Daniel Ortega anunciou o fim das eleições na Nicarágua e pretende impedir a oposição de chegar ao poder pelas urnas; em resposta, Marco Rubio convocou uma reação internacional e alertou que os Estados Unidos não ficarão “de braços cruzados”.
Daniel Ortega anunciou que a Nicarágua não realizará mais eleições, cancelando efetivamente o pleito previsto para novembro de 2027 e provocando uma reação dos Estados Unidos, que prometeram responder, mas ainda não anunciaram novas medidas.
Ortega anuncia fim das eleições na Nicarágua
De acordo com o g1, o presidente Daniel Ortega anunciou no domingo que não haverá novas eleições na Nicarágua. A declaração ocorreu durante a comemoração do 47º aniversário da Revolução Sandinista de 1979.
“Não haverá mais eleições aqui para que eles tentem tomar o governo e o poder”, declarou Ortega. Aos 80 anos, ele participava de sua primeira aparição pública em aproximadamente dois meses.
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O presidente afirmou que trabalhará com a Assembleia Nacional para aprovar leis destinadas a impedir que partidos de oposição assumam o poder por meio das urnas. Ele não explicou como essa mudança será implementada formalmente.
A Assembleia Nacional é controlada por Ortega. O presidente também exerce, ao lado de sua esposa, Rosario Murillo, controle sobre quase todos os poderes do Estado, incluindo as Forças Armadas, a polícia e o Judiciário.
O anúncio cancela efetivamente as eleições que estavam marcadas para novembro de 2027. O pleito seria realizado depois de uma reforma constitucional aprovada em janeiro de 2025.
Essa reforma aumentou o mandato presidencial de cinco para seis anos e designou Rosario Murillo como “copresidente”. A mudança ampliou formalmente o papel político exercido pela esposa de Ortega dentro do governo nicaraguense.
Marco Rubio promete reação dos Estados Unidos
De acordo com mercopress, na terça-feira, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou que os Estados Unidos “não ficarão de braços cruzados” diante da decisão anunciada por Ortega.
Em comunicado divulgado pelo Departamento de Estado, Rubio pediu que a comunidade internacional “una forças” para responder ao que classificou como ataques do governo nicaraguense contra os princípios democráticos do hemisfério.
“A declaração de Daniel Ortega de que, sob a ditadura de sua família, a Nicarágua jamais realizará eleições novamente expõe sua verdadeira natureza autoritária”, declarou Rubio.
O comunicado recebeu o título de “Um Chamado à Ação”. No documento, o secretário também relacionou o comportamento do governo nicaraguense à manutenção de suas relações econômicas com outros países.
Segundo o texto, o governo de Ortega e Murillo “não pode esperar manter relações comerciais normais com outras nações” enquanto enfraquece os fundamentos democráticos da região.
Rubio colocou a América Latina entre suas prioridades como secretário de Estado. Em junho, ele já havia classificado o governo comandado por Ortega e Murillo como uma “ditadura”.
Será que os Estados Unidos podem realizar uma ação militar?
A declaração de que Washington não ficará “de braços cruzados” pode levantar dúvidas sobre até onde os Estados Unidos pretendem ir para pressionar Daniel Ortega. Entretanto, as informações disponíveis não apontam a preparação de uma ação militar contra a Nicarágua.
Rubio pediu uma mobilização internacional e advertiu sobre a possibilidade de o governo nicaraguense não manter relações comerciais normais. O secretário, porém, não apresentou medidas específicas nem informou qual será a resposta norte-americana.
Também não está claro se o alerta será seguido por novas sanções econômicas, mais restrições de visto ou outras formas de pressão diplomática. Portanto, não é possível afirmar que uma intervenção militar esteja sendo considerada.
Uma comparação direta com ações norte-americanas relacionadas a Nicolás Maduro também não pode ser sustentada pelas informações disponíveis. O comunicado sobre a Nicarágua não menciona Maduro, Venezuela, tropas, operações militares ou preparação de uma intervenção.
O que está confirmado é que os Estados Unidos pretendem pressionar Ortega e buscar apoio de outros países. Qualquer afirmação sobre uma possível operação militar, neste momento, iria além do conteúdo efetivamente anunciado pelo governo norte-americano.
Mais de 2.350 autoridades e familiares foram atingidos
Os Estados Unidos não reconhecem a presidência de Daniel Ortega. Nos últimos anos, Washington aplicou sanções e restrições de visto contra mais de 2.350 autoridades nicaraguenses e seus familiares.
Essas medidas mostram que o governo norte-americano já utiliza instrumentos diplomáticos e econômicos para pressionar a administração nicaraguense. Apesar disso, Rubio não informou se esse conjunto de restrições será ampliado após o fim anunciado das eleições.
A advertência sobre as relações comerciais também não foi acompanhada de um detalhamento. O Departamento de Estado não indicou quais países deveriam adotar medidas, quais setores poderiam ser atingidos ou quando uma eventual resposta seria apresentada.
