Com dois motores ultracompactos e um sistema de sucção que gruda o carro no asfalto, o McMurtry Spéirling redefine a relação entre peso, potência e aceleração extrema na nova era dos hipercarros elétricos
Há momentos em que a engenharia automotiva deixa de ser apenas evolução e passa a soar como provocação técnica. O que a britânica McMurtry Automotive construiu com o McMurtry Spéirling entra exatamente nessa categoria. Enquanto grande parte da indústria elétrica debate autonomia e eficiência energética, esse pequeno hipercarro decidiu mirar no território mais radical: a aceleração quase instantânea.
O protagonista dessa história não é apenas o carro em si, mas o conjunto elétrico desenvolvido pela Helix. Cada motor do modelo SPX242-94 pesa somente 33 kg e entrega cerca de 500 Nm de torque. No McMurtry Spéirling, dois desses motores atuam no eixo traseiro e geram aproximadamente 1.000 cv combinados, criando uma relação peso-potência que desafia qualquer referência tradicional.
McMurtry Spéirling e a obsessão pela densidade de potência
O McMurtry Spéirling não foi projetado para ser apenas rápido. Ele foi concebido para explorar limites físicos com o mínimo de massa possível. Por isso, a estratégia central não foi aumentar o tamanho das baterias ou simplesmente ampliar a potência bruta, mas sim otimizar a densidade de potência do conjunto.
-
Feito inédito na Índia: uma colossal escavadeira de 650 toneladas e quase 3.000 cv é transformada em 100% elétrica em feito marca nova fase da mineração pesada
-
Assustada com a rapidez das fabricantes chinesas, a Renault decidiu copiar o ritmo, fez o novo Twingo elétrico em apenas 21 meses, quer repetir a façanha em 36 modelos até 2030 e, no caminho, vai cortar até 2.400 postos de engenharia
-
Bateria chinesa da Dongfeng promete passar dos 1.000 km sem depender de eletrólito líquido, e o detalhe por trás da tecnologia pode mudar a disputa dos carros elétricos
-
O fim da era da combustão automotiva já começou, mas muitos no Brasil ainda não perceberam o tamanho da virada dos carros elétricos chineses
Cada motor de 33 kg adota uma arquitetura compacta, com foco em eficiência térmica e capacidade de rotação elevada. Dessa forma, o sistema consegue sustentar níveis extremos de desempenho sem comprometer a distribuição de peso. Em um carro que pesa pouco mais de uma tonelada, qualquer economia estrutural impacta diretamente aceleração, estabilidade e capacidade de frenagem.
Enquanto muitos elétricos de alto desempenho dependem de baterias volumosas para sustentar números chamativos, o McMurtry Spéirling aposta na leveza como parte essencial da equação. Esse equilíbrio entre potência e massa explica por que o modelo alcança resultados que parecem irreais até mesmo no universo dos hipercarros.
0 a 100 km/h em 1,5 segundo: o impacto físico da aceleração
Falar em 1,5 segundo para atingir 100 km/h pode soar como mera estatística, mas na prática o número coloca o McMurtry Spéirling em um território extremamente restrito. A sensação é tão intensa que o corpo mal processa o movimento antes de o velocímetro cruzar a marca de três dígitos.
Parte desse desempenho extraordinário vem do sistema ativo de sucção instalado na traseira. Diferentemente de asas tradicionais que dependem do fluxo de ar, o mecanismo gera downforce mesmo em baixas velocidades. Isso significa que o carro cria pressão negativa sob a carroceria, aumentando drasticamente a aderência desde o primeiro metro.
Consequentemente, o McMurtry Spéirling consegue aplicar toda a potência ao solo sem desperdício por perda de tração. Em vez de patinar, ele simplesmente dispara. Essa solução já ajudou o modelo a registrar tempos impressionantes em subidas de montanha e circuitos fechados, reforçando seu papel como laboratório extremo da engenharia elétrica. Veja dados técnicos:
- Downforce – Até 2.000 kg de força aerodinâmica a partir de 0 km/h (4.400 lb)
- Potência – 1.000 cv (aprox. 1.000 bhp)
- Dimensões (Comprimento | Largura | Altura) – 3.815 mm | 1.795 mm | 1.056 mm
- Entre-eixos – 2.200 mm (86,6”)
- Autonomia em pista – 20 minutos em ritmo de GT3
- Tempo de recarga – 25 minutos com carregador de 350 kW
- Assistências ao condutor – Controle de tração e sistema de freios ABS
- Conforto do piloto – Ar-condicionado (opcional), banco moldado sob medida, pedais e volante ajustáveis
- Pneus – Michelin Slicks (disponíveis globalmente)
- Freios – Discos ventilados de cerâmica de carbono com pinças Brembo de 6 pistões
- Opções de personalização – Ampla configuração externa e interna
- Chassi e carroceria – Compósito de carbono, monolugar, cockpit fechado
- Altura máxima do piloto – Até 195 cm (6 ft 5”)
- Bateria – 100 kWh de íons de lítio
- Peso – Aproximadamente 1.300 kg (2.860 lb)

Pequeno por fora, radical por dentro e irrelevante no volume de vendas
Projetos como esse funcionam como vitrines tecnológicas. Muitas das soluções testadas em ambientes extremos acabam migrando, anos depois, para esportivos elétricos de maior escala. A história da indústria automotiva mostra que inovações inicialmente radicais frequentemente se tornam padrão em gerações futuras.
Além disso, o desenvolvimento de motores ultracompactos com alta densidade de potência pode influenciar diversos segmentos. Reduzir peso sempre foi obsessão na engenharia automotiva, e o McMurtry Spéirling demonstra que ainda existe amplo espaço para evoluir o motor elétrico além da simples eficiência energética.
Quando o elétrico deixa de ser silencioso e vira brutal
Durante muito tempo, o discurso em torno dos veículos elétricos se concentrou em silêncio, economia e sustentabilidade. Embora esses pilares continuem relevantes, o McMurtry Spéirling lembra que a eletrificação também pode ser visceral. A entrega instantânea de torque, combinada com leveza extrema e soluções aerodinâmicas agressivas, cria um pacote que rivaliza com superesportivos tradicionais.
O mais intrigante é que essa brutalidade acontece de forma quase limpa. Não há trocas de marcha dramáticas nem explosões mecânicas. A aceleração é contínua, linear e desconcertante. É como se o tempo entre decidir acelerar e atingir 100 km/h simplesmente encolhesse.
No fim das contas, o McMurtry Spéirling mostra que a eletrificação ainda está longe de alcançar seu limite criativo. Enquanto o mercado de massa busca equilíbrio entre autonomia e custo, alguns engenheiros seguem explorando o extremo do espectro. E, ao colocar dois motores de apenas 33 kg para gerar 1.000 cv combinados, o projeto envia uma mensagem clara: o futuro elétrico também pode ser radical.

Seja o primeiro a reagir!