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Executivos estrangeiros pagam até US$ 15 mil para entrar em fábricas na China, estudar robôs, IA e carros elétricos e tentar entender como o país ganhou velocidade tecnológica

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Escrito por Roberta Souza Publicado em 08/09/2026 às 16:25 Atualizado em 08/09/2026 às 16:30
Uma nova espécie de turismo industrial está levando investidores, fundadores de startups e executivos de Europa, Estados Unidos e Sudeste Asiático a Pequim, Shenzhen, Xangai, Hangzhou e Hefei. Há roteiros de cinco dias que custam US$ 15 mil, enquanto a indústria chinesa de visitas a fábricas já movimentou US$ 17,8 bilhões.
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Uma nova espécie de turismo industrial está levando investidores, fundadores de startups e executivos de Europa, Estados Unidos e Sudeste Asiático a Pequim, Shenzhen, Xangai, Hangzhou e Hefei. Há roteiros de cinco dias que custam US$ 15 mil, enquanto a indústria chinesa de visitas a fábricas já movimentou US$ 17,8 bilhões.

Robôs humanoides trabalhando em fábricas, linhas de carros elétricos produzindo em enorme escala e empresas de inteligência artificial desafiando concorrentes internacionais transformaram a China em destino de uma nova peregrinação tecnológica. Investidores, executivos e empreendedores estrangeiros estão viajando ao país não apenas para fechar negócios, mas para descobrir como suas empresas conseguem desenvolver, testar e fabricar produtos tão rapidamente.

Segundo reportagem da Reuters, alguns desses visitantes desembolsam até US$ 15 mil por um programa de cinco dias que oferece acesso direto ao ecossistema tecnológico chinês. O circuito passa por cidades como Pequim, Shenzhen, Xangai, Hangzhou e Hefei, polos centrais da indústria de veículos elétricos, baterias, inteligência artificial e robótica.

O movimento revela uma mudança de percepção. Durante décadas, executivos estrangeiros visitavam a China principalmente para procurar fábricas baratas e fornecedores. Agora, parte deles chega para estudar tecnologia, automação, velocidade de desenvolvimento e organização industrial.

Cinco dias dentro da indústria chinesa podem custar US$ 15 mil

Um dos responsáveis por transformar essa curiosidade em negócio é Robert Wu, CEO da empresa de pesquisa Baiguan, de Xangai.

Wu organizou dois programas para mais de duas dezenas de investidores, executivos e empreendedores em 2026.

O preço chega a US$ 15 mil por participante em uma viagem de cinco dias.

Cerca de metade dos participantes desses grupos veio do Sudeste Asiático.

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O objetivo não é turismo convencional. Os visitantes querem observar fábricas, conhecer startups, conversar com executivos e entender como produtos passam rapidamente de protótipos para produção.

Assim, surgiu uma pequena indústria dedicada especificamente a abrir as portas do ecossistema tecnológico chinês para estrangeiros.

Procura por tours tecnológicos cresceu 50% em 2026

A demanda também aparece em empresas especializadas.

A agência de viagens tecnológicas Glopen, sediada em Xangai, informou que as consultas aumentaram 50% em 2026, principalmente entre clientes europeus e de Singapura.

A empresa já realiza mais de 100 visitas corporativas de um dia por mês.

Enquanto isso, a investidora sino-americana Rui Ma, fundadora da Tech Buzz China, já organizou 11 viagens tecnológicas desde 2019.

Para os participantes, entrar fisicamente em uma fábrica oferece uma perspectiva difícil de obter por relatórios ou apresentações.

A principal pergunta deixou de ser apenas quais produtos a China consegue fabricar.

Agora, executivos querem descobrir como as empresas chinesas conseguem desenvolver e colocar esses produtos em escala tão rapidamente.

Shenzhen virou laboratório tecnológico a céu aberto

Nenhuma cidade representa melhor esse movimento do que Shenzhen.

O antigo polo de fabricação de baixo custo tornou-se um ecossistema que reúne eletrônicos, telecomunicações, baterias, veículos elétricos, drones, inteligência artificial e robótica.

O CPG já mostrou como Shenzhen transformou tecnologia em parte do cotidiano, com drones fazendo entregas, táxis autônomos, hotéis inteligentes, robôs humanoides e máquinas circulando pelas ruas.

Essa concentração é justamente uma das características que atraem empreendedores estrangeiros.

