Astrônoma canadense alerta: pedaços de foguetes estão caindo na Terra e o risco de acidentes com lixo espacial cresce a cada ano
Quando pedaços de um porta-malas do foguete SpaceX Dragon caíram em uma fazenda no Canadá em 2024, a astrônoma Samantha Lawler sentiu de perto um alerta que cientistas já vinham dando. O maior fragmento pesava 36 quilos e media 2,4 metros. “Se aquilo atingisse sua casa, passaria direto”, afirmou Lawler. Ela presenciou o recolhimento dos destroços, feito discretamente por funcionários da SpaceX.
O caso acendeu um sinal de alerta. Com mais lançamentos e satélites em órbita, aumentam também os riscos de acidentes com lixo espacial.
Lawler afirma que situações como a do Canadá “vão se tornar muito mais comuns” e que, em algum momento, “alguém vai morrer por causa disso”.
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Satélites e objetos em excesso
A órbita terrestre baixa está cada vez mais congestionada. Segundo a Agência Espacial Europeia, há mais de 50 mil objetos com mais de 10 cm de diâmetro e 9.300 satélites ativos.
A maioria desses lançamentos está ligada à oferta de internet por satélite. A SpaceX, por exemplo, já colocou mais de 11 mil satélites Starlink em órbita desde 2019. Amazon e China também seguem o mesmo caminho.
Esse aumento resulta em mais objetos voltando à Terra. Em 2024, cerca de 1.200 reentraram na atmosfera, sendo pelo menos 120 de forma descontrolada — ou seja, sem saber exatamente onde cairiam.
Já houve registros de destroços em países como Índia, Indonésia, Austrália, Quênia, Costa do Marfim, Polônia e Estados Unidos.
Perigo no espaço e nas rotas aéreas
Os riscos não se limitam ao solo. Também há ameaça de colisões em órbita. Em 2009, dois satélites colidiram a 800 km de altitude, gerando milhares de novos fragmentos. A Estação Espacial Internacional precisou desviar de lixo espacial diversas vezes em 2023.
Outro ponto de preocupação é a aviação comercial. Um estudo de 2024 aponta que há mais de 25% de chance por ano de que um pedaço de foguete caia em zonas com tráfego aéreo intenso.
Em 2022, França e Espanha fecharam temporariamente seus espaços aéreos por conta da reentrada descontrolada de um foguete chinês de 20 toneladas.
Apesar de o risco individual ser baixo, o astrônomo Aaron Boley alerta: “O risco coletivo cresce a cada ano”.
Impacto ambiental invisível
Mesmo quando não caem na Terra, os satélites ainda causam problemas. A queima desses objetos na atmosfera libera óxido de alumínio, que pode afetar a camada de ozônio. Além disso, os lançamentos utilizam combustíveis fósseis, o que gera poluição.
A SpaceX garante que seus satélites são projetados para se desintegrar completamente na reentrada, com “risco efetivamente zero” para pessoas. Mas o astrofísico Jonathan McDowell é cético. “Estamos usando a atmosfera superior como incinerador. Já são mais de mil satélites Starlink queimados até agora”, afirma.
Leis ultrapassadas
O marco legal que regula as atividades espaciais é antigo. O principal documento é o Tratado do Espaço Exterior de 1967, que define as responsabilidades dos países.
No entanto, ele não impõe regras sobre reentradas controladas nem limita o número de lançamentos. “As normas atuais são boas para o que tínhamos 20 anos atrás”, diz McDowell. “Hoje, estão ultrapassadas.”
Especialistas defendem mudanças. Uma delas seria exigir que apenas foguetes com reentrada controlada possam ser lançados.
Soluções em teste
Algumas ideias para enfrentar o problema já estão sendo desenvolvidas. A empresa japonesa Astroscale criou um protótipo de caminhão de lixo espacial.
A ClearSpace, da Suíça, planeja missões para recuperar satélites mortos, com apoio da Agência Espacial Europeia. Já a China realizou um teste para empurrar um satélite desativado para uma órbita mais alta.
Para o futuro, uma alternativa seria a reciclagem em órbita. “Vamos precisar de estações espaciais que reaproveitem peças de satélites antigos”, propõe McDowell.
Outra solução, mais simples, seria reduzir o número de lançamentos e aumentar a durabilidade dos satélites. “Precisamos construir equipamentos mais duráveis, com vidas úteis maiores”, afirma Lawler. “Esse é o desafio real — e ninguém está enfrentando de verdade.”
Com informações de Smith Sonian Mag.
