No deserto de Tengger, a China instalou uma usina híbrida solar e eólica de 1 gigawatt, capaz de gerar 1,8 bilhão de quilowatts-hora por ano. Além de produzir eletricidade, os painéis criam um microclima sob as estruturas que estimula o crescimento de vegetação na região árida.
Enquanto vastas áreas do planeta convivem com o avanço da desertificação, a China aposta em uma estratégia diferente: usar os próprios desertos como base territorial para a geração de energia limpa em escala industrial. No deserto de Tengger, na região autônoma de Ningxia Hui, o país conectou à rede elétrica a primeira fazenda de energia solar e eólica construída em área desértica do território chinês.
A usina tem capacidade instalada de 1 gigawatt e expectativa de gerar 1,8 bilhão de quilowatts-hora por ano, volume suficiente para abastecer cerca de 1,5 milhão de residências. Além da geração energética, os painéis solares criam um microclima sob suas estruturas que estimula o crescimento de vegetação no solo árido, transformando o projeto em uma intervenção que mistura energia, regeneração ambiental e ocupação produtiva de áreas hostis.
O que é o projeto solar e eólico no deserto de Tengger

A iniciativa marca o primeiro projeto da China voltado à geração de energia solar e eólica em áreas desérticas. O empreendimento entrou em operação após investimento robusto em infraestrutura de geração e transmissão de energia limpa.
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O complexo combina painéis solares fotovoltaicos com turbinas eólicas no mesmo terreno. Essa configuração híbrida aproveita dois recursos naturais abundantes nas regiões áridas do interior chinês: a forte incidência solar e os ventos constantes que cruzam o deserto.
Localizada em Ningxia Hui, no centro-norte da China, a usina tem capacidade instalada de 1 milhão de quilowatts, o equivalente a um gigawatt. O número coloca o projeto entre as maiores instalações renováveis em ambiente desértico já entregues no mundo.
Por que a China escolheu o deserto para gerar energia

A escolha de áreas áridas para abrigar a infraestrutura energética responde a uma lógica de aproveitamento territorial. Desertos têm baixa densidade populacional, vegetação escassa e enorme disponibilidade de espaço plano, três características que reduzem conflitos de uso da terra.
O potencial técnico também é elevado. A radiação solar nessas regiões é mais intensa e constante do que em zonas urbanas ou agrícolas, o que aumenta a eficiência dos painéis e o retorno do investimento por metro quadrado instalado.
O país investiu cerca de 85 bilhões de yuans, equivalente a 12,28 bilhões de dólares na conversão do período do anúncio, em projetos de energia limpa no deserto de Gobi e em outras regiões áridas da China Central. O Tengger é apenas a primeira peça desse tabuleiro maior.
O efeito microclima criado pelos painéis solares
Um dos aspectos mais inesperados do projeto é o impacto ambiental positivo no próprio deserto. Os painéis solares funcionam como uma cobertura parcial do solo, criando sombra e alterando as condições de temperatura, umidade e exposição ao vento na área coberta.
Esse microclima sob as estruturas favorece o crescimento de vegetação rasteira em terrenos antes considerados estéreis. A redução da incidência direta do sol diminui a evaporação da pouca umidade presente no solo, criando janelas favoráveis para que plantas adaptadas a regiões áridas se estabeleçam.
O processo não transforma o deserto em floresta, mas representa uma forma de combate indireto à desertificação. Em vez de o vento varrer livremente a superfície e carregar a camada superficial do solo, a cobertura criada pelos painéis ajuda a estabilizar o terreno.
Plano nacional de 100 GW em regiões áridas
O projeto de Tengger é apenas a primeira peça de um plano muito mais amplo. A China estabeleceu como meta instalar 100 gigawatts de capacidade de geração solar e eólica em regiões áridas, com o objetivo de substituir parte da matriz baseada em carvão.
As usinas previstas estão distribuídas por 19 províncias chinesas, abrangendo as áreas com maior potencial de radiação solar e vento constante. Regiões como Ningxia, Xinjiang e Mongólia Interior estão no centro dessa estratégia.
O movimento se conecta a um esforço maior de redução das emissões de carbono. A China é, simultaneamente, o maior emissor mundial e o maior investidor global em capacidade renovável, em um equilíbrio delicado entre demanda energética crescente e compromissos climáticos.
Linha de ultra-alta tensão leva energia até Hunan
A geração de energia em regiões desérticas só faz sentido se houver como transportá-la até os grandes centros consumidores. O projeto de Tengger também inaugura o primeiro canal de transmissão de energia em ultra-alta tensão construído pelo país para essa finalidade específica.
A linha leva a eletricidade gerada nas regiões áridas do norte e centro chinês até a província de Hunan, no coração econômico do país. Sem essa infraestrutura de transmissão, a energia limpa produzida no deserto ficaria isolada e sem mercado consumidor.
Esse tipo de tecnologia permite transportar grandes blocos de energia por longas distâncias com perdas reduzidas. A China é hoje uma das líderes mundiais em redes de ultra-alta tensão, justamente por causa da distância entre seus polos de geração e os centros de consumo.
Crescimento das renováveis na matriz chinesa
O contexto do projeto reflete uma expansão acelerada das fontes renováveis no país. No ano anterior à entrada em operação da usina de Tengger, a capacidade renovável da China cresceu 86,5%, segundo dados divulgados pela imprensa local.
A capacidade eólica instalada chegou a 10,4 milhões de quilowatts adicionais, enquanto a capacidade solar somou 33,6 milhões de quilowatts no mesmo período. Especialistas ouvidos pela imprensa chinesa apontam que regiões como Ningxia, Xinjiang e Mongólia Interior terão papel central no cumprimento das metas chinesas de sustentabilidade energética.
O movimento se complementa pela expansão da geração nuclear, área em que o país também tem investido fortemente na construção de novas plantas. A combinação entre renováveis e nuclear é a aposta chinesa para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis sem comprometer o ritmo de crescimento da demanda.
O que esse modelo pode significar para outros países
O projeto chinês chama atenção de governos que enfrentam dois problemas em paralelo: avanço da desertificação e necessidade de descarbonização da matriz energética. A combinação dos dois desafios em uma única solução técnica é o que torna o modelo interessante para outras nações.
Países do norte da África, do Oriente Médio, da Austrália e até regiões específicas das Américas têm grandes áreas áridas com alto potencial solar. O Brasil, embora não tenha desertos clássicos, conta com extensas regiões de semiárido no Nordeste com características climáticas que se aproximam dessa lógica.
A escalabilidade do modelo, no entanto, depende de fatores que vão além da geografia. Disponibilidade de capital, infraestrutura de transmissão de longa distância, integração com a rede elétrica nacional e marcos regulatórios sólidos são pré-requisitos para reproduzir o que a China está fazendo em Tengger.
A experiência da China com geração de energia em áreas desérticas mostra que regiões antes vistas como inabitáveis podem se transformar em ativos estratégicos para a transição energética. O microclima criado pelos painéis ainda traz um bônus inesperado, contribuindo para reduzir o avanço da desertificação.
E você, o que pensa sobre essa solução? Acredita que o Brasil deveria investir em projetos semelhantes em áreas do semiárido nordestino? Esse modelo é viável fora de regimes com forte planejamento estatal? Deixe seu comentário, conte sua opinião e marque alguém que se interessa por energia limpa.