Em Shenzhen, uma startup pode encontrar fornecedores de baterias, telas, sensores, motores, placas eletrônicas e componentes especializados dentro de uma mesma região industrial.

Por isso, a cidade ganhou importância não apenas como local de produção, mas como espaço para desenvolver rapidamente novos produtos físicos.

Mais de 5 milhões de estrangeiros entraram em Shenzhen até agosto

Os números ajudam a dimensionar o fenômeno.

Segundo a Reuters, o número de visitantes estrangeiros em Shenzhen aumentou 70% no ano passado.

No primeiro trimestre deste ano, houve outro crescimento superior a 30%.

Além disso, a cidade registrou mais de 5 milhões de entradas de estrangeiros entre janeiro e agosto de 2026.

Nem todos esses visitantes viajaram por motivos tecnológicos. Entretanto, o crescimento coincide com a tentativa da cidade de se apresentar internacionalmente como uma vitrine da inovação chinesa.

Shenzhen também se prepara para receber o fórum da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) em novembro.

Empreendedores chegam com apenas dez dias para encontrar uma fábrica

Uma cena descrita pela Reuters mostra como o ecossistema funciona na prática.

Existem grupos no WeChat com aproximadamente 400 pessoas circulando entre o Vale do Silício e Shenzhen, compartilhando contatos e perguntando onde encontrar fábricas de baterias, displays e outros componentes.

Segundo o consultor americano de manufatura Joshua Woodard, alguns fundadores chegam utilizando a política de entrada sem visto por dez dias e imediatamente começam a procurar quem consegue fabricar seu próximo protótipo.

Empresas locais também começaram a criar “hacker houses”, inspiradas no modelo do Vale do Silício.

Nesses espaços, empreendedores estrangeiros de robótica e hardware de IA podem morar, trabalhar e desenvolver projetos enquanto exploram fornecedores locais.

Robôs humanoides deixaram as apresentações e chegaram às fábricas

A robótica é uma das tecnologias que mais chamam atenção dos visitantes.

Empresas chinesas começaram a colocar humanoides em ambientes industriais reais, ainda que muitas aplicações permaneçam em fase de testes.

O CPG mostrou que robôs humanoides da AgiBot já entraram em uma linha chinesa de tablets, onde executam etapas de movimentação, inspeção e separação de equipamentos em condições industriais.

A AgiBot informou aproximadamente 3 mil unidades processadas por turno na demonstração industrial da Longcheer e taxa de sucesso superior a 99% em operação contínua.

Esses números foram divulgados pelas próprias empresas e ainda exigem cautela na comparação com trabalhadores humanos ou automação convencional.

Mesmo assim, mostram por que investidores estrangeiros querem observar essas máquinas diretamente no chão de fábrica.

Xiaomi virou uma das grandes vitrines dessa transformação

A Xiaomi também aparece no centro dessa nova peregrinação tecnológica.

Sua fábrica de veículos elétricos em Pequim recebeu mais de 250 mil visitantes desde março de 2024, segundo a Reuters.

A procura ficou tão intensa que vagas distribuídas por sorteio chegaram a aparecer informalmente na internet por até 2 mil yuans, cerca de US$ 300.

A Xiaomi afirmou à Reuters que as visitas oficiais são determinadas por sorteio online e que os ingressos não podem ser transferidos.

Líderes internacionais também visitaram a fábrica, reforçando sua transformação em uma vitrine da política industrial chinesa.

China criou mais de 140 locais oficiais de turismo industrial

Esse movimento não surgiu apenas da iniciativa privada.

Pequim assumiu explicitamente a promoção do turismo industrial como parte de sua estratégia.

O país já designou mais de 140 locais oficiais de demonstração.

Algumas fábricas oferecem visitas públicas por aproximadamente US$ 60.

Portanto, existe uma diferença enorme entre uma visita industrial convencional e os roteiros especializados de US$ 15 mil.

Os programas premium oferecem acesso mais direcionado a empresas, especialistas e ecossistemas específicos, enquanto as visitas públicas funcionam como vitrines industriais mais amplas.

Turismo industrial movimentou US$ 17,8 bilhões

A escala financeira também chama atenção.

Segundo dados de mídia estatal citados pela Reuters, o setor chinês de turismo industrial movimentou aproximadamente US$ 17,8 bilhões no ano passado.

Além disso, a projeção é superar 300 bilhões de yuans, equivalentes a cerca de US$ 44,6 bilhões, até 2029.

Esse mercado não inclui apenas estrangeiros interessados em tecnologia.

