A própria moeda da região da Baviera nasceu dentro de uma sala de aula, virou um sistema financeiro paralelo ao euro aceito por milhares de pessoas em centenas de comércios locais, ajudou a economizar quase 13 mil toneladas de CO2 e só existe porque o banco central alemão impôs uma regra específica
Segundo o Canal DW Planeta, na região da Baviera, no sudeste da Alemanha, existe uma cidade onde os moradores podem entrar num bar, pedir duas cervejas e pagar com dinheiro que não é euro. As notas têm marca d’água, proteção infravermelha e valor real mas foram criadas ali mesmo, por gente da própria cidade, como uma própria moeda que funciona em paralelo à moeda oficial europeia. O nome é Chiemgauer, e estima-se que cinco milhões dessas unidades sejam gastas por ano.
O que chama atenção não é apenas o fato de uma comunidade ter inventado sua própria moeda e convencido mais de 300 empresas a aceitá-la. É que isso acontece dentro da Alemanha um país com legislação rígida onde imprimir ou usar moeda que não seja euro pode levar à prisão. O governo alemão deixou tudo acontecer, mas impôs uma condição: a própria moeda só pode circular ali, naquela região, entre aquelas pessoas. E é justamente essa restrição que faz o sistema funcionar.
Como uma aula de economia criou uma própria moeda que desafiou o euro

Tudo começou há 24 anos, quando um professor de economia chamado Christian Gelleri lecionava numa escola de ensino médio na região de Chiemgau.
-
Fruta gigante e azedinha da Mata Atlântica vira tesouro capixaba, pesa até 400 gramas e aparece até em brigadeiro, ceviche e cachaça
-
Formiga-da-amazônia constrói fazendas subterrâneas, cultiva fungos como alimento e ainda usa bactérias para proteger sua plantação natural na floresta
-
João-de-barro não faz apenas um ninho, ele ergue uma cápsula de barro com isolamento térmico que desafia calor, vento e chuva
-
Caso raro em Minas Gerais chama atenção após porca registrar 46 leitões vivos em parto que surpreendeu até quem entende de suinocultura
Ele e um grupo de alunos inventaram a própria moeda como um experimento de sala de aula para tentar resolver um problema concreto: as lojas locais estavam perdendo clientes para os grandes shoppings, e o dinheiro que entrava na cidade saía imediatamente para redes de fora.
A ideia era simples criar notas que só pudessem ser gastas no comércio local. Os donos das lojas toparam testar, os moradores começaram a usar e o que era exercício escolar virou um sistema microfinanceiro de verdade.
O Chiemgauer saiu da sala de aula para a economia real, e Gelleri passou de professor a gestor de uma própria moeda que hoje tem cofre com mais de 200 mil unidades. Mas para que nada fosse ilegal, foi preciso convencer o banco central alemão de que aquilo não era falsificação era outra coisa.
A condição que o governo alemão impôs para permitir a própria moeda

De acordo com a legislação alemã, imprimir dinheiro que não seja euro é crime passível de prisão. O Chiemgauer, portanto, nunca foi autorizado como moeda corrente.
O banco federal aceitou sua existência sob uma única condição: a própria moeda só tem validade dentro da região de Chiemgau, para um número limitado de pessoas. Fora dali, as notas não valem nada.
Essa restrição geográfica é o que diferencia o Chiemgauer de uma moeda qualquer e é também o que o torna eficaz.
Como o dinheiro não pode sair da região, ele circula ali dentro repetidas vezes, passando de loja em loja, de fornecedor em fornecedor, fortalecendo a economia local a cada transação. Pessoas comuns não podem trocar Chiemgauers por euros; empresas até podem, mas pagam uma dedução de 5% que sustenta o funcionamento do sistema e financia associações locais.
Como funciona o Chiemgauer no dia a dia de quem usa a própria moeda
Na prática, a própria moeda funciona como dinheiro comum com algumas regras extras que forçam a circulação. A cada seis meses, os portadores precisam comprar um pequeno adesivo por alguns centavos para manter as notas válidas. Depois de três anos, as notas expiram.
O objetivo é claro: ninguém deve guardar Chiemgauers embaixo do colchão. Eles existem para serem gastos.
E são gastos. Cerca de 4.200 pessoas e mais de 300 empresas participam do sistema. Dá para comprar cerveja no bar, pão na padaria, maçã na loja de orgânicos e cartão-postal na papelaria tudo com a própria moeda.
Além do dinheiro físico, existe uma versão eletrônica vinculada à conta bancária normal do usuário, por meio de um cartão especial. Numa das lojas da região, estima-se que entre 10% e 15% dos clientes paguem em Chiemgauers.
O ciclo é contínuo: o dono do bar usa as notas que recebeu para comprar insumos de um fornecedor local, que por sua vez paga seus próprios fornecedores com a mesma moeda.
O sistema que transforma a própria moeda em ferramenta contra emissões de CO2
O que era apenas uma estratégia de fortalecimento do comércio local evoluiu para algo maior. O Chiemgauer criou um programa chamado “bônus climático” que recompensa moradores por comportamentos favoráveis ao meio ambiente e as recompensas são pagas na própria moeda.
Instalar um painel solar na varanda rende 100 Chiemgauers. Usar carro compartilhado dá 50. Consertar roupas em vez de comprar novas, isolar a casa com materiais naturais tudo gera créditos.
Os números são expressivos e foram verificados por auditores independentes. Nos últimos quatro anos, o sistema de bônus climático economizou 12.800 toneladas de CO2 o equivalente às emissões de 2 mil carros no mesmo período.
Para cada tonelada de emissão compensada por moradores e empresas que contribuem para um fundo local, nove toneladas são economizadas graças à energia solar, ao compartilhamento de veículos e a outros comportamentos incentivados pela própria moeda. O modelo já se expandiu para mais quatro regiões da Alemanha.
Os limites que a própria moeda ainda não conseguiu superar
Apesar dos resultados, o Chiemgauer tem restrições claras. Menos de 1% dos moradores da região utilizam a própria moeda no dia a dia. Produtos como roupas e tecnologia continuam sendo fabricados no exterior e vendidos localmente em euros a cadeia global de produção não muda só porque existe uma moeda regional.
E há um paradoxo estrutural: a própria moeda precisa continuar pequena para continuar existindo. Se crescer demais, o banco central alemão pode decidir regulamentá-la de forma mais rígida ou até proibi-la. Globalmente, existem cerca de 300 moedas complementares semelhantes ao Chiemgauer a maioria na Europa e no Brasil, onde a Mumbuca movimenta dezenas de milhões de dólares por ano.
A pesquisadora Ester Barinaga, que estuda esses sistemas, resume a lição: o dinheiro não é intocável. Ele pode ser redesenhado para favorecer a economia local, reduzir emissões ou incentivar qualquer comportamento que uma comunidade considere importante. Se funciona com pouco dinheiro, a lógica pode funcionar com muito.
Você usaria uma moeda regional na sua cidade? Acha que um sistema como o Chiemgauer funcionaria no Brasil? Deixe sua opinião nos comentários.


-
1 pessoa reagiu a isso.