Uma barragem construída nos anos 1930 ainda controla o destino de 23 milhões de toneladas de carga por ano — e os EUA estão gastando US$ 1,6 bilhão para salvá-la
No estado da Pensilvânia, às margens do rio Ohio, uma estrutura de concreto construída há quase 90 anos continua sendo uma das peças mais críticas da logística energética dos Estados Unidos.
A Montgomery Lock and Dam — barragem com eclusa para navegação — regula o nível da água e permite a passagem de barcaças que transportam 23 milhões de toneladas de carga por ano, incluindo carvão, gás natural liquefeito, produtos químicos e commodities agrícolas.
Contudo, após quase um século de operação ininterrupta, a estrutura atingiu o limite da sua vida útil — e o governo federal autorizou uma reforma monumental de US$ 1,6 bilhão.
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Segundo reportagem do Engineering News-Record (ENR), a obra já está em andamento e é conduzida pelo US Army Corps of Engineers — o corpo de engenheiros militares que mantém a infraestrutura hídrica dos EUA.
Dessa forma, uma estrutura quase centenária está recebendo um investimento que equivale ao PIB anual de alguns países — porque simplesmente não existe alternativa.

O rio Ohio é uma artéria logística dos EUA — e sem a barragem Montgomery, o fluxo para
O rio Ohio tem 1.579 km de extensão e é um dos rios mais importantes dos Estados Unidos para transporte de carga — conectando regiões produtoras de carvão e gás natural na Pensilvânia e Virgínia Ocidental aos terminais do rio Mississippi e ao Golfo do México.
Consequentemente, qualquer interrupção no funcionamento das eclusas e barragens ao longo do rio causa um efeito cascata que paralisa cadeias inteiras de suprimento energético.
Além disso, o transporte fluvial é até 10 vezes mais barato que o rodoviário e 5 vezes mais barato que o ferroviário para cargas pesadas — o que torna as barcaças insubstituíveis para commodities de baixo valor por tonelada como o carvão.
No entanto, a infraestrutura que sustenta essa vantagem econômica está envelhecendo rapidamente: muitas das eclusas e barragens do sistema foram construídas entre as décadas de 1920 e 1940.
Portanto, a reforma da Montgomery não é um luxo — é uma questão de sobrevivência logística para a economia energética americana.
O que os engenheiros estão fazendo: substituir estruturas de 90 anos sem parar o rio
A reforma da Montgomery Lock and Dam é um desafio de engenharia extraordinário porque a barragem não pode ser desligada durante as obras.
De acordo com o ENR, os engenheiros do US Army Corps precisam substituir as comportas, reforçar os pilares de concreto e ampliar a eclusa de navegação — tudo isso enquanto barcaças continuam passando pelo local.
Da mesma forma, a nova eclusa terá dimensões maiores que a atual, permitindo a passagem de barcaças modernas que são mais largas e longas que as da década de 1930.
Igualmente, o projeto inclui a substituição de equipamentos mecânicos e elétricos que operam há décadas sem interrupção — alguns deles com peças que não são mais fabricadas.
Nesse sentido, a reforma é como fazer uma cirurgia cardíaca em um paciente que não pode parar de correr: cada etapa precisa ser executada sem interromper o fluxo de embarcações.
Sobretudo, o cronograma é apertado: qualquer atraso pode gerar filas de barcaças que se estendem por quilômetros rio acima, com prejuízos de milhões de dólares por dia.

Os EUA enfrentam uma crise silenciosa: a infraestrutura que construíram há 100 anos está se deteriorando ao mesmo tempo
A Montgomery não é um caso isolado. Conforme análise da American Society of Civil Engineers (ASCE), mais de 70% das eclusas e barragens de navegação dos EUA já ultrapassaram a vida útil projetada de 50 anos.
Consequentemente, o país enfrenta uma fila de projetos de reforma que somam dezenas de bilhões de dólares — e cada ano de atraso aumenta o risco de falha catastrófica.
Por outro lado, a infraestrutura americana de navegação interior é uma das maiores do mundo, com mais de 40 mil km de hidrovias navegáveis e centenas de eclusas operadas pelo governo federal.
De fato, o rio Ohio sozinho movimenta mais carga que o Canal do Panamá — mas com estruturas muito mais antigas e menos investimento proporcional.
Como resultado, os EUA estão sendo forçados a fazer em décadas o que deveriam ter feito gradualmente ao longo dos últimos 50 anos: reformar um sistema inteiro de infraestrutura hídrica antes que ele colapse.
O que passa pela Montgomery: carvão que gera eletricidade, gás que aquece casas e grãos que alimentam o mundo
As 23 milhões de toneladas que passam anualmente pela barragem Montgomery incluem algumas das commodities mais importantes da economia americana.
Além disso, o carvão transportado pelo Ohio ainda gera cerca de 20% da eletricidade dos estados vizinhos — mesmo com a transição energética em andamento.
Apesar disso, a importância da barragem vai além do carvão: gás natural liquefeito, produtos petroquímicos, aço e até componentes de turbinas eólicas viajam pelas mesmas eclusas.
Portanto, a Montgomery é um gargalo que, se falhar, afeta não apenas a matriz energética fóssil, mas também a cadeia de suprimentos da energia renovável.
Ainda assim, poucos americanos sabem que uma barragem de 90 anos na Pensilvânia é responsável por manter as luzes acesas em suas casas e o combustível nos postos de gasolina.

A lição que a barragem Montgomery deixa para o mundo: infraestrutura não é gasto — é seguro de vida
Os US$ 1,6 bilhão que os EUA estão investindo na Montgomery parecem uma fortuna — mas representam uma fração do prejuízo que uma falha causaria.
No entanto, o caso americano mostra que mesmo a maior economia do mundo pode negligenciar infraestrutura por décadas até ser forçada a agir.
Por consequência, a reforma da Montgomery é um alerta para qualquer país que construa infraestrutura e depois esqueça de mantê-la — incluindo o Brasil, que tem 14 mil obras paradas e 14 mil obras paradas e trilhos abandonados.
A barragem foi construída quando Franklin Roosevelt era presidente, resistiu a duas guerras mundiais e à Guerra Fria — mas quase não sobreviveu ao inimigo mais silencioso de todos: a falta de manutenção.
Será que a lição chega antes ou depois que outra estrutura crítica falhe — em algum lugar do mundo onde a manutenção ficou para “o próximo governo”?

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