A trajetória de Andile Mkhungo reúne dificuldades financeiras, excelência acadêmica, apoio familiar e uma formação médica construída entre assentamentos informais, sete distinções escolares e o trabalho em um dos maiores hospitais do mundo.
Quando Philile Mkhungo viu o filho receber o diploma de Medicina com distinção acadêmica, as lágrimas registraram o fim de uma etapa que havia começado muito antes da entrada na universidade.
Empregada doméstica, ela trabalhou durante anos enquanto Andile Mkhungo enfrentava as exigências de uma das formações universitárias mais longas da África do Sul.
Andile Mkhungo recebeu diploma cum laude
Em maio de 2026, ele concluiu o curso de Medicina na Nelson R. Mandela School of Medicine, ligada à Universidade de KwaZulu-Natal, a UKZN, e recebeu o diploma cum laude.
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A expressão latina é utilizada para identificar estudantes que concluem uma graduação com desempenho acadêmico elevado.
No caso de Andile, a universidade o apresentou como um dos melhores alunos do programa de Medicina.
A cerimônia reuniu o jovem, a mãe Philile e outros familiares que acompanharam a trajetória iniciada em uma comunidade rural de KwaZulu-Natal e desenvolvida nos assentamentos informais de Umlazi, na região metropolitana de Durban.
Para Philile, o momento foi descrito como “um dia que o Senhor fez”, em referência aos anos de trabalho, dificuldades financeiras e apoio ao projeto profissional do filho.
Infância foi marcada por dificuldades econômicas
Andile nasceu na região de Hluthankungu, em Highflats, e viveu parte da infância na comunidade rural de Jolivet.
Posteriormente, cresceu na Seção D de Umlazi, área marcada por assentamentos informais e por limitações econômicas enfrentadas por parte das famílias locais.
Segundo o médico, as condições observadas durante a infância não afastaram seu interesse pelos estudos.
Ele afirmou que passou a enxergar a educação como uma possibilidade de modificar as circunstâncias da própria família e, mais tarde, contribuir com a comunidade em que foi criado.
“Eu sabia que a educação seria a chave para transformar as condições da minha família e retribuir à comunidade que me criou”, declarou em entrevista divulgada pela universidade.
Mãe empregada doméstica sustentou o sonho
A mãe aparece como a principal referência de sua trajetória.
Andile contou que acompanhou Philile trabalhar continuamente para permitir que ele perseguisse o objetivo de se tornar médico, mesmo quando a renda familiar e as condições sociais tornavam o caminho mais difícil.
“Minha maior inspiração sempre foi minha mãe. Eu a vi trabalhar incansavelmente para garantir que eu pudesse perseguir meu sonho de infância de me tornar médico”, afirmou.
A tia Ayanda Mkhungo-Fakazi também foi mencionada por ele entre as pessoas que ofereceram apoio emocional e material ao longo da formação.
Andile atribuiu à mãe e à tia parte da força necessária para atravessar períodos de pressão, incerteza e dificuldade financeira.

Jovem terminou a escola com sete distinções
Antes da universidade, o jovem já apresentava desempenho acadêmico elevado.
Ele estudou na Zwelibanzi High School, em Umlazi, e terminou o ensino médio com sete distinções e média geral de 90%.
As distinções são concedidas a estudantes que alcançam notas elevadas em determinadas disciplinas no sistema educacional sul-africano.
Em fevereiro de 2020, quando tinha 17 anos, Andile já havia sido apresentado pela UKZN como um estudante de destaque que acabara de conquistar uma vaga na Faculdade de Medicina.
Aquele ingresso marcou o início de uma formação de seis anos, período no qual precisou conciliar aulas teóricas, avaliações, atividades práticas e estágios clínicos.
Curso de Medicina durou seis anos
A graduação escolhida foi o MBChB, sigla em inglês para Bacharelado em Medicina e Bacharelado em Cirurgia.
O título é adotado em países como a África do Sul e corresponde à formação básica necessária para que o profissional avance para o estágio médico obrigatório e outras etapas de especialização.
A conquista do diploma cum laude era uma meta cultivada por Andile durante o curso.
“Formar-me como um dos melhores estudantes do programa de MBChB é um dos momentos de maior orgulho da minha vida”, afirmou.
Segundo ele, a distinção representa a dedicação, a disciplina e a perseverança aplicadas durante os seis anos de formação médica.
Morte da avó influenciou escolha profissional
O percurso também foi influenciado por uma experiência familiar ocorrida na infância.
A avó de Andile morreu em decorrência de complicações relacionadas ao diabetes, episódio que o aproximou do impacto provocado pelas doenças crônicas sobre pacientes e familiares.