Eleição de 2021 foi contestada internacionalmente
A última eleição presidencial da Nicarágua aconteceu em 2021. O processo foi considerado ilegítimo por Washington e por observadores internacionais após a prisão dos principais candidatos da oposição.
Sem seus principais adversários na disputa, Ortega reivindicou cerca de 76% dos votos. Desde então, integrantes da oposição enfrentam prisões, impedimentos políticos ou permanecem fora do país.
Grande parte da oposição nicaraguense está exilada ou proibida de ocupar cargos públicos desde a crise de 2018. Naquele período, a repressão aos protestos deixou centenas de mortos.
No início de julho, especialistas da Organização das Nações Unidas denunciaram outro episódio envolvendo o governo nicaraguense: a revogação em massa de licenças profissionais de advogados no país.
Ortega ainda não explicou quais mudanças legais serão apresentadas à Assembleia Nacional para eliminar formalmente as eleições. Também permanece indefinida a resposta prática dos Estados Unidos além do pedido de mobilização internacional feito por Marco Rubio.
Economia da Nicarágua cresceu, mas depende fortemente das remessas
A economia da Nicarágua cresceu 4,9% em 2025, acima dos 3,6% registrados em 2024. O Produto Interno Bruto chegou a aproximadamente US$ 22,3 bilhões, enquanto o PIB por habitante ficou em US$ 3.179,70.
Segundo o Banco Mundial, o desempenho foi impulsionado principalmente pela construção, mineração, serviços e atividades financeiras. O setor de serviços liderou o avanço, com ganhos no comércio, transporte, hotéis e restaurantes.
A indústria também foi beneficiada pela expansão da construção e da mineração. A agricultura apresentou uma recuperação modesta, apoiada pelo aumento da produção de café, da pecuária e das agroindústrias relacionadas.
Em sentido contrário, as atividades de pesca e aquicultura registraram queda durante o período analisado.
Remessas chegaram a 29,4% do PIB
O dinheiro enviado por nicaraguenses que vivem no exterior ocupa uma posição central na economia nacional. As remessas aumentaram de 27% do PIB em 2024 para 29,4% em 2025.
Esses recursos ajudaram a sustentar o consumo das famílias e os investimentos. O aumento das remessas, acompanhado pelo bom desempenho das exportações, também favoreceu as contas externas nicaraguenses.
O superávit em conta-corrente avançou de 4,2% do PIB em 2024 para 8,4% em 2025. O resultado também recebeu impulso das exportações de ouro, café, carne bovina e gado, beneficiadas pelos preços internacionais mais elevados.
A elevada participação das remessas, entretanto, deixa o desempenho econômico mais exposto a mudanças ocorridas fora da Nicarágua, especialmente nos lugares onde vivem os trabalhadores que enviam dinheiro aos familiares.
Inflação recuou e dívida pública diminuiu
A inflação ao consumidor caiu de 4,6% em 2024 para 2,7% em 2025. O Banco Mundial relacionou essa redução à queda dos preços globais e à manutenção de subsídios.
A dívida pública também diminuiu, passando de 51,7% para 50,7% do PIB. O superávit fiscal recuou de 2,4% para 2,1%, movimento associado à continuidade dos investimentos de capital.
O sistema bancário permaneceu capitalizado e com liquidez acima das exigências regulatórias. Os depósitos cresceram 15,2% durante 2025, enquanto a expansão do crédito chegou a 12%.
No mercado de trabalho, a taxa de emprego permaneceu relativamente estável. Ela passou de 65,3% em dezembro de 2024 para 65,5% no mesmo mês de 2025.
O desemprego ficou em 2,4%, mas o subemprego atingia aproximadamente 40%. Isso significa que uma parcela elevada da população ocupada trabalhava em condições inferiores às desejadas em relação ao tempo de trabalho ou à utilização de suas capacidades.
Crescimento deve perder força em 2026
Para 2026, o Banco Mundial prevê que a economia nicaraguense cresça 3,4%. A projeção representa uma desaceleração em comparação com a expansão de 4,9% estimada para 2025.
A expectativa está relacionada principalmente ao possível enfraquecimento das remessas e dos investimentos estrangeiros diretos. A previsão indica que o crescimento deverá se estabilizar em aproximadamente 3,3% até 2028.
A inflação pode aumentar para 3,1% em 2026. Já a dívida pública deverá continuar caindo, chegando a 48,3% do PIB no mesmo ano e a 47,4% em 2028.
A pobreza é estimada em aproximadamente 13% para 2025, considerando a linha de US$ 4,20 por pessoa diariamente. O Banco Mundial ressalta, porém, que esse número resulta de simulações. A pesquisa efetiva mais recente utilizada é de 2014.
Entre os principais riscos estão as incertezas globais, uma desaceleração dos parceiros comerciais, o acesso limitado a financiamentos multilaterais, a redução das remessas e a vulnerabilidade do país a desastres naturais.
Fonte principal: Banco Mundial, Macro Poverty Outlook de abril de 2026
