Exploração de terras raras, lítio, cobre, estanho e outros minerais críticos disparou nos últimos cinco anos, cercando 278 terras indígenas e intensificando a pressão sobre territórios em meio à corrida da transição energética.
A corrida por minerais críticos ganhou força no Brasil e já pressiona diretamente centenas de territórios indígenas. Um novo levantamento aponta que ao menos 278 terras indígenas estão cercadas por requerimentos de exploração mineral ligados a elementos estratégicos para baterias, energia renovável, chips, equipamentos militares e tecnologias avançadas.
Esse número representa 44% das terras indígenas do país. O dado expõe o avanço de um setor que se fortaleceu nos últimos cinco anos e agora mira áreas sensíveis em meio ao discurso global da transição energética.
Na prática, a expansão da mineração de lítio, cobre, estanho, terras raras e outros minerais coloca em confronto interesses econômicos bilionários, proteção territorial e o futuro de comunidades indígenas em várias regiões do Brasil.
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Boom da mineração cresce com força em apenas cinco anos
O avanço foi rápido. Segundo dados analisados pelo Observatório da Transição Energética, o Brasil acumula 29.213 requerimentos relacionados a 27 minerais considerados essenciais para a eletrificação.
Metade desses pedidos foi protocolada entre 2021 e 2025. Isso mostra como a corrida mineral se acelerou em pouco tempo, acompanhando a valorização global de recursos usados em veículos elétricos, painéis solares, torres eólicas e sistemas de defesa.
A maior parte dos requerimentos ainda está em fase inicial. Mesmo assim, a pressão territorial já aparece com força no mapa.
Terras indígenas ficam cercadas por projetos de exploração
Ao cruzar dados da mineração com as bases territoriais da Funai, o levantamento identificou 2.055 requerimentos minerários sobrepostos ou localizados a menos de 10 quilômetros de 278 terras indígenas.
Além disso, quando se observam apenas os processos já em operação, ao menos 38 territórios aparecem diretamente afetados por minerais críticos.
O cenário preocupa lideranças indígenas e organizações que acompanham os impactos da mineração. Para elas, a chamada transição energética corre o risco de empurrar comunidades inteiras para novas zonas de pressão, conflito e destruição ambiental.
Terras raras e lítio lideram corrida bilionária no país
Entre os minerais mais disputados, dois se destacam com força: terras raras e lítio. Ambos são vistos como estratégicos para o futuro da economia global.
As terras raras são usadas em chips, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e até sistemas militares. Já o lítio é peça central na produção de baterias para carros elétricos e armazenamento de energia.
No Brasil, essa corrida já aparece com números expressivos. Dos 2.259 pedidos para explorar terras raras, 89% foram protocolados nos últimos cinco anos. No caso do lítio, 94% dos cerca de 4 mil pedidos minerários surgiram no mesmo período.
Mineração em áreas indígenas vira tema de confronto político
O crescimento da exploração ocorre em um ambiente de forte disputa política. Organizações indígenas afirmam que o lobby mineral avança em Brasília para tentar abrir caminho à regulamentação da mineração em terras indígenas.
A Apib sustenta que esse movimento não é novo, mas ganhou intensidade conforme sinais políticos passaram a favorecer o debate no Congresso e também no Judiciário.
A entidade critica a tentativa de usar a transição energética como justificativa para flexibilizar a proteção dos territórios. Para a organização, não faz sentido defender energia supostamente limpa à custa da destruição de áreas indígenas.
Relatório alerta para “zonas de sacrifício” em nome da transição energética
No relatório lançado durante o Acampamento Terra Livre, a Apib afirma que a expansão da mineração pode transformar terras indígenas em “zonas de sacrifício”.
A crítica é direta. Segundo a organização, parte das elites econômicas passou a tratar a crise climática menos como emergência planetária e mais como oportunidade de negócio.
Na visão das lideranças indígenas, o risco é repetir um velho padrão: trocar um modelo destrutivo por outro, agora embalado pelo discurso da descarbonização.
Territórios já sentem os efeitos da pressão minerária
O levantamento mostra que alguns territórios enfrentam pressão ainda maior. A Terra Indígena Kiriri de Caldas, no sul de Minas Gerais, aparece como a mais afetada entre os processos de minerais críticos já em operação.
O território está sobreposto ou cercado por 55 áreas minerárias. Na sequência aparecem as terras Kayapó, no Pará, com 19 requerimentos em operação, Apyterewa, também no Pará, com 16, e Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia, com 11.
Esses números ajudam a mostrar que a pressão não está no campo da hipótese. Em várias regiões, ela já se materializa no entorno dos territórios.
Disputa global por minerais aumenta valor estratégico do Brasil
A corrida por minerais críticos não acontece só dentro do Brasil. Ela faz parte de uma disputa global entre potências que tentam reduzir dependências e garantir acesso a matérias-primas estratégicas.
Estados Unidos e China aparecem no centro dessa batalha por terras raras e outros metais valiosos. Nesse contexto, o Brasil se torna ainda mais cobiçado.
O país abriga a segunda maior reserva de terras raras e a sexta maior de lítio do mundo. Isso amplia o interesse econômico sobre o subsolo brasileiro e aumenta a pressão sobre áreas preservadas e territórios indígenas.
Demarcação vira resposta diante da nova corrida mineral
Diante desse cenário, lideranças indígenas reforçam que a proteção territorial precisa avançar com urgência. Para elas, garantir a demarcação de terras já reconhecidas e acelerar novos processos é uma medida concreta contra a expansão predatória.
A frase usada no relatório resume essa posição com força: demarcação é mitigação.
Em meio ao boom da mineração, a disputa por lítio, cobre, estanho, terras raras e outros minerais críticos promete crescer ainda mais. O que está em jogo agora não é apenas riqueza mineral, mas o futuro de territórios inteiros ameaçados por uma nova onda extrativista.
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