Pesquisadores na China usaram aprendizado de máquina para vasculhar mais de 2 milhões de registros sísmicos de 35 anos e localizaram cerca de 175 mil sinais de precursores PKP. Os dados, publicados na JGR Solid Earth, apontam seis áreas sem explicação na fronteira entre núcleo e manto, a 2.900 km
Cientistas identificaram seis estruturas misteriosas na região onde o núcleo da Terra encontra o manto, a cerca de 2.900 quilômetros de profundidade. A descoberta, feita por pesquisadores na China a partir da análise de ondas sísmicas, usou aprendizado de máquina para examinar mais de 2 milhões de registros de terremotos coletados ao longo de 35 anos.
As informações foram publicadas pelo Olhar Digital em 7 de setembro de 2026, em reportagem de Ana Luiza Figueiredo, com base no estudo publicado na revista científica JGR Solid Earth.
Fronteira entre núcleo e manto fica a cerca de 2.900 km de profundidade

A região investigada é a fronteira entre o núcleo e o manto da Terra, a cerca de 2.900 quilômetros abaixo da superfície. Segundo os pesquisadores, essa zona é importante para a transferência de calor e para a circulação de materiais no interior do planeta.
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Apesar dessa importância, os detalhes da região em pequena escala ainda são pouco compreendidos, conforme o estudo.
Poço de Kola parou a 12.263 metros, uma fração da crosta
Estudar diretamente as camadas profundas da Terra é praticamente inviável. O ponto mais fundo já alcançado por uma perfuração humana é o Poço Superprofundo de Kola, construído pela União Soviética durante a Guerra Fria.
A perfuração chegou a 12.263 metros de profundidade, o que representa apenas uma fração da crosta terrestre. A fronteira entre núcleo e manto está cerca de 236 vezes mais fundo do que o poço soviético conseguiu chegar.
Precursores PKP: ondas de terremoto desviadas por diferenças na fronteira
Para investigar regiões tão profundas, os pesquisadores recorreram às ondas geradas por terremotos. O estudo se concentrou nos precursores PKP, um tipo de onda sísmica que pode ser espalhado ou desviado por pequenas diferenças de composição ou estrutura próximas à fronteira entre o núcleo e o manto.
O desvio dessas ondas funciona como pista indireta do que existe lá embaixo. Onde a onda se espalha de forma diferente, há algo diferente no caminho dela.
Aprendizado de máquina analisou mais de 2 milhões de registros de 35 anos

A equipe utilizou aprendizado de máquina para analisar mais de 2 milhões de registros de terremotos, coletados ao longo de 35 anos.
O volume de dados é o que diferencia o trabalho de estudos anteriores. Em vez de examinar registros selecionados manualmente, o método automatizado varreu o acervo inteiro em busca dos sinais de precursores PKP.
175 mil sinais, dez vezes mais que todos os estudos anteriores
O método permitiu localizar aproximadamente 175 mil registros com sinais de precursores PKP. O número é cerca de dez vezes maior do que o total identificado em estudos anteriores.
A escala de 175 mil sinais, contra os milhares reunidos antes, é o que tornou possível enxergar padrões novos, segundo a reportagem.
Padrões amplos e contínuos, não pontos isolados
Ao reunir os milhares de sinais identificados, os cientistas observaram padrões que não apareciam claramente em estudos anteriores.
Em vez de pontos isolados, os dados indicaram que essas possíveis diferenças podem se estender por regiões amplas e contínuas na fronteira entre núcleo e manto.
Seis áreas com diferenças significativas nunca documentadas
A análise revelou seis áreas que provavelmente abrigam diferenças significativas na estrutura do interior da Terra. Segundo os autores, essas regiões ainda não haviam sido documentadas.
As seis áreas passaram a ser consideradas alvos prioritários para futuras investigações. O estudo, portanto, não fecha a questão: abre uma lista de lugares para olhar em seguida.
Cientistas ainda não sabem o que são as seis estruturas
Os cientistas ainda não conseguem determinar exatamente o que são essas seis estruturas. O que os dados mostram é que elas estão associadas à dispersão das ondas PKP na fronteira entre o núcleo e o manto.
A expectativa é que pesquisas futuras consigam esclarecer a natureza dessas formações e entender como elas afetam a propagação das ondas sísmicas pelo planeta.
Estudo na JGR Solid Earth abre seis alvos para as próximas pesquisas
Publicado na revista JGR Solid Earth, o estudo dos pesquisadores chineses deixa como resultado prático um mapa de seis regiões prioritárias na fronteira entre núcleo e manto e um acervo de cerca de 175 mil sinais de precursores PKP.
Esse conhecimento pode contribuir para uma compreensão maior dos processos relacionados a terremotos e vulcões, fenômenos da superfície que dependem do que acontece a 2.900 quilômetros de profundidade.
Na sua opinião, descobertas como a das seis estruturas na fronteira entre núcleo e manto vão mudar a forma como a ciência prevê terremotos e erupções, ou o interior da Terra seguirá sendo um mistério por muito tempo? Deixe sua opinião nos comentários.
