Investigação da DW revela como estudantes indianos recrutados por campanhas de marketing nas redes sociais chegam à Alemanha e caem em um ciclo de exploração como entregadores de aplicativo, submetidos a jornadas de 12 horas, pagamentos em envelopes de rua e ameaças constantes de intermediários sem rosto que operam apenas pelo WhatsApp.
Milhares de estudantes indianos estão deixando carreiras estáveis e salários dignos em seu país de origem para tentar a vida na Alemanha, atraídos por campanhas agressivas de marketing nas redes sociais que prometem diplomas europeus e oportunidades profissionais incomparáveis. O que encontram ao desembarcar, no entanto, é uma realidade radicalmente diferente: custos de vida que consomem toda a reserva financeira em semanas, dívidas que se acumulam rapidamente e uma porta de entrada quase inevitável para o trabalho como entregadores de aplicativo em condições que beiram a ilegalidade.
Uma investigação conduzida pela DW, a emissora internacional da Alemanha, revelou em detalhes como funciona o sistema que aprisiona esses jovens. Estudantes com mestrado e experiência profissional acabam pedalando 12 horas por dia para receber pagamentos irregulares, controlados por intermediários que não possuem escritório físico, não oferecem contrato formal e se comunicam exclusivamente por um número de WhatsApp sem nome. Quando alguém questiona as condições, a resposta é simples: desconexão do aplicativo e perda imediata da única fonte de renda.
Como o recrutamento de estudantes indianos funciona desde a Índia

O caminho que leva estudantes indianos até as ruas de Berlim pedindo entregas começa muito antes do embarque. Agências de educação e facilitadores operam um esquema sofisticado de marketing digital direcionado a jovens indianos com ambição de estudar na Europa.
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Segundo dados do escritório indiano do DAAD, o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico, o número de indianos indo estudar na Alemanha dobrou nos últimos cinco anos, uma tendência acelerada por um pacto de imigração firmado entre os dois países em 2022.
Para esses estudantes, há dois caminhos legais: matrícula em uma universidade pública alemã, com custos baixos mas processo de admissão rigoroso, ou uma universidade privada, com entrada facilitada mas mensalidades elevadas.
É justamente o segundo caminho que alimenta o ciclo de exploração. As universidades privadas contam com um aparato de marketing que bombardeia potenciais candidatos nas redes sociais com anúncios sobre oportunidades na Alemanha.
Os facilitadores conseguem dados pessoais dos estudantes e passam a enviar e-mails e mensagens prometendo salários altos e uma vida melhor, sem mencionar as armadilhas financeiras que os esperam do outro lado.
O choque de realidade ao chegar na Alemanha e o caminho inevitável para o delivery

Ao desembarcar na Alemanha, os estudantes se deparam com um custo de vida que suas reservas simplesmente não cobrem. Para obter o visto, eles precisam depositar 11.904 euros em uma conta bloqueada, com limite de saque mensal de 992 euros, valor que muitas vezes é consumido inteiramente pela mensalidade da universidade.
Sobra pouco ou nada para aluguel, alimentação e transporte, e a busca por moradia acessível em uma metrópole como Berlim, em plena crise imobiliária, torna tudo ainda mais difícil.
Bavia é um desses estudantes. Antes de vir para a Alemanha, ele já tinha um título de mestrado e um emprego bem remunerado em Deli. Convencido pelas campanhas de marketing, largou tudo.
Ao chegar em Berlim, não conseguiu emprego na sua área de formação e foi orientado por colegas a trabalhar com entregas. O salário? Cerca de 80 a 90 euros por 12 horas de trabalho.
O contato com o empregador era apenas um número de WhatsApp sem nome e sem rosto, e logo ficou claro que não se tratava de emprego formal nem de condições legais.
Como os intermediários fantasmas controlam os entregadores pelo WhatsApp
O elemento central do esquema de exploração são os intermediários, empresas sem escritório físico que funcionam como ponte entre os aplicativos de entrega, como Volt e Uberits, e a mão de obra dos estudantes imigrantes. Toda a comunicação acontece por WhatsApp: instruções de trabalho, ameaças de desconexão e até indicações de onde buscar envelopes com dinheiro em espécie.
Os entregadores não têm nenhum contrato formal na maioria dos casos, e os pagamentos são feitos parte por transferência bancária, parte em dinheiro vivo entregue em encontros de rua.
A estratégia dos intermediários para escapar da fiscalização é declarar falência assim que o governo alemão exige uma declaração de renda, e então reabrir sob outra razão social.
Sam, membro do Conselho de Funcionários do Liferando, denuncia que esses intermediários não apenas exploram os trabalhadores migrantes, mas também sonegam sistematicamente milhões de euros em impostos da previdência pública e do sistema de saúde alemão.
Ele questiona por que as autoridades fiscais alemãs focam sua atenção nos entregadores nas ruas, pedindo documentação a imigrantes que já vivem com medo de deportação, em vez de ir atrás dos verdadeiros responsáveis pelo esquema.
O que dizem as empresas de aplicativo e a legislação trabalhista alemã
Questionadas pela DW, as plataformas de entrega ofereceram respostas divergentes. O Uberits afirmou que investiga toda denúncia de irregularidade e que já suspendeu contratos com intermediários no passado.
A Volt declarou que os intermediários são inteiramente responsáveis pelo pagamento dos entregadores de aplicativo, mas que mantém um canal de denúncias anônimas. Já o Liferando, líder do mercado na Alemanha, afirmou que mantém contratos diretos com seus empregados, pagando 14 euros por hora com direito a férias, licença médica e horas extras.
O problema é agravado pelo uso da categoria trabalhista conhecida na Alemanha como Minijob, prevista para trabalhos de carga horária reduzida e baixa remuneração.
Segundo o advogado trabalhista Aju John, essa categoria vem sendo amplamente explorada pela indústria de entrega por aplicativo, permitindo que intermediários se blindem com a fachada do Minijob para evitar obrigações de contratação integral.
Na prática, os estudantes são obrigados a cumprir jornadas muito mais longas do que a categoria prevê, sem nenhuma proteção legal proporcional.
A experiência da Espanha e a esperança de regulamentação europeia
A situação na Alemanha contrasta com o que já acontece em outros países da União Europeia. A Espanha, por exemplo, aprovou em 2021 uma lei que obriga a contratação formal dos entregadores de aplicativo.
A maior plataforma do país, a Glovo, inicialmente resistiu à regulamentação, e seu presidente executivo quase foi preso por descumprir a legislação.
Só quando a ameaça de prisão se tornou concreta é que a empresa começou a implementar a lei, segundo a professora espanhola de direito trabalhista Maria Fernandes. Os entregadores entrevistados por ela afirmam que, embora a renda possa ter diminuído em alguns casos, os benefícios trabalhistas compensam.
Na Europa, existe a expectativa de que a União Europeia regulamente ainda neste ano as condições de trabalho nos aplicativos de entrega. Se as diretrizes forem implementadas conforme previsto, estudantes e outros trabalhadores explorados poderão processar diretamente as plataformas como Uberits, mesmo tendo sido contratados por intermediários.
Até que isso aconteça, milhares de jovens indianos na Alemanha seguem pedalando 12 horas por dia, recebendo em envelopes de rua, sem contrato, sem proteção e sem perspectiva de que a formação acadêmica pela qual deixaram tudo para trás vá se traduzir em algo diferente de mais um dia de entregas.
Você conhece alguém que passou por uma situação parecida ao emigrar? Acha que a regulamentação europeia vai conseguir acabar com a exploração dos entregadores de aplicativo ou os intermediários vão encontrar novas brechas? Deixe seu comentário.


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