Localizada em uma região serrana de Goiás, a propriedade foi projetada pela arquiteta portuguesa Sofia Maciel e une técnicas ancestrais de bioconstrução a acabamentos de alto padrão, mostrando como economia, sustentabilidade e conforto térmico podem caminhar juntos em uma mesma obra
Em meio às montanhas do Serrado goiano, uma construção despertou a curiosidade de quem passa pela região e, mais recentemente, também dos internautas. Trata-se da chamada “Casa Terra”, um projeto que reúne, no mesmo terreno, duas moradias somando 160 metros quadrados — praticamente todas erguidas com terra e materiais naturais. Segundo estimativas dos próprios responsáveis pela obra, o investimento total ficou em torno de R$ 350 mil, um valor que representa uma economia média de R$ 100 por metro quadrado em comparação a métodos convencionais de construção.
À primeira vista, o resultado impressiona menos pela simplicidade dos materiais do que pelo padrão do acabamento. Afinal, não é todo projeto de bioconstrução que consegue equilibrar baixo custo, sustentabilidade e sofisticação estética ao mesmo tempo. Nesse sentido, a Casa Terra se tornou uma espécie de vitrine prática de técnicas como o tijolo de adobe, a taipa de pilão e a tinta de terra — soluções antigas, mas que voltam a ganhar espaço diante da busca por moradias mais baratas e ecologicamente responsáveis.
O tour pela propriedade foi conduzido pela engenheira civil Amanda, especializada em construção sustentável, ao lado do arquiteto Francisco, que também atua com bioconstrução e participou de consultorias durante a obra. Ambos já haviam se hospedado no local antes da gravação e fizeram questão de destacar, logo de início, o que torna o projeto tão particular: praticamente toda a estrutura, do piso ao teto, foi pensada para se integrar à topografia natural do terreno.
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Adobe, taipa de pilão e tinta de terra: os segredos por trás da economia de R$ 100 por metro quadrado

A primeira das duas moradias reúne um quarto com sala integrada; a segunda, erguida no pavimento superior, funciona como um loft compacto disponibilizado para locação por temporada. As duas foram batizadas de “Casa Terra” justamente por causa da matéria-prima predominante: paredes, revestimentos e até a tinta final vêm do próprio solo da região.
O tijolo de adobe é uma das técnicas centrais do projeto. Trata-se de um bloco produzido a partir da mistura de terra — em muitos casos, sem necessidade de nenhuma fibra adicional, dependendo da qualidade do solo — que pode ser fabricado manualmente pelo próprio morador. Além de contar com norma técnica reconhecida, o material pode ser autoportante, ou seja, dispensa estrutura complementar de sustentação em determinados projetos. Na prática, isso significa economia direta de mão de obra e de etapas construtivas.
E é justamente aí que mora um dos principais atrativos financeiros da técnica: paredes de adobe dispensam camadas tradicionais como chapisco, emboço, reboco e massa corrida. Em vez de quatro etapas de acabamento por lado de parede, resta apenas uma — a pintura final. Essa pintura, por sua vez, também é feita com tinta de terra, outro elemento que reforça o caráter econômico do empreendimento: um galão de 18 litros pode custar entre R$ 15 e R$ 150, a depender da região e da disponibilidade de matéria-prima local.
Ainda segundo os responsáveis pelo projeto, é possível produzir a tinta de terra por valores ainda mais baixos quando o solo do próprio terreno é aproveitado. Combinando terra extraída durante a escavação de um poço artesiano com cola branca comprada localmente, os mesmos 18 litros de tinta podem sair por cerca de R$ 1 o litro — uma fração do preço de tintas industrializadas. Além do apelo econômico, a tinta de terra cumpre uma função técnica relevante: por ser porosa, permite que a parede “respire”, favorecendo a troca de umidade com o ambiente. Na prática, isso ajuda a evitar mofo e contribui para o equilíbrio térmico da casa — um detalhe importante em regiões como o Serrado, marcadas por oscilações intensas de temperatura ao longo do ano.
Outro destaque construtivo é a taipa de pilão, técnica também milenar que consiste na compactação de terra misturada a um pequeno percentual de cimento — no caso da Casa Terra, aproximadamente 10% — entre formas de madeira sustentadas por estrutura metálica. Diferentemente da taipa convencional, que costuma ter cerca de 40 centímetros de largura, a parede utilizada no projeto foi executada com apenas 20 centímetros, acompanhando a espessura dos pilares de sustentação. Por não ser estrutural, a parede pôde ser mais fina e, consequentemente, mais barata. O resultado visual, com tonalidades diferentes de terra sobrepostas em camadas, virou um dos elementos mais admirados da casa — um efeito estético buscado deliberadamente pela proprietária, que pediu um acabamento mais rústico em vez do liso tradicional.
Uma varanda de cimento queimado, portas de demolição e o toque de uma arquiteta apaixonada por curvas

