do campus. Pai e filha também são estagiários da Continental Pneus, em Camaçari, na Bahia, embora atuem em áreas diferentes.
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Aos poucos, uma dinâmica que durante anos pareceu natural dentro de casa começou a mudar. Robson ajudava a filha com a experiência de quem havia chegado primeiro à graduação. No estágio, porém, foi Lídia quem precisou mostrar ao pai como funcionavam os primeiros passos daquele novo ambiente profissional.

Um sonho antigo levou Robson à faculdade aos 53 anos
A entrada de Robson no ensino superior não surgiu de uma decisão repentina.
Ele já havia trabalhado na área de tecnologia e acumulado diferentes formações técnicas, mas ainda carregava o desejo de fazer uma graduação. Havia também uma razão familiar: queria estimular o filho mais velho a ingressar na faculdade.
Foi então que decidiu transformar o incentivo em exemplo e entrou no curso de Ciência da Computação do IFBA.
Robson começou um semestre antes de Lídia. Quando a filha ingressou no mesmo curso, a diferença fez com que ele se tornasse uma espécie de guia nos primeiros meses dela na graduação.
As dicas do pai ajudavam com disciplinas e dificuldades que ele já havia enfrentado. Com o avanço do curso, porém, os dois passaram a frequentar várias matérias juntos.
A diferença de 33 anos de idade deixou de importar diante de provas, trabalhos e conteúdos que precisavam ser vencidos pelos dois.
“As dicas dele me ajudaram bastante e, agora que cursamos várias disciplinas juntos, um apoia o outro o tempo todo”, contou Lídia ao Correio 24 Horas, que revelou a história da família.
No estágio, a filha chegou primeiro — e os papéis se inverteram
Se dentro do IFBA Robson teve a vantagem de começar primeiro, na vida profissional aconteceu exatamente o contrário.
Lídia entrou como estagiária na Continental Pneus cerca de um ano antes do pai. Quando Robson iniciou sua própria experiência na empresa, foi a filha quem já conhecia aquele território.
Mesmo trabalhando em áreas diferentes, ela passou a ajudá-lo na adaptação.
“Ele sempre me ensinou muito, e agora também pude ensinar um pouco para ele”, afirmou Lídia.
É justamente essa inversão que torna a história dos dois diferente de uma simples coincidência familiar na universidade. Durante boa parte da vida, o conhecimento seguiu o caminho esperado entre gerações: do pai para a filha. Agora, parte desse fluxo percorre o sentido contrário.
Lídia conhece processos e experiências profissionais que ainda são novos para Robson. Ele, por sua vez, carrega décadas de vivência que não desaparecem simplesmente porque decidiu ocupar novamente a posição de aprendiz.

Robson tenta abrir uma nova carreira na análise de dados
O estágio tem um significado particular para Robson porque faz parte de uma mudança profissional maior.
Aos 53 anos, ele está em transição para a área de análise de dados e enxerga a experiência como uma oportunidade para entrar em novos espaços no mercado de trabalho.
A idade, entretanto, aparece como um obstáculo que ele próprio reconhece.
“A gente sabe que o mercado muitas vezes se fecha para pessoas 50+. Ter a possibilidade de voltar a aprender e iniciar uma nova trajetória é muito significativo”, disse.
Nesse contexto, aceitar a condição de estagiário depois dos 50 significa também voltar a uma etapa profissional normalmente associada aos mais jovens.
Robson resume o momento de outra maneira: como o início necessário para construir o que pretende fazer daqui para frente.
“Toda caminhada começa com o primeiro passo, e essa experiência já está contribuindo muito para minha formação e para novos caminhos no mercado de trabalho”, afirmou.
O caso mostra uma característica importante das mudanças provocadas pelo setor de tecnologia: experiência profissional anterior e idade não eliminam a necessidade de aprender novamente quando alguém decide migrar para uma especialidade diferente.
Para Robson, esse aprendizado acontece literalmente ao lado da geração seguinte.
Aos 20 anos, Lídia também começa a desenhar o próprio caminho
Enquanto o pai tenta construir espaço na análise de dados, Lídia começa a definir onde pretende chegar profissionalmente.
Aos 20 anos, ela demonstra interesse por gestão e processos industriais e pretende continuar estudando depois da graduação, com planos de realizar uma pós-graduação na área.
“Saber que, com pequenas ações, você consegue melhorar toda uma indústria realmente me toca”, contou.
A experiência de acompanhar a mudança profissional do pai também alterou a forma como Lídia enxerga a própria posição dentro da família.
Se durante a infância era Robson quem oferecia orientação, agora ela percebe que já possui conhecimentos capazes de ajudá-lo a tomar decisões e explorar oportunidades.
“Agora que cresci, consigo ajudar meu pai e dar liberdade para que ele busque novas áreas e oportunidades. Tenho muito orgulho de estar presente nesse momento e conseguir apoiá-lo, assim como ele sempre me apoiou”, afirmou.
Entre faculdade e empresa, 33 anos separam os dois — mas o aprendizado virou uma via de mão dupla
Robson e Lídia chegaram à Ciência da Computação em momentos completamente diferentes da vida.
Ele carrega décadas de experiência e decidiu retornar à formação acadêmica para buscar uma nova trajetória profissional. Ela está no começo da vida adulta e começa a descobrir quais áreas pretende seguir.
Na universidade, o pai chegou primeiro e ajudou a filha.
Na empresa, a filha chegou primeiro e ajudou o pai.
É nessa alternância que a história ganha força: aos 53 e aos 20 anos, os dois ocupam simultaneamente os papéis de quem ensina e de quem precisa aprender.
Robson segue buscando espaço na análise de dados. Lídia pretende aprofundar sua formação em gestão e processos industriais. Por enquanto, porém, os caminhos dos dois continuam cruzados entre as salas do IFBA e a experiência de estágio em Camaçari.
A diferença de 33 anos permanece no documento de identidade. Na rotina de estudos e no começo dessa nova etapa profissional, pai e filha descobriram que experiência não precisa caminhar em uma única direção.
Fonte: reportagem de Perla Ribeiro, publicada pelo Correio 24 Horas em 18 de agosto de 2026.

