Um estudo da Embrapa revela como o Brasil avança na sustentabilidade dos biocombustíveis ao propor novas regras para reduzir riscos ambientais, ampliar o uso de etanol e biodiesel e impulsionar a transição energética no agronegócio.
Um estudo científico publicado na revista internacional Energy Policy posiciona o Brasil como destaque na gestão da sustentabilidade dos biocombustíveis, ao apresentar uma proposta inovadora para lidar com o risco de Mudança Indireta no Uso da Terra (ILUC). O trabalho, liderado pela Embrapa e divulgado em publicação nesta terça-feira (27), demonstra como o país tem avançado na construção de soluções técnicas e regulatórias capazes de fortalecer o etanol, o biodiesel e a transição energética no agronegócio.
Brasil, Embrapa e estudo reforçam liderança na sustentabilidade dos biocombustíveis
O estudo mostra que o Brasil pode deixar de ser apenas produtor para se tornar formulador de políticas internacionais, contribuindo ativamente com organismos como a Organização Marítima Internacional (IMO) e a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI).
Em vez de adotar apenas modelos quantitativos rígidos, a proposta brasileira aposta na gestão do risco de ILUC, abordagem considerada mais flexível, aplicável e cientificamente consistente.
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O estudo foi desenvolvido por pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente, em parceria com a Agroicone e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O artigo científico apresenta uma estrutura inédita para operacionalizar a gestão do risco de ILUC, um dos principais desafios regulatórios enfrentados pelos biocombustíveis nos mercados internacionais.
Segundo Renan Novaes, analista da Embrapa e primeiro autor do trabalho, o Brasil saiu na frente de outros países ao propor medidas abrangentes, escaláveis e alinhadas à realidade produtiva nacional.
Essa postura fortalece a credibilidade ambiental dos biocombustíveis brasileiros e amplia sua aceitação em mercados estratégicos. A sustentabilidade dos biocombustíveis passou a ser um critério decisivo de competitividade global.
O papel estratégico do Brasil na agenda climática global
O protagonismo do Brasil nesse debate ocorre em um momento crucial da agenda climática internacional. Setores como transporte marítimo e aviação enfrentam enormes dificuldades para reduzir emissões com tecnologias convencionais, o que torna os biocombustíveis uma alternativa essencial.
No entanto, para que etanol e biodiesel cumpram esse papel, é necessário comprovar que seu ciclo de vida apresenta emissões significativamente menores do que os combustíveis fósseis.
É nesse contexto que a sustentabilidade dos biocombustíveis se torna central para políticas de descarbonização. Sem critérios robustos de sustentabilidade, os biocombustíveis perdem legitimidade climática.
Entendendo o ILUC e seus impactos ambientais
A Mudança Indireta no Uso da Terra (ILUC) ocorre quando a expansão agrícola para produção de biocombustíveis desloca outras atividades para novas áreas, podendo resultar em desmatamento ou conversão de ecossistemas com alto estoque de carbono.
Esse processo pode gerar emissões adicionais de gases de efeito estufa (GEE), anulando parte ou até a totalidade dos benefícios climáticos esperados. Por isso, políticas públicas e normas internacionais buscam mecanismos eficazes para lidar com o ILUC.
O estudo explica que tanto a mudança direta do uso da terra (DLUC) quanto a indireta (ILUC) precisam ser consideradas para garantir a sustentabilidade dos biocombustíveis ao longo de todo o ciclo produtivo.
Limitações dos modelos quantitativos de ILUC
Durante anos, a principal abordagem adotada por organismos internacionais foi a aplicação de fatores quantitativos fixos de ILUC às emissões dos biocombustíveis. Um exemplo citado no estudo é a regulamentação da OACI, que atribui ao biocombustível HEFA à base de soja do Brasil um fator adicional de 27 gCO₂e/MJ.
Na prática, esse valor é somado às emissões do ciclo de vida do combustível, elevando significativamente sua intensidade de carbono. Contudo, os autores do estudo destacam que essa metodologia sofre críticas por apresentar inconsistências científicas, alta incerteza e grande variação de resultados. A quantificação isolada do ILUC não reflete a complexidade dos sistemas produtivos.
Estudo da Embrapa propõe nova abordagem para sustentabilidade dos biocombustíveis
Diante dessas limitações, o estudo liderado pela Embrapa propõe uma mudança de paradigma: a adoção de abordagens de gestão do risco de ILUC. Essa estratégia vem sendo cada vez mais considerada em fóruns internacionais, especialmente na IMO.
A proposta brasileira foi elaborada inicialmente em 2023, a convite da Marinha do Brasil, representante oficial do país na Organização Marítima Internacional. Desde então, o modelo vem sendo discutido pelos 176 países-membros da entidade como alternativa viável para biocombustíveis marítimos. O foco passa a ser prevenir riscos, e não apenas mensurá-los.
Medidas práticas para reduzir riscos de ILUC
A proposta apresentada no estudo estrutura cinco grandes eixos de ação, voltados a estimular a produção de biocombustíveis com baixo risco de ILUC e, simultaneamente, prevenir situações de alto risco ambiental.
Entre as medidas estão a criação de uma classificação hierárquica de risco, critérios amplos de elegibilidade, exigência de desmatamento zero, reconhecimento de um nível intermediário de risco e a implementação gradual das regras ao longo do tempo.
Além disso, o estudo destaca práticas agrícolas que fortalecem a sustentabilidade dos biocombustíveis, como o uso de matérias-primas residuais, sistemas integrados de produção, cultivo em segunda safra e recuperação de áreas degradadas.
Reconhecimento de boas práticas no Brasil
Outro diferencial da proposta brasileira é o reconhecimento de regiões e produtores que demonstram controle efetivo das emissões associadas à mudança do uso da terra. Estabelecimentos rurais que cumprem a legislação ambiental brasileira e preservam vegetação nativa passam a ser valorizados no sistema.
Segundo os autores, estimular boas práticas é tão importante quanto penalizar riscos. Essa lógica contribui para reduzir custos de transação, ampliar a adesão do setor produtivo e aumentar a escala de produção sustentável. A sustentabilidade dos biocombustíveis se transforma em vantagem competitiva.
Impactos do estudo da Embrapa para etanol, biodiesel e transição energética
O estudo evidencia que uma gestão eficaz do risco de ILUC é condição indispensável para ampliar o uso de biocombustíveis em setores estratégicos da economia global. Etanol e biodiesel têm papel central na redução de emissões em modais onde a eletrificação ainda enfrenta barreiras técnicas e econômicas.
Ao propor um modelo mais aplicável e escalável, o Brasil, por meio da Embrapa, contribui para destravar investimentos, aumentar a previsibilidade regulatória e fortalecer a confiança internacional nos biocombustíveis nacionais. Sem biocombustíveis sustentáveis, a transição energética global fica incompleta.
Protagonismo brasileiro e os próximos passos
O estudo publicado em março de 2026 consolida o Brasil como ator estratégico na formulação de normas internacionais sobre sustentabilidade dos biocombustíveis. A atuação da Embrapa demonstra como ciência, política pública e diplomacia podem caminhar juntas para enfrentar desafios ambientais complexos.
Ao liderar o debate sobre gestão de risco de ILUC, o país reforça sua posição como fornecedor confiável de energia renovável, fortalece o agronegócio sustentável e contribui de forma concreta para os compromissos globais de descarbonização. O Brasil mostra que é possível unir produção agrícola, ciência e responsabilidade ambiental em escala global.


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