Descubra como esse ecossistema isolado há milênios pode ajudar a reconstituir a origem da vida, agora ameaçado pela mineração em alto-mar
Imagine um mundo soterrado a mais de 700 m de profundidade, onde torres calcárias se erguem como ruínas de uma civilização esquecida, sem luz, sem oxigênio, mas vibrante de vida. Essa é a Cidade Perdida, um tesouro natural que pode oferecer pistas valiosas sobre o nascimento da vida na Terra.
O que é a ‘Cidade Perdida’?
No fundo do Atlântico, no flanco do Atlantis Massif, parte da Dorsal Mesoatlântica, a Cidade Perdida é o campo hidrotermal mais antigo já descoberto com cerca de 120 mil anos de atividade contínua. Suas torres colossais de carbonato (algumas atingindo até 60 m de altura) surgem de um processo químico chamado serpentinização, quando água do mar reage com rochas do manto, produzindo hidrogênio e metano.
Vida em um buraco negro: ecossistema sem sol
Os fluidos que vazam dessas chaminés chegam a até 90 °C e pH elevado — calor, energia química e substâncias essenciais que deram origem a micróbios capazes de viver no escuro absoluto, sem enxergar ou respirar. Esses micróbios transformam hidrogênio e metano em alimento, criando um ecossistema fascinante, onde camarões, caracóis e ouriços-do-mar vivem nas superfícies externas das torres.
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Perfurando o manto: avanços recentes
Em 2024, uma expedição guiada pelo navio JOIDES Resolution perfurou mais de 1.200 m no leito rochoso ao redor da Cidade Perdida, atingindo pela primeira vez fragmentos do manto terrestre, algo inédito e de grande importância para compreender a química e as origens da vida. A geóloga Susan Lang afirmou:
“Eles fizeram mágica acontecer” ao extrair um núcleo inexplorado que pode conter moléculas orgânicas intactas desde o início da vida na Terra.”
Janela para outros mundos
Essa combinação de geologia e biologia extrema atrai também a atenção da astrobiologia. Segundo o microbiologista William Brazelton, esse ecossistema pode ser análogo ao que existe hoje em luas geladas como Encélado (Saturno) e Europa (Júpiter), ambientes onde pode haver vida sem luz solar.
Risco iminente de mineração submarina
Apesar de estar protegido como Área Marinha Ecológica Significativa (EBSA) e estar sob análise da UNESCO como Patrimônio Mundial, a região enfrenta ameaça real. A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) autorizou contratos de exploração de sulfetos polimetálicos em áreas próximas, inclusive à Polônia, desde 2017. Especialistas alertam que a mineração pode causar plumas de sedimentos tóxicos que prejudicariam irreversivelmente a frágil teia de vida submarina.
Por que defender a Cidade Perdida?
- Patrimônio da ciência: o local é um laboratório natural único sobre as reações químicas que podem ter dado origem ao metabolismo primitivo;
- Biodiversidade rara: organismos extremófilos presentes aqui são modelos vivos para estudos de adaptabilidade e origem da vida;
- Proteção legal: a inclusão na Lista de Patrimônios da UNESCO daria amparo real contra interferências humanas.
O tema também está em debates recentes:
- Em 2024, Greenpeace protestou na reunião da ISA na Jamaica, defendendo um tratado global para proibir mineração em áreas sensíveis.
- Pesquisas como Thermodynamic constraints on the citric acid cycle… (abril 2025) comparam a quimiosfera da Cidade Perdida com ambientes de oceanos extraterrenos, reforçando sua relevância astrobiológica.
A Cidade Perdida é um fenômeno geológico, biológico e um portal para compreendermos como surgiu a vida na Terra, e talvez em lugares distantes, sob outras estrelas. Mas, se permitirmos sua destruição por interesses econômicos, perderemos um vestígio insubstituível do surgimento da vida na Terra. A urgência para sua proteção é real.
E você? O que pensa sobre conservar esse mundo submerso? Deixe um comentário e compartilhe esse artigo para ampliar a discussão!

