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Erro de R$ 1,1 bilhão no estoque derruba ações do Grupo Mateus, faz R$ 2 bilhões evaporarem em valor de mercado, assusta investidores, gera comparação com Americanas e levanta dúvidas sobre transparência contábil

Escrito por Carla Teles
Publicado em 08/01/2026 às 23:26
Atualizado em 08/01/2026 às 23:27
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Erro de R$ 1,1 bilhão e erro no estoque no Grupo Mateus derrubam valor de mercado e colocam em xeque a transparência contábil.
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Ajuste de erro de R$ 1,1 bilhão no estoque derruba ações do Grupo Mateus, acende comparações com o caso Americanas e abre um debate sobre governança e transparência contábil no varejo.

Em novembro de 2025, um erro de R$ 1,1 bilhão no estoque declarado como ajuste contábil foi suficiente para colocar o Grupo Mateus no centro de uma crise de confiança. Em poucos dias, a companhia viu cerca de R$ 2 bilhões em valor de mercado evaporarem, as ações desabarem e as redes sociais e relatórios de análise se encherem de comparações com o escândalo das Lojas Americanas

De um lado, investidores e analistas tentam entender como um estoque que aparecia nos balanços em torno de R$ 6 bilhões foi reclassificado para R$ 4,9 bilhões.

Do outro, a empresa insiste que se tratou de um aperfeiçoamento técnico, fruto da complexidade crescente da operação. A pergunta que fica é direta: o Grupo Mateus cometeu apenas um erro contábil ou revelou um problema mais profundo de governança?

De mercearia de 50 m² a gigante do varejo nordestino

Antes do erro de R$ 1,1 bilhão estampar manchetes, a narrativa do Grupo Mateus era a clássica história de sucesso do varejo brasileiro.

O negócio começou em 1986, quando Ilson Mateus Rodrigues, maranhense de origem humilde, abriu uma mercearia de 50 m² em Balsas, no interior do Maranhão.

A lojinha rapidamente evoluiu para armazém e depois para supermercado de médio porte, com a marca Mateus Supermercados. Nos anos 90, a empresa entrou em novos segmentos, incluindo a venda de eletrodomésticos, com a criação da Eletromateus.

O crescimento foi construído tijolo por tijolo, com expansão geográfica, verticalização e diversificação do portfólio.

Verticalização, atacarejo e o salto para a bolsa

A partir dos anos 2000, o grupo acelerou. Abriu lojas em Imperatriz, Santa Inês e, em seguida, em São Luís, capital maranhense.

Em paralelo, começou a se verticalizar: criou a Bumba Meu Pão, fábrica própria de pães, doces e salgados; entrou no atacarejo com o Mix Atacarejo; e investiu pesado em logística, com centros de distribuição, centrais de fatiados e hortifrúti.

O grupo também apostou em formação interna, com a Universidade de Líderes do Mateus, depois Unimateus, para desenvolver gestores em casa.

A expansão se espalhou para Pará, Piauí e outros estados do Nordeste, com formatos variados, incluindo lojas de vizinhança voltadas para cidades de até 50 mil habitantes. Em 2020, com mais de 130 lojas, e-commerce estruturado, mais de 20 mil funcionários e faturamento superior a R$ 10 bilhões, veio o IPO.

A abertura de capital levantou bilhões, consolidou o Grupo Mateus entre os maiores do país e transformou seu fundador em bilionário.

Quando o erro de R$ 1,1 bilhão aparece nos números

O ponto de ruptura veio em 13 de novembro de 2025, na divulgação dos resultados do terceiro trimestre.

Em meio aos números usuais de receita, margem e EBITDA, uma nota de rodapé acendeu o alerta: a companhia havia revisado sua política contábil de estoques e identificado erros na forma de calcular o valor das mercadorias e o custo dos produtos vendidos.

Na prática, o estoque que aparecia no balanço como R$ 6 bilhões foi corrigido para R$ 4,9 bilhões, gerando um erro de R$ 1,1 bilhão.

O ajuste também reduziu o patrimônio líquido em aproximadamente R$ 700 milhões. Para o mercado, não era apenas um detalhe técnico, mas uma reclassificação bilionária que mexe com a percepção de risco e credibilidade.