Visitas domésticas a fábricas, parques industriais, instalações científicas e centros de demonstração também entram nessa conta.

Ainda assim, o crescimento dos roteiros tecnológicos internacionais adiciona uma nova dimensão ao setor.

Fábrica chinesa de US$ 330 milhões mostra até onde a automação chegou

Outro exemplo ajuda a explicar a curiosidade estrangeira.

O CPG detalhou como uma fábrica inteligente da Xiaomi de 81 mil m² foi projetada para operar continuamente e produzir até 10 milhões de smartphones premium por ano com automação avançada.

A planta de Changping, em Pequim, envolveu investimento de aproximadamente US$ 330 milhões.

O diferencial não está apenas na utilização de robôs.

A fábrica emprega sistemas internos para controlar equipamentos, detectar problemas e ajustar processos produtivos.

Esse tipo de integração entre software, inteligência artificial e produção física está justamente entre os elementos que estrangeiros procuram entender.

Medo de um “China Shock 2.0” chegou às empresas ocidentais

Por trás das visitas existe uma preocupação econômica maior.

Executivos e governos ocidentais começam a discutir a possibilidade de um “China Shock 2.0”.

O primeiro choque esteve associado ao enorme crescimento das exportações industriais chinesas depois da entrada do país na Organização Mundial do Comércio.

Agora, o receio é diferente.

A China deixou de competir apenas em produtos industriais baratos e avançou sobre veículos elétricos, baterias, drones, energia solar, inteligência artificial, robótica e equipamentos de alta tecnologia.

Consequentemente, empresas estrangeiras precisam entender concorrentes que estão entrando justamente nos mercados de maior valor agregado.

Executivos europeus chegam preocupados com produtividade

Essa preocupação aparece especialmente entre visitantes europeus.

O consultor de inteligência artificial Alex Shengyun Lu, da Praxis Advisory, liderou sete delegações com até 50 executivos corporativos cada uma desde o fim de 2025.

Segundo ele, muitos chegam tentando responder a duas perguntas.

A primeira é o que podem aprender diretamente com as empresas chinesas.

A segunda é como a China organiza investimentos tecnológicos apoiados pelo Estado e consegue aplicar novas tecnologias em grande escala.

Assim, as viagens deixaram de ser simples missões comerciais.

Elas se tornaram uma forma de benchmarking industrial internacional.

Estados Unidos continuam dependentes de componentes chineses

A rivalidade tecnológica entre Washington e Pequim não interrompeu completamente essas conexões.

Empreendedores americanos continuam viajando para Shenzhen.

Joshua Woodard, consultor americano radicado na cidade, explicou à Reuters que empresas de robótica dos Estados Unidos ainda dependem fortemente de componentes e hardware fabricados na China.

Isso cria uma contradição.

Governos discutem redução da dependência econômica, restrições comerciais e segurança tecnológica.

Entretanto, engenheiros e fundadores que precisam transformar um protótipo em produto continuam encontrando na cadeia chinesa uma combinação difícil de substituir de fornecedores, capacidade industrial e velocidade.

China não lidera necessariamente todas as tecnologias

A própria reportagem da Reuters apresenta uma ressalva importante.

O aumento das visitas não significa que a China esteja tecnologicamente à frente em todos os setores.

Robert Wu cita o caso dos robotáxis.

Alguns visitantes chegam acreditando que o país lidera os Estados Unidos nesse segmento. Entretanto, políticas chinesas mais cautelosas em relação ao impacto da automação sobre empregos podem deixar o setor doméstico atrás do americano em determinados aspectos.

Rui Ma também ressalta que empresas tecnológicas não chinesas ainda concentram grande parte da participação mundial de mercado, propriedade intelectual avançada e lucros.

Portanto, o fenômeno é mais complexo do que uma simples substituição do Vale do Silício por Shenzhen.

A vantagem chinesa aparece especialmente na escala

Um dos elementos que mais impressiona os visitantes é a capacidade de escala.

A China construiu enormes cadeias de fornecedores ao redor de setores estratégicos.

Uma empresa que desenvolve um novo robô, carro elétrico ou equipamento eletrônico consegue encontrar uma extensa rede de fabricantes de componentes dentro do próprio país.

Além disso, concorrência doméstica intensa obriga companhias a reduzir custos e acelerar lançamentos.

Essa combinação encurta o caminho entre ideia, protótipo, fabricação e mercado.

