Num pequeno sítio em Minas Gerais, um zootecnista cria porcos caipiras que passam de 100 quilos, soltos no mangueirão, alimentados com milho, abóbora, chuchu e frutas da terra. Longe do modelo industrial, a criação virou a de maior saída da família, ao lado de galinhas, ovos e do gado, num trabalho feito com capricho e afeto.
Num pequeno sítio no interior de Minas Gerais, um criador transformou os porcos caipiras na principal renda da produção da família, com animais que impressionam pelo tamanho. A cena foi registrada pelo canal Mundo Caipira, do Eduardo, numa visita que começou com café, pão de queijo e broa de fubá preparados por Mariana, dona da propriedade, e terminou percorrendo o chiqueiro onde reprodutores como o “Nutella” e o “Prefeito” já passam dos 100 quilos.
O modo de criar é o oposto do industrial. Aqui não há galpão climatizado nem grandes máquinas: os porcos vivem soltos no mangueirão, tomam banho de lama, comem milho, abóbora e frutas da terra, e cada fase da criação é respeitada no próprio tempo do animal. É esse método antigo, feito no capricho, que sustenta a renda da família mês a mês, e é ele que este texto detalha, do trato à genética.
Um zootecnista que nunca deixou a roça

O criador não é um leigo que resolveu mexer com bicho. Ele é formado em zootecnia, passou cinco anos fora para estudar e voltou para o campo, onde diz ter sido criado desde criança. Hoje concilia duas vidas: presta serviço a uma empresa do Paraná, atuando com nutrição e bem-estar animal nas fazendas da região, e toca a própria criação no sítio.
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A relação dele com o lugar é de quem não se vê na cidade. Segundo o criador, a cidade serve só para dormir, e o final de semana é todo na roça, um ritmo que ele resume dizendo que, quando se faz o que se ama, não parece trabalho. A propriedade tem história de família: era da sogra dele, nascida e criada ali, e hoje ficou sob os cuidados de Mariana. Até o antigo paiol guarda memória afetiva, porque, segundo contam, ali dentro se faziam bailes que reuniam a família em outros tempos.
Nutella e Prefeito: os reprodutores que impressionam
As estrelas do chiqueiro são dois reprodutores de porte impressionante. Um deles é o “Nutella”, um cachaço manso que, com um ano e dois meses, já passa dos 100 quilos, adquirido ainda pequeno de um amigo. O outro é o “Prefeito”, apelidado assim justamente porque, nas palavras bem-humoradas do criador, é o dono e o chefe do chiqueiro, o que manda ali.
Há um cuidado técnico por trás desses gigantes, e ele contraria a ideia de que porco bom é porco muito gordo. O criador explica que os cachaços não podem ficar pesados demais, senão as porcas não aguentam na hora da reprodução, então o peso é controlado. Cada reprodutor recebe cerca de 1 quilo de ração de manhã e 1 quilo à tarde. E a genética se impõe de forma visível: ao apontar um leitão idêntico ao “Nutella”, ele brinca que nem precisa de exame de DNA para saber quem é o pai.
O trato feito com o que a terra dá

A alimentação dos porcos é um capítulo à parte e mostra bem a diferença do modelo caipira. A base é o milho, em suas várias formas: fubá, quirera e o milingrão. Mas o cardápio não para aí, e é isso que dá o diferencial da criação.
O criador intercala o milho com o que a propriedade oferece em cada época. Entram abóbora, chuchu, manga que cai no pé, banana e até folha de bananeira, esta última usada como um vermífugo natural, num conhecimento que ele diz ter herdado da avó e dos antigos. As porcas paridas recebem reforço na ração porque os leitões consomem muita energia delas durante a amamentação, e o criador compensa esse gasto para manter mãe e filhotes saudáveis. É um manejo que aproveita a fartura da terra e reduz a dependência de ração comprada.