Possíveis origens do erro: bonificações, tributos e inventário

Embora o Grupo Mateus tenha enfatizado o caráter técnico do ajuste, o mercado rapidamente começou a especular as possíveis raízes do erro de R$ 1,1 bilhão. Relatos e análises apontaram hipóteses que costumam rondar o varejo:

  • Bonificações de fornecedores fora da nota fiscal, funcionando como descontos ocultos, que podem distorcer o custo real dos estoques
  • Erros na apropriação de tributos como ICMS e PIS, especialmente em operações multirregionais com regimes distintos
  • Falhas de inventário físico, com mercadorias registradas no sistema que nunca chegaram efetivamente às prateleiras

Nenhuma dessas hipóteses foi confirmada oficialmente, mas o simples fato de um erro desse tamanho existir já levantou dúvidas sobre a robustez dos controles internos e dos processos contábeis. Em um setor com margens apertadas, uma diferença bilionária em estoque não passa despercebida.

A reação imediata do mercado e o medo de um “novo caso Americanas”

Diante da notícia do erro de R$ 1,1 bilhão, o reflexo dos investidores foi praticamente automático: lembrar o caso Americanas.

Embora os contextos e valores sejam diferentes, a combinação de varejo, ajustes contábeis e números bilionários é suficiente para disparar o gatilho da desconfiança.

As ações do Grupo Mateus entraram em queda livre, e mais de R$ 2 bilhões em valor de mercado foram perdidos em poucos dias.

O investidor que via a empresa como história de crescimento passou a questionar se os balanços refletiam com precisão a realidade da operação.

Em um ambiente de juros altos e margens pressionadas, qualquer sombra de dúvida pesa ainda mais.

A versão oficial: revisão técnica e operação mais complexa

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Para tentar conter a sangria, o Grupo Mateus publicou um comunicado em 21 de novembro, em resposta à CVM e ao mercado.

No documento, a empresa negou irregularidades e reforçou a narrativa de que o erro de R$ 1,1 bilhão derivou de uma revisão técnica contábil, motivada pelo aumento da complexidade da operação, com entrada em novos estados, diferentes regimes tributários e múltiplos formatos de loja.

Segundo a companhia, os ajustes foram feitos com base em um novo sistema de custeio mais moderno, automatizado e rastreável, sem relação com perdas físicas, furtos ou desvios de mercadoria.

A administração ainda destacou que o impacto líquido de R$ 731,2 milhões, equivalente a 3,8% do ativo total de cerca de R$ 19 bilhões, não alterou caixa, covenants de dívidas nem a capacidade de pagamento, e que o patrimônio líquido continuou próximo de R$ 10,2 bilhões.

Por que parte do mercado não se deu por satisfeita

Mesmo com a explicação, muitos analistas consideraram a linguagem do comunicado técnica demais e defensiva.

A crítica principal não foi apenas ao erro de R$ 1,1 bilhão, mas à forma como ele foi comunicado. Para uma parte do mercado, o tom de “aprimoramento contábil” pareceu incompatível com a magnitude do ajuste.

Investidores queriam entender a causa raiz, em que processos os controles falharam, quais correções estruturais foram feitas e como a companhia pretende evitar que algo semelhante se repita.

Quando essas respostas não aparecem com clareza, a consequência é direta: aumento de prêmio de risco, desconfiança prolongada e desconto relevante nas ações.

Governança, transparência contábil e o sinal para o varejo

O caso do Grupo Mateus joga luz sobre um ponto sensível em empresas de crescimento acelerado: o casamento entre expansão operacional e maturidade de controles.

Uma companhia que abre dezenas de lojas, entra em novos estados, diversifica formatos e mexe com tributações distintas precisa de controles internos e transparência contábil na mesma velocidade da expansão física.

O erro de R$ 1,1 bilhão sinaliza que, pelo menos em algum momento, essa equação não fechou. E isso não é um alerta apenas para o Grupo Mateus.

É um recado para todo o varejo brasileiro, que lida com alta complexidade fiscal, grande volume de itens em estoque, bonificações variadas e margens pressionadas.

Quando o controle é frouxo, o risco de distorção contábil deixa de ser teórico e vira linha no balanço.

O que fica para o investidor e os próximos capítulos

Na prática, o investidor hoje olha para o papel do Grupo Mateus com duas perguntas principais:

  • Esse erro de R$ 1,1 bilhão foi um ponto fora da curva, corrigido com novos sistemas e processos, ou o sintoma de algo recorrente?
  • A empresa será capaz de reconstruir confiança com melhorias de governança, comunicação mais clara e resultados consistentes no tempo?

Enquanto a CVM acompanha o caso e o mercado reavalia seus modelos, as ações seguem pressionadas, negociadas próximas às menores cotações dos últimos anos.

O preço, neste momento, reflete não só os fundamentos operacionais, mas o desconto da dúvida.

Depois de conhecer a trajetória do grupo e o tamanho do erro de R$ 1,1 bilhão no estoque, na sua visão o caso Mateus é mais “ajuste contábil mal comunicado” ou um sinal de alerta estrutural para o varejo brasileiro?

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Carla Teles

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