Por isso, visitantes estrangeiros não estão interessados apenas em observar o produto final.

Eles querem entender o sistema que permite fabricá-lo.

Baterias também transformaram Shenzhen em destino internacional

Esse ecossistema aparece claramente na indústria de armazenamento de energia.

Em maio, Shenzhen recebeu a China International Battery Fair 2026, reunindo cerca de 3.100 expositores e ocupando aproximadamente 500 mil m² de área.

Fabricantes como CATL, BYD, EVE Energy, CALB, Gotion e Sunwoda participaram do evento.

A concentração de fabricantes, fornecedores e compradores transforma a região em um ponto de encontro de praticamente toda a cadeia de baterias.

Para executivos estrangeiros, visitar Shenzhen permite observar várias etapas dessa cadeia dentro de uma única região.

De “fábrica do mundo” para lugar onde estrangeiros vão aprender

Talvez essa seja a principal mudança retratada pela Reuters.

Durante muito tempo, a China recebeu estrangeiros interessados principalmente em terceirizar produção.

Agora, investidores e fundadores também chegam para aprender como produzir.

Alguns pagam US$ 15 mil por cinco dias de acesso orientado ao ecossistema.

Agências registram crescimento de 50% na procura.

A fábrica de carros elétricos da Xiaomi recebeu mais de 250 mil visitantes.

Shenzhen ultrapassou 5 milhões de entradas estrangeiras neste ano até agosto.

Ao mesmo tempo, o turismo industrial chinês já movimentou US$ 17,8 bilhões e poderá superar US$ 44 bilhões até 2029.

Os números mostram que fábricas deixaram de ser apenas locais de produção.

Elas também viraram vitrines da estratégia industrial chinesa.

Shenzhen começa a ocupar posição que antes pertencia ao Vale do Silício

Existe, porém, uma diferença fundamental entre os dois ecossistemas.

O Vale do Silício construiu sua reputação principalmente em software, plataformas digitais, semicondutores, capital de risco e grandes empresas tecnológicas.

Shenzhen ganhou força em outra dimensão: transformar tecnologia em objetos físicos produzidos em escala.

Robôs, drones, baterias, smartphones, componentes eletrônicos e veículos elétricos encontram uma cadeia extremamente concentrada ao redor da cidade.

Por isso, estrangeiros que trabalham com hardware começaram a enxergar Shenzhen não apenas como fornecedora.

Ela também virou um laboratório.

Uma viagem de US$ 15 mil revela uma mudança maior na economia mundial

O valor cobrado por esses roteiros tecnológicos é apenas o aspecto mais curioso de uma transformação muito maior.

Investidores americanos, europeus e asiáticos viajam à China porque precisam compreender empresas que poderão aparecer simultaneamente como concorrentes, fornecedores, parceiros e oportunidades de investimento.

A preocupação com um possível “China Shock 2.0” aumenta conforme fabricantes chineses avançam sobre setores que antes eram dominados por companhias ocidentais e japonesas.

Ainda assim, não existe evidência de que a China tenha assumido liderança absoluta em todas as tecnologias.

O que impressiona os visitantes é principalmente a combinação entre velocidade, escala, fornecedores, infraestrutura industrial e aplicação prática de novas tecnologias.

Nesse cenário, Shenzhen sintetiza a transformação.

Uma cidade que durante décadas ajudou empresas estrangeiras a fabricar produtos baratos agora recebe empreendedores dispostos a cruzar o planeta — e, em alguns casos, pagar US$ 15 mil — para descobrir como a própria China está construindo a próxima geração de produtos tecnológicos.

E você, acredita que a maior vantagem tecnológica da China está nas próprias invenções ou na capacidade de transformar rapidamente uma ideia em milhões de produtos fabricados em escala?

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Roberta Souza

Autora no portal Click Petróleo e Gás desde 2019, responsável pela publicação de mais de 8.000 matérias que somam milhões de acessos, unindo técnica, clareza e engajamento para informar e conectar leitores. Engenheira de Petróleo e pós-graduada em Comissionamento de Unidades Industriais, também trago experiência prática e vivência no setor do agronegócio, o que amplia minha visão e versatilidade na produção de conteúdo especializado. Desenvolvo pautas, divulgo oportunidades de emprego e crio materiais publicitários direcionados para o público do setor. Para sugestões de pauta, divulgação de vagas ou propostas de publicidade, entre em contato pelo e-mail: santizatagpc@gmail.com. Não recebemos currículos

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