A dificuldade que ele apontou na preparação é a mesma que derruba candidato em vestibular público e privado no Brasil inteiro, e é justamente a disciplina que sustenta o curso escolhido.
São R$ 8.300 por mês. Multiplicado pelos doze meses do ano letivo, o valor chega perto de R$ 99,6 mil só no primeiro ano, e tende a passar dos R$ 100 mil nos seguintes por causa dos reajustes anuais.
Esse é o custo do curso em que Benício Huck, de 18 anos, filho de Luciano Huck e Angélica, acaba de ser aprovado. Ele vai cursar Engenharia de Produção no Insper, em São Paulo, segundo publicação do Alô Alô Bahia em 30 de julho de 2026.
Os pais comemoraram a aprovação publicamente, destacando a dedicação do jovem ao longo da preparação. Benício é o filho do meio do casal, entre Joaquim, de 21 anos, e Eva, de 13.
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O curso escolhido não é o mais óbvio para quem vem da televisão
Engenharia de Produção é a engenharia que cuida de sistema, e não de estrutura. Enquanto a civil calcula viga e fundação e a mecânica projeta máquina, a de produção organiza como pessoas, equipamentos e materiais se combinam para entregar alguma coisa no menor custo e no menor tempo.
Na prática, o profissional trabalha com planejamento de fábrica, logística, qualidade, gestão de estoque e análise de dados de operação. É por isso que o curso costuma ser procurado por quem quer trabalhar em indústria, em consultoria ou em cargo de gestão.
A escolha também explica a instituição. O Insper é conhecido por formação em administração, economia, direito e engenharia, com foco declarado em preparar o aluno para o mercado, o que aproxima o curso do perfil de negócios.
A matemática foi o obstáculo declarado
O detalhe mais concreto que apareceu sobre a preparação não é a rotina de estudo, é a disciplina que travou. Em vídeo de um cursinho preparatório, Benício apontou a matemática como sua maior dificuldade, conforme o Alô Alô Bahia.
O dado é menos anedótico do que parece. Matemática é a área que mais derruba candidato em processo seletivo de engenharia, porque o conteúdo é cumulativo: quem ficou com buraco na base do ensino fundamental carrega o problema até o cálculo do primeiro ano da faculdade.
E a ironia é que o curso escolhido é justamente um dos que mais dependem dela. Engenharia de Produção usa estatística, pesquisa operacional, cálculo e modelagem matemática como ferramenta de trabalho diária, e não apenas como disciplina de ciclo básico.
O mesmo diploma tem dois caminhos de custo muito diferentes
O valor da mensalidade do Insper coloca o curso numa faixa restrita do ensino superior brasileiro. É preciso dizer, porém, que o diploma de engenheiro não depende de pagar por ele.
A rede federal e a estadual oferecem os mesmos cursos sem mensalidade, e o funil é o vestibular. Foi por essa porta que Irene, de 51 anos, e o filho Vitor, de 17, entraram juntos na mesma turma de Engenharia Elétrica da Unioeste, ela pelas vagas para pessoas com deficiência e ele na ampla concorrência.
Existem ainda rotas que dispensam até a prova tradicional. Institutos federais vêm abrindo centenas de vagas gratuitas em cursos superiores com seleção feita apenas por redação, sem exigir nota do Enem.
O que a mensalidade alta costuma comprar
Faculdade cara não vende conteúdo, porque a ementa de Engenharia de Produção é regulada e parecida em qualquer lugar. O que a mensalidade compra é outra coisa.
Compra proporção de aluno por professor, laboratório equipado, tempo de professor em dedicação exclusiva e, principalmente, a rede de contato que se forma dentro da turma e o acesso a programa de estágio em empresa parceira.
É um cálculo legítimo e é também o ponto em que a discussão costuma escorregar. Instituição pública de ponta entrega pesquisa e corpo docente com titulação alta que instituição privada nem sempre alcança, e o inverso também vale em estrutura e colocação profissional.
A idade da aprovação diz algo sobre o percurso
Entrar na faculdade aos 18 anos significa ter emendado o ensino médio na graduação, sem ano de cursinho e sem interrupção. É o percurso considerado padrão, e ele é minoria no Brasil.
A trajetória mais comum envolve atraso escolar, trabalho simultâneo ao estudo ou tentativa repetida no vestibular. Há quem chegue muito depois, como a faxineira que passou quase oito anos limpando os corredores da Unesp de Bauru antes de ser aprovada em Ciências Biológicas na própria universidade, aos 54 anos.
Nos dois casos o vestibular é o mesmo obstáculo. O que muda é quanto tempo a pessoa levou para conseguir chegar até ele em condições de disputar.
Por que aprovação virou notícia
Aprovação em faculdade não costumava render manchete. Passou a render por dois motivos simultâneos, e nenhum deles tem a ver com celebridade.
O primeiro é a concorrência. A disputa por vaga em curso de alta demanda ficou acirrada o suficiente para transformar cada aprovação em resultado noticiável, especialmente em medicina e engenharia.
O segundo é o interesse do leitor pela distância percorrida. Histórias como a do jovem que acordava antes das 5h para estudar e passou em Medicina numa universidade federal circulam porque o leitor mede o esforço, e não só o resultado.
O que acontece agora
O curso de Engenharia de Produção tem duração padrão de cinco anos, com ciclo básico de cálculo, física e química nos primeiros semestres e disciplinas de gestão, produção e logística a partir do meio.
Não foi divulgado em que semestre Benício inicia as aulas nem por qual modalidade de processo seletivo ele entrou, informação que o Insper costuma não abrir por aluno.
O que está registrado é o número que abre esta reportagem: R$ 8.300 por mês, quase R$ 99,6 mil no primeiro ano, para um curso que também é oferecido de graça em dezenas de universidades públicas pelo país.
