Descoberto em 1990, Sue passou de achado paleontológico extraordinário a protagonista de uma disputa pela propriedade que envolveu terras indígenas, governo federal, tribunais e um leilão histórico nos Estados Unidos.
Um dos fósseis de Tyrannosaurus rex mais completos já encontrados protagonizou também uma das disputas jurídicas mais incomuns da paleontologia.
Sue foi descoberta em agosto de 1990, perto da cidade de Faith, na Dakota do Sul, durante uma expedição organizada pelo Instituto de Pesquisa Geológica de Black Hills.
O exemplar apresentava aproximadamente 90% de integridade em volume, segundo as estimativas dos pesquisadores responsáveis pela descoberta.
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A trajetória do fóssil, porém, rapidamente ultrapassou o campo científico.
Uma disputa envolvendo propriedade de terras, legislação federal e direitos sobre o esqueleto terminou anos depois com Sue sendo oferecida em leilão.
O Museu Field de História Natural, em Chicago, conseguiu finalmente adquirir o T. rex por US$ 8,4 milhões.
Na época, esse valor estabeleceu o maior preço já pago por um fóssil.
Descoberta revelou um dos T. rex mais completos já encontrados
A história começou em agosto de 1990, enquanto Sue Hendrickson participava de uma expedição paleontológica na Dakota do Sul.
A equipe se preparava para abandonar a região quando Hendrickson percebeu fragmentos ósseos espalhados perto da base de um penhasco.
Os pesquisadores investigaram o local e descobriram que grande parte de um Tyrannosaurus rex permanecia preservada dentro da rocha.
A escavação durou 17 dias e permitiu recuperar 250 dos aproximadamente 360 ossos que formavam o esqueleto do animal.
Pequenas partes estavam ausentes.
Os cientistas, entretanto, estimaram que o fóssil preservava aproximadamente 90% de sua integridade em volume.
Esse estado de conservação colocou Sue entre os exemplares de Tyrannosaurus rex mais completos já descobertos.
O nome foi escolhido em homenagem a Sue Hendrickson, responsável por localizar os primeiros fragmentos do esqueleto.

Pagamento de US$ 5 mil abriu disputa pela propriedade
A retirada dos ossos trouxe imediatamente uma questão que mudaria completamente o destino do fóssil.
O Instituto Black Hills afirmava ter firmado um acordo com Maurice Williams, proprietário beneficiário do terreno onde Sue foi encontrada.
Os pesquisadores haviam pago US$ 5 mil pelo direito de realizar as escavações naquela propriedade.
Maurice Williams, porém, apresentou posteriormente uma interpretação diferente.
Segundo ele, o pagamento garantia somente acesso ao terreno e posse temporária do esqueleto durante os trabalhos.
A propriedade definitiva do fóssil de Tyrannosaurus rex, portanto, não teria sido transferida.
A situação ficou ainda mais complexa porque o terreno integrava a Reserva Indígena de Cheyenne River.
Williams possuía a propriedade beneficiária da área.
O título legal, no entanto, permanecia sob responsabilidade do governo dos Estados Unidos em regime fiduciário.
A legislação federal limitava sua capacidade de vender determinados direitos relacionados ao terreno sem autorização do Departamento do Interior.
Questão jurídica colocou um dinossauro no centro dos tribunais
A disputa gerou uma pergunta incomum para os tribunais norte-americanos.
A Justiça precisava determinar se Sue era uma propriedade pessoal ou parte integrante da terra onde permanecera enterrada por cerca de 67 milhões de anos.
Essa diferença jurídica seria decisiva para estabelecer quem realmente possuía o esqueleto.
A controvérsia se prolongou enquanto o Instituto Black Hills trabalhava na preparação dos ossos.
Nesse período, agentes federais chegaram ao armazém utilizado pela equipe.
O fóssil acabou apreendido durante a operação.
Peter Larson, fundador do instituto, descreveu posteriormente o episódio em entrevista concedida à PBS, em 1997.
Segundo Larson, agentes do FBI, policiais do xerife armados e um cordão de isolamento cercaram o prédio durante a ação.
A apreensão, entretanto, representou apenas mais uma etapa da disputa.

Decisão judicial devolveu Sue a Maurice Williams
Anos de discussões terminaram com uma decisão de um tribunal federal.
A Justiça reconheceu Maurice Williams como legítimo proprietário do fóssil.
Williams decidiu então colocar Sue em leilão.
A decisão abriu uma nova disputa, dessa vez entre compradores interessados em um dos fósseis de Tyrannosaurus rex mais importantes conhecidos.
A possibilidade de um colecionador particular adquirir o esqueleto preocupou o Museu Field de História Natural, em Chicago.
A instituição desejava preservar Sue como uma peça acessível ao público.
O principal obstáculo estava no valor que o fóssil poderia alcançar durante o leilão.
Disney e McDonald’s ajudaram o Museu Field na compra
O Museu Field iniciou uma mobilização para reunir recursos suficientes para disputar Sue.
A arrecadação recebeu apoio de doadores individuais e instituições públicas.
O sistema da Universidade Estadual da Califórnia participou do esforço.
Empresas como Disney e McDonald’s também contribuíram para a aquisição.
A estratégia funcionou.
O Museu Field conseguiu comprar Sue por US$ 8,4 milhões.
O valor representava, naquele momento, o maior preço já pago por um fóssil.
O McDonald’s também financiou dois laboratórios destinados à preparação dos ossos antes da exposição pública.
Réplicas em tamanho real do dinossauro foram produzidas como reconhecimento pela colaboração das empresas.
A reprodução destinada à Disney foi instalada no Animal Kingdom, na Flórida.
O McDonald’s também patrocinou uma exposição itinerante com duas reproduções de Sue em diferentes museus norte-americanos.
Sue se tornou um dos fósseis mais famosos do mundo
Décadas após a descoberta, Sue permanece entre as principais atrações do Museu Field de História Natural, em Chicago.
A fama do exemplar não depende somente de seu excepcional estado de preservação.
Sua trajetória reuniu ciência, propriedade de terras, atuação federal, legislação, tribunais e um leilão milionário.
Um achado iniciado com fragmentos encontrados perto de um penhasco acabou se transformando em um dos casos mais conhecidos da paleontologia.
Sue também se tornou exemplo de como uma descoberta científica pode ultrapassar laboratórios e escavações.
O fóssil passou a representar uma discussão envolvendo patrimônio, propriedade e acesso público a descobertas de enorme importância científica.
De um esqueleto enterrado durante cerca de 67 milhões de anos a uma venda de US$ 8,4 milhões, Sue percorreu um caminho tão incomum quanto sua própria descoberta.
Você acha que fósseis de enorme importância científica, como Sue, deveriam permanecer obrigatoriamente acessíveis ao público ou seus proprietários deveriam ter liberdade para decidir seu destino?