Contudo, a economia de material não significou abrir mão de sofisticação. Pelo contrário: quem visita a propriedade destaca justamente o padrão elevado do projeto, algo pouco comum quando se fala em bioconstrução de baixo custo. A varanda que circunda a casa térrea, por exemplo, foi toda executada em cimento queimado — revestimento de baixo custo, aplicado diretamente sobre a superfície de concreto, que resultou em uma textura lisa e uniforme, elogiada mesmo em comparação a pisos industrializados.
As madeiras utilizadas na obra são todas de lei, com destaque para o angelim vermelho, o que reforça o caráter de alto padrão da construção. Ainda assim, um dos maiores diferenciais do projeto está na escolha estética feita pela arquiteta responsável, a portuguesa Sofia Maciel, que morava na região da Chapada durante o desenvolvimento do trabalho. Reconhecida por utilizar linhas curvas e geometrias irregulares em seus projetos — sempre dentro dos princípios da bioconstrução —, ela decidiu adaptar a varanda ao relevo natural do terreno, criando um traçado sinuoso que acompanha a topografia.
Essa escolha, embora tenha aumentado a complexidade da obra e o desafio para os profissionais envolvidos na execução, resultou em detalhes surpreendentes. Pedras do próprio terreno foram incorporadas ao piso de concreto, e uma árvore que crescia em direção à varanda não foi cortada: a estrutura foi adaptada para contorná-la, transformando-a em um elemento arquitetônico. Da mesma forma, pilares posicionados na diagonal — em vez do tradicional formato reto — adicionam um toque de originalidade ao conjunto.
Além disso, todas as esquadrias da casa — janelas, portas e vitrais — são de demolição, adquiridas em um lote comprado em Brasília. Algumas peças precisaram de adaptação: janelas originalmente do tipo correr foram convertidas em pivotantes para se encaixar no projeto. Ainda assim, o reaproveitamento chegou a 100% nesse quesito, o que impressionou até os próprios apresentadores do tour, que inicialmente acreditavam se tratar de esquadrias sob medida — um serviço normalmente caro quando feito em madeira maciça. A mesma lógica de reaproveitamento se estende à escada da casa, construída com madeira de demolição, e descrita como um dos modelos mais econômicos disponíveis no mercado.
O passeio pela propriedade foi registrado em vídeo pela engenheira civil Amanda em parceria com o arquiteto Francisco, ambos responsáveis por um canal digital voltado à construção sustentável. A dupla também promove um curso intensivo sobre técnicas de bioconstrução, com turma marcada para os dias 10, 11 e 12 de fevereiro, período em que detalham gratuitamente cálculos de economia como os aplicados na Casa Terra. A localização exata do imóvel é a região do Serrado goiano, próxima à Chapada, área conhecida pela presença de comunidades tradicionais, como o povo calunga, historicamente ligado ao domínio de técnicas como a taipa de pilão.
Do telhado shingle ao segundo pavimento: como cada detalhe reduz custos sem abrir mão do design

Enquanto isso, no telhado, outra escolha técnica chama atenção: a utilização da telha shingle, material amplamente empregado nos Estados Unidos e valorizado por permitir curvas e formatos irregulares — como os desenhos arredondados presentes na varanda e no restante da cobertura. Diferentemente da telha cerâmica tradicional, a shingle garante maior estanqueidade em baixas inclinações e pode ser aplicada até mesmo em coberturas geodésicas, de formato totalmente irregular.
Por outro lado, o material apresenta uma limitação térmica: seu isolamento não é dos mais eficientes. Para contornar o problema, a equipe responsável pela obra optou por instalar forro de madeira — no caso, de cedrinho, também proveniente de demolição — associado a uma manta isolante, disponível no mercado por cerca de R$ 5 o metro quadrado. A solução resultou em conforto térmico adequado mesmo diante das oscilações de temperatura características da região serrana.
Os banheiros da propriedade seguem a mesma lógica de baixo custo aliado a acabamento refinado: revestimentos em cimento queimado substituem porcelanatos e cerâmicas mais caras, enquanto bancadas produzidas com a mesma técnica reaproveitam, sempre que possível, as formas de madeira já utilizadas em outras etapas da obra — uma estratégia que reduz consideravelmente os custos com mão de obra e material, já que fabricar novas fôrmas costuma ser uma das etapas mais caras desse tipo de acabamento.
No pavimento superior, o segundo imóvel — um loft compacto também disponibilizado para locação por temporada — repete a estética de curvas, esquadrias de demolição e amplas aberturas voltadas para a paisagem de montanhas que cerca a propriededade em 360 graus. Ali, uma parede de taipa de pilão se destaca como elemento decorativo principal do ambiente, complementada por mobiliário em serralheria e madeira, o que confere um contraste entre rusticidade e um acabamento quase industrial.
Do ponto de vista financeiro, o modelo adotado no projeto vai além da economia na construção: as duas unidades já geram renda extra por meio de locação de temporada, o que permite reinvestimento contínuo em mobiliário e novas melhorias. Ainda assim, um dos aspectos mais defendidos pelos responsáveis pela obra é o caráter sustentável da construção como um todo. Como os materiais predominantes são naturais, uma eventual demolição futura devolveria grande parte da estrutura à natureza, restando pouco resíduo não biodegradável — ao contrário do que ocorre em construções convencionais, que geram entulho de concreto, cerâmica e outros materiais de descarte mais complexo.
Portanto, o que a Casa Terra evidencia é que a bioconstrução, quando bem planejada e executada com apoio técnico qualificado, pode ir muito além do estereótipo de moradia simples ou improvisada. Ao unir tradição, mão de obra local, aproveitamento de materiais de demolição e o talento de uma arquiteta especializada em formas orgânicas, o projeto se tornou referência prática de como reduzir custos sem comprometer conforto, durabilidade ou estética — uma equação que, cada vez mais, tem despertado interesse de quem sonha em construir de forma diferente.

