Estudo realizado em Carbonita, no norte de Minas Gerais, identificou diferenças expressivas no crescimento das árvores aos 12 meses; resultados técnicos retomados em outubro de 2026 mostram por que a preparação do solo pode influenciar a produção de madeira durante anos.
Um experimento com eucalipto em Minas Gerais demonstrou que a aplicação de gesso agrícola pode fazer uma diferença expressiva na produção florestal. Em uma área experimental localizada no município de Carbonita, árvores cultivadas com o insumo aplicado em toda a superfície apresentaram volume de madeira 65% superior ao registrado no tratamento sem gesso, após apenas 12 meses de crescimento.
Os resultados foram destacados em outubro de 2026 pela Agronelli Soluções, empresa especializada em fertilidade do solo e nutrição vegetal. O estudo original, porém, não é recente: foi publicado em 2009, na edição nº 21 da revista técnica Addubare, e voltou a ganhar atenção no debate sobre a produtividade das florestas comerciais brasileiras.
A comparação revelou uma diferença importante. Enquanto as árvores cultivadas sem gesso alcançaram 11,7 metros cúbicos de madeira por hectare, o tratamento com aplicação em área total chegou a 19,25 m³/ha.
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O experimento também avaliou a distribuição do insumo apenas sobre as linhas de plantio. Nesse caso, a produção atingiu 16,06 m³/ha, resultado aproximadamente 37% superior ao tratamento sem gesso.
Os números mostram que a maneira como o solo é preparado pode influenciar o desenvolvimento inicial das árvores. Isso ganha importância econômica em uma atividade na qual o investimento precisa ser planejado para vários anos.
Aplicação de gesso agrícola em toda a área apresentou o maior volume de madeira
O estudo comparou três situações: cultivo sem aplicação de gesso, utilização do produto em faixas sobre as linhas de plantio e distribuição em toda a área experimental.
Após 12 meses, os resultados foram:
| Tratamento | Volume de madeira aos 12 meses |
|---|---|
| Sem gesso agrícola | 11,70 m³/ha |
| Gesso aplicado em faixa | 16,06 m³/ha |
| Gesso aplicado em área total | 19,25 m³/ha |
A diferença mais expressiva apareceu no tratamento em área total, com crescimento de aproximadamente 65% em relação ao grupo que não recebeu gesso.
Outro detalhe chamou a atenção dos pesquisadores: a área experimental já havia recebido três toneladas de calcário por hectare.
Isso significa que o solo não estava simplesmente abandonado ou sem qualquer correção anterior. Mesmo após a calagem, havia condições em que o manejo complementar proporcionou melhor desenvolvimento das árvores.
Segundo Maurício Komori, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento de Mercado da Agronelli Soluções e especialista em Fertilidade do Solo e Nutrição de Plantas, o caso demonstra a importância de observar o perfil do solo para além de suas camadas superficiais.
O experimento também identificou diferenças estatísticas no diâmetro e na circunferência das árvores, indicadores utilizados para acompanhar o desenvolvimento florestal.
Por que o gesso agrícola pode favorecer o crescimento do eucalipto?
O gesso agrícola é uma fonte de cálcio e enxofre utilizada para melhorar determinadas condições químicas do solo, especialmente em camadas mais profundas.
Seu funcionamento é diferente do calcário, tradicionalmente empregado para corrigir a acidez do solo.
Enquanto a calagem atua principalmente na neutralização da acidez, o gesso pode favorecer a disponibilidade de cálcio em profundidade e contribuir para reduzir limitações químicas que prejudicam a expansão das raízes.
Essa característica é importante porque o sistema radicular precisa explorar um volume suficiente de solo para captar água e nutrientes.
Em solos com restrições químicas nas camadas subsuperficiais, as raízes podem encontrar dificuldades para avançar, deixando as árvores mais dependentes dos recursos disponíveis perto da superfície.
No caso do eucalipto, essa limitação pode acompanhar a floresta por vários anos.
Ao contrário de uma lavoura anual, que passa por um novo ciclo de preparação e plantio a cada safra, uma floresta comercial permanece no terreno durante um período prolongado.
Uma decisão inadequada durante a implantação pode comprometer parte do potencial produtivo da área.
É justamente essa diferença que torna relevante o resultado observado em Carbonita: o ganho inicial não representa apenas árvores maiores aos 12 meses, mas aponta para a importância do desenvolvimento radicular na formação da floresta.
Isso não significa, entretanto, que qualquer aplicação de gesso produzirá aumento de 65%. A resposta depende das características químicas do solo, das condições ambientais e do manejo adotado.
Brasil possui 8,1 milhões de hectares de eucalipto e depende da produtividade das florestas comerciais
A discussão sobre eficiência no plantio de eucalipto envolve uma das principais cadeias produtivas do agronegócio brasileiro.
Segundo dados da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), citados pela Agronelli, o Brasil possui aproximadamente 10,5 milhões de hectares de árvores plantadas, dos quais 8,1 milhões são ocupados por eucalipto.
A madeira produzida nessas áreas abastece segmentos como celulose, papel, painéis de madeira, carvão vegetal e diferentes atividades industriais.
Em 2024, a produtividade média nacional do eucalipto foi de 34,4 metros cúbicos por hectare ao ano, considerando uma idade média de 6,8 anos para as florestas avaliadas.
A produção brasileira de celulose alcançou 29,4 milhões de toneladas em 2025, conforme os dados setoriais apresentados pela Agronelli, reforçando a dimensão econômica da cadeia florestal.
Nesse cenário, melhorias no aproveitamento de água, nutrientes e fertilizantes podem ter impactos sobre os custos de produção.
Existe, porém, uma diferença entre aumentar o volume inicial de madeira e comprovar maior rentabilidade ao final do ciclo.
O estudo de Carbonita avaliou o desenvolvimento das árvores aos 12 meses. Os dados divulgados não permitem concluir que a produtividade final será 65% maior, nem demonstram que o período até a colheita necessariamente será reduzido na mesma proporção.
Resultado pode ajudar produtores a planejar novos plantios, mas aplicação exige análise técnica
Para quem investe em florestas comerciais, a principal contribuição do experimento está na demonstração de que as condições químicas do solo precisam ser consideradas desde o início do plantio.
A aplicação de gesso agrícola pode ser vantajosa em determinadas situações, mas sua necessidade não deve ser definida apenas pela expectativa de aumentar o volume de madeira.
A recomendação depende de análise do solo, avaliação das condições em profundidade e orientação agronômica.
O custo de aquisição e aplicação do produto também precisa entrar na conta antes de qualquer decisão comercial.
O trabalho realizado em Minas Gerais mostra que, nas condições específicas avaliadas, o manejo complementar à calagem esteve associado a um aumento expressivo no crescimento inicial do eucalipto.
A questão para os produtores agora é identificar em quais solos esse tipo de intervenção pode oferecer benefícios semelhantes e se os ganhos de crescimento compensam o investimento ao longo de todo o ciclo florestal.
