A EcoCeres transforma resíduos como óleo de cozinha usado em combustível sustentável para aviões e agora prepara uma operação bilionária no mercado financeiro enquanto amplia fábricas e contratos com algumas das maiores companhias aéreas do mundo.
Uma empresa que transforma óleo de cozinha usado em combustível para aviões prepara uma operação que pode movimentar cerca de US$ 1 bilhão na Bolsa de Hong Kong.
A EcoCeres, produtora de combustíveis renováveis sediada na região, pretende realizar uma oferta pública inicial de ações até o fim de 2026, segundo informações divulgadas pela Reuters em setembro.
Pessoas com conhecimento do processo disseram à agência que a companhia pretende levantar aproximadamente US$ 1 bilhão com o IPO. O valor e o cronograma ainda dependem das condições de mercado e das aprovações necessárias.
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Enquanto prepara a possível estreia na Bolsa, a EcoCeres já fornece combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla SAF, para algumas das maiores empresas do setor.
Entre os clientes citados estão British Airways, Lufthansa, Air France e Qantas.
O combustível chama atenção pela matéria-prima. A empresa aproveita resíduos, incluindo óleo de fritura usado, que passam por processamento industrial até se transformar em um combustível capaz de substituir parcialmente o querosene de aviação tradicional.
Óleo de fritura usado vira combustível para aviões
O modelo da EcoCeres aproveita materiais que normalmente perderiam grande parte do valor após o descarte.
A companhia afirma utilizar matérias-primas derivadas de resíduos, com destaque para óleo de cozinha usado e outros óleos residuais.
Esses materiais passam por um processo industrial conhecido como HEFA, uma das principais rotas utilizadas atualmente para produzir combustível sustentável de aviação.
O SAF resultante pode ser misturado ao querosene convencional e utilizado em aeronaves e sistemas de abastecimento já existentes.
Segundo a EcoCeres, dependendo da matéria-prima e da metodologia considerada, seu combustível pode proporcionar redução de até 94,4% das emissões de gases de efeito estufa ao longo do ciclo de vida em comparação ao combustível fóssil.
O percentual é uma estimativa da própria companhia e pode variar conforme a origem dos resíduos, o processo de produção, o transporte e os critérios de certificação.
British Airways e outras gigantes já compram o combustível
A EcoCeres não está produzindo apenas para projetos experimentais.
Em junho de 2026, a companhia ampliou seu acordo de fornecimento de SAF com a British Airways, estendendo a parceria até o fim de 2030.
A empresa estima que o combustível contratado poderá ajudar a companhia aérea britânica a evitar aproximadamente 198 mil toneladas de emissões de carbono ao longo de seu ciclo de vida, na comparação com o mesmo volume de combustível fóssil.
Além da British Airways, a EcoCeres também aparece como fornecedora de empresas como Lufthansa, Air France e Qantas.
Essa carteira mostra como o mercado de combustíveis feitos a partir de resíduos começa a ganhar escala entre companhias que precisam reduzir as emissões de suas operações sem substituir imediatamente suas frotas de aviões.
Fábricas podem produzir 770 mil toneladas por ano
A EcoCeres opera duas grandes unidades de produção de combustíveis renováveis.
Uma delas fica em Zhangjiagang, na China, com capacidade anual de aproximadamente 350 mil toneladas.
A segunda está instalada em Johor, na Malásia, e pode produzir até 420 mil toneladas por ano.
Somadas, as duas instalações alcançam cerca de 770 mil toneladas anuais de capacidade para combustíveis renováveis.
Além do SAF destinado à aviação, as fábricas também produzem HVO, um diesel renovável utilizado principalmente no transporte terrestre.
A unidade da Malásia começou a operar em outubro de 2025 e foi inaugurada oficialmente em janeiro de 2026. Segundo a companhia, trata-se da primeira fábrica de SAF do país.

Operação de US$ 1 bilhão pode levar EcoCeres à Bolsa
A abertura de capital vem sendo preparada há alguns meses.
Instituições como Deutsche Bank, HSBC, Morgan Stanley e UBS foram associadas ao processo de uma possível listagem da empresa em Hong Kong.
Reportagens publicadas ao longo de 2026 apontaram uma faixa de captação entre US$ 800 milhões e US$ 1 bilhão.
Em setembro, a Reuters voltou a informar que a empresa trabalhava com uma meta próxima de US$ 1 bilhão.
A EcoCeres é apoiada pela Bain Capital, uma das maiores gestoras de investimentos privados do mundo.
A Bain investiu mais de US$ 700 milhões na companhia em 2022 e poderá reduzir parte de sua participação caso a oferta de ações avance.
A operação ainda não está concluída. O valor final, o momento da estreia e o tamanho da participação oferecida ao mercado poderão mudar.

Empresa também prepara expansão de US$ 1,3 bilhão
Os planos da EcoCeres não estão limitados à Bolsa.
Em maio, a empresa anunciou a intenção de desenvolver uma nova cadeia de produção de SAF em Dongguan, no sul da China, dentro da Grande Área da Baía de Guangdong, Hong Kong e Macau.
O projeto pode envolver cerca de HK$ 10 bilhões, equivalentes a aproximadamente US$ 1,3 bilhão, em investimentos ao longo dos próximos anos.
A região oferece uma vantagem importante para esse tipo de negócio: grande disponibilidade de óleo de cozinha usado e uma estrutura industrial e logística capaz de abastecer novas fábricas.
O projeto prevê integrar coleta da matéria-prima, processamento e produção comercial do combustível.
Com isso, a EcoCeres tenta transformar um resíduo comum de restaurantes, cozinhas e indústrias em matéria-prima para uma cadeia de energia que movimenta bilhões de dólares.
SAF ganha espaço em um setor difícil de eletrificar
A aviação comercial enfrenta uma dificuldade que outros meios de transporte não têm na mesma escala.
Baterias ainda apresentam limitações importantes para substituir combustíveis líquidos em grandes aviões e rotas de longa distância.
Por isso, o SAF passou a ser tratado como uma das principais alternativas para reduzir emissões sem exigir uma transformação imediata das aeronaves existentes.
O combustível produzido com óleo usado não elimina todas as emissões da aviação. Seu benefício ambiental depende da origem da matéria-prima, da energia utilizada na fabricação, do transporte e de outros fatores ao longo da cadeia.
Ainda assim, a utilização de resíduos como matéria-prima abriu um mercado que já envolve grandes companhias aéreas e investimentos bilionários.
Para a EcoCeres, os próximos passos combinam expansão industrial e mercado financeiro. A companhia prepara uma possível operação de US$ 1 bilhão em Hong Kong, enquanto amplia a capacidade de transformar materiais descartados em combustível para aviões que cruzam o mundo.
O que começa como óleo de fritura usado pode terminar, depois de processamento e certificação, abastecendo aeronaves de algumas das maiores companhias aéreas internacionais.