“Perder minha avó ainda jovem devido a complicações do diabetes teve um impacto profundo na minha vida”, relatou.
A experiência contribuiu para seu interesse pela Medicina Interna, área dedicada ao diagnóstico, à prevenção e ao tratamento de doenças em adultos.
Durante a graduação, essa se tornou sua rotação preferida.
Andile explicou que se interessava pela diversidade dos casos, pela necessidade de raciocínio contínuo e pela possibilidade de acompanhar os pacientes ao longo do tratamento.
Medicina Interna está entre os planos de especialização
O médico pretende especializar-se em Medicina Interna e, posteriormente, considera seguir para Endocrinologia ou Gastroenterologia.
A Endocrinologia trata, entre outras condições, de doenças hormonais e metabólicas, como o diabetes que afetou sua avó.
A Gastroenterologia concentra-se no sistema digestivo, incluindo órgãos como estômago, intestinos, fígado e pâncreas.
Andile também relatou ter desenvolvido interesse pela Radiologia, área que utiliza exames de imagem para investigar doenças e orientar decisões médicas.
Mentores ajudaram durante a graduação
Ao longo da formação, ele recebeu orientação de professores, médicos e especialistas ligados à UKZN.
Entre os profissionais citados estavam Bilkish Cassim, Ayesha Motala, Fraser Pirie, Ashraff Moosa, Nokwazi Shandu e Onke Nonkala.
Andile destacou ainda Sandile Kubheka e Thabani Nkwanyana como mentores que continuavam a orientá-lo e que o ajudaram a encontrar um espaço profissional dentro da Medicina Interna.
A experiência universitária não ficou restrita às próprias notas.
O estudante também atuou como mentor acadêmico de alunos que estavam em etapas anteriores do curso.
Segundo ele, acompanhar o crescimento e o desempenho dos orientandos reforçou a importância de transmitir a outras pessoas o apoio que havia recebido.
“Ver meus mentorados crescerem, terem sucesso e comemorarem suas conquistas me lembrou da importância da mentoria e de devolver o apoio que um dia recebi”, declarou.

Médico passou a atuar em hospital de Soweto
Depois da graduação, Andile iniciou o estágio médico no Chris Hani Baragwanath Academic Hospital, localizado em Soweto, na região de Joanesburgo.
A unidade é reconhecida como o maior hospital da África do Sul e do continente africano, além de ser frequentemente apresentada por instituições governamentais e acadêmicas como uma das maiores estruturas hospitalares do mundo.
O número exato de leitos varia entre levantamentos produzidos em diferentes períodos, mas documentos públicos registram milhares de vagas de internação distribuídas por especialidades como clínica médica, cirurgia, pediatria, maternidade, psiquiatria e ortopedia.
O hospital também funciona como unidade de ensino ligada à Universidade de Witwatersrand e recebe um grande volume de pacientes com casos de diferentes níveis de complexidade.
Estágio reúne casos clínicos complexos
No estágio, Andile passou a enfrentar uma rotina que reúne atendimento clínico, tomada de decisões supervisionadas e contato com doenças que exigem acompanhamento de diferentes especialidades.
“Trabalhar em um ambiente tão exigente e dinâmico tem sido, ao mesmo tempo, uma experiência de humildade e fortalecimento, pois me expõe diariamente a casos clínicos complexos”, afirmou.
O registro público mais recente localizado, divulgado em maio de 2026, identificava Andile como médico interno do Chris Hani Baragwanath.
Não foi encontrada uma atualização posterior que indique mudança de hospital, função ou programa profissional.
Corrida ajuda a manter equilíbrio e disciplina
Além dos objetivos na Medicina, Andile mantém a corrida como atividade regular.
Ele afirmou que o esporte o ajuda a preservar disciplina, equilíbrio e clareza mental diante das exigências profissionais.
Entre seus planos pessoais está a participação na Comrades Marathon, tradicional ultramaratona sul-africana conhecida pelo percurso longo e pela exigência física.
O lema adotado pelo médico é: “Se você não fizer, ninguém fará por você”.
Segundo Andile, a frase funciona como um lembrete para assumir responsabilidade pelos próprios objetivos e continuar trabalhando para alcançá-los.
Diploma reuniu esforço familiar e acadêmico
Ao receber o diploma, ele relacionou a conquista não apenas ao próprio desempenho, mas aos anos de trabalho da mãe, ao apoio da tia, à orientação dos professores e às dificuldades enfrentadas desde a infância em Umlazi.
Para o jovem, a formação também passou a representar a possibilidade de mostrar a estudantes de comunidades semelhantes que a origem social não determina, de forma isolada, o caminho acadêmico ou profissional.