O cuidado com os leitões recém-nascidos
Quem imagina que criação solta significa criação relaxada se engana. Assim que os leitões nascem, há um protocolo de cuidados que o criador segue à risca, o que ele chama de fazer o “toalete”.
O procedimento tem etapas definidas e razão de ser. Ele apara os dentes dos leitões para não machucarem as porcas na amamentação e aplica ferro nos filhotes até o terceiro dia, porque nascem com deficiência desse mineral. Depois vêm a vermifugação e os demais tratamentos. É um acompanhamento próximo, típico de quem entende de nutrição animal, e que garante que os leitões cheguem fortes à fase de desmame, sempre respeitando o tempo de cada um.
Banho de lama, o “protetor solar natural” dos porcos
Um dos momentos mais curiosos da visita é a explicação sobre o banho de lama, que não é sujeira, é necessidade. O reprodutor “Nutella” tem a pele clara, quase rosada quando limpo, e no começo chegou a descascar no sol, porque veio de uma granja e não estava acostumado ao ambiente aberto.
A adaptação dele foi engenhosa e natural. O porco aprendeu a rolar na lama para criar uma proteção contra o sol, o mesmo princípio que as búfalas usam, como compara o criador. No caso das búfalas, a lama funciona ainda como repelente natural, formando uma película que impede carrapatos e moscas de pousarem, além de controlar a temperatura do corpo. Para o “Nutella”, foi a solução para conviver com o sol forte do mangueirão, e o sítio ainda canalizou água para ele se refrescar e beber, num verdadeiro “spa” suíno.
Caipira puro x cruzado: a questão da genética
Há uma diferença importante entre os porcos do sítio, e ela envolve escolha de reprodução. O “Prefeito” é o caipira legítimo, 100% puro, e o cruzamento dele com as porcas gera o caipirão de verdade. Já o “Nutella”, vindo de granja, produz leitões de desenvolvimento mais acelerado.
Cada opção tem seu peso na balança do criador. O caipira puro cresce mais devagar, mas o “Nutella” acelera o ganho de peso dos leitões e ainda rende ninhadas maiores nas porcas. O criador brinca que é o “Nutella” quem manda na quantidade de leitões, atribuindo isso à genética. É esse equilíbrio entre rusticidade caipira e produtividade que ele administra para manter a criação rentável sem perder a identidade do porco caipira.
Uma criação que é também um retrato de família
O sítio não vive só de porco, e a criação está enraizada na história familiar. Além dos suínos, que são a de maior saída, há galinhas caipiras botando ovos, gado e os doces que a sogra faz. Os animais têm nome e lugar cativo, dos porcos à jumenta apelidada de “Cuica”, resgatada da cidade, onde vivia amarrada como cachorro, e que hoje virou o despertador da casa, relinchando toda manhã às seis em ponto.
O afeto pela criação transparece no vocabulário do próprio criador. Ele descreve o trabalho com os porcos como uma terapia e faz questão de respeitar cada fase no tempo do animal, sem atropelar nenhuma etapa. Há até um leitão de “brinquinho” que ganhou lugar garantido no sítio porque a avó, já falecida, lembrou que o pai dela adorava porcos com essa característica. É criação feita de técnica, sim, mas também de memória e carinho, o que explica por que o criador mantém as portas abertas para quem quiser conhecer o processo.
O que o sítio mostra não é fábrica de carne, é criação de porco caipira no capricho: reprodutores de mais de 100 quilos vivendo soltos, comendo o que a terra dá, tomando banho de lama e recebendo cuidado individual do nascimento ao desmame. É trabalho pesado, feito todo dia, que virou a principal renda da criação da família sem abrir mão do jeito antigo de fazer.
Agora queremos ouvir você. Você teria paciência e capricho para criar porco caipira solto como esse criador faz, alimentando com abóbora, banana e folha de bananeira, ou acha que dá trabalho demais para valer a pena? E quem já criou porco no sítio ou no quintal, conta aqui embaixo qual era o truque da sua família para engordar o bicho no capricho. A gente lê tudo.

