O preço invisível da inteligência artificial: supercomputador de Elon Musk polui bairro pobre nos EUA e gera revolta
Enquanto Elon Musk celebra mais um avanço tecnológico com a inauguração do supercomputador mais potente do planeta, moradores de um bairro historicamente marginalizado nos Estados Unidos enfrentam um cenário bem diferente: ar contaminado, risco à saúde e denúncias de racismo ambiental. A realidade por trás do projeto “Colossus”, da empresa xAI, expõe uma contradição profunda entre os discursos de inovação sustentável e a prática poluente de centros de dados movidos a gás natural.
Supercomputador do Elon Musk alimentado por turbinas de gás levanta acusações de racismo ambiental
A instalação do Colossus, que promete revolucionar a inteligência artificial ao alimentar algoritmos complexos utilizados em veículos Tesla e outras frentes do império tecnológico de Elon Musk, foi implantada onde antes havia uma fábrica abandonada em Memphis, no estado do Tennessee. O local escolhido fica em Boxtown, uma comunidade predominantemente negra e de baixa renda, já pressionada por dezenas de instalações industriais.
Segundo a rede CNN, o centro de dados funciona com 35 turbinas movidas a gás natural, responsáveis por liberar uma mistura perigosa de poluentes como óxidos de nitrogênio, formaldeído e partículas ultrafinas. Essas emissões podem agravar doenças respiratórias e, conforme estudos ambientais, elevam o risco de câncer em Boxtown para níveis quatro vezes superiores ao considerado seguro pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA).
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O problema se intensifica porque essas turbinas começaram a operar sem as licenças exigidas por lei. A empresa alegou que estaria amparada por uma brecha legal destinada a equipamentos temporários — argumento questionado por especialistas, dado o uso contínuo e em larga escala das máquinas. A manobra reacendeu debates sobre racismo ambiental, conceito que define práticas em que comunidades negras ou pobres são desproporcionalmente expostas à poluição industrial.
Enquanto autoridades exaltam o “progresso”, comunidade denuncia abandono
Apesar das denúncias, o projeto conta com apoio institucional. O prefeito de Memphis, Paul Young, celebrou a chegada do “Delta Digital”, como vem sendo chamado o polo tecnológico da xAI na cidade. Já o deputado estadual Justin Pearson, conhecido por sua atuação em pautas ambientais, afirmou que nem sequer foi consultado antes da implementação da estrutura.
A tentativa da empresa de regularizar parte das turbinas após o escândalo midiático não convenceu os moradores. Isso porque Boxtown tem um histórico de resistência contra empreendimentos poluentes: em 2021, a comunidade conseguiu barrar a construção de um oleoduto, e em 2023 forçou o fechamento de uma planta de óxido de etileno na região.
Em entrevista à NBC News, líderes comunitários apontam que o caso atual é mais um capítulo de um padrão recorrente em que promessas de desenvolvimento escondem estratégias de exploração. Como resumiu um ativista local: “O futuro não pode ser construído à base de veneno”.
Discurso verde das Big Techs esbarra na realidade energética
A instalação de Colossus é apenas um dos vários exemplos que revelam a crescente contradição no setor tecnológico. Empresas que defendem compromissos ambientais públicos — como Google, Amazon e a própria Tesla — frequentemente dependem de centros de dados intensivos em energia fóssil. Essa dissonância se torna ainda mais gritante nos Estados Unidos, onde iniciativas federais favorecem a desregulamentação ambiental sob a justificativa de crescimento econômico.
Apesar de Musk defender abertamente fontes renováveis e ter um histórico ligado à energia limpa por meio da Tesla e da SolarCity, sua nova empreitada contradiz esses valores. O supercomputador Colossus representa uma revolução em desempenho computacional, sim, mas também simboliza um retrocesso no compromisso com comunidades vulneráveis e com o planeta.
Brasil deve ficar atento: expansão de data centers também gera impactos por aqui
Com a expansão dos data centers no Brasil — especialmente em regiões como São Paulo, Rio de Janeiro e Nordeste — especialistas alertam para o risco de repetição de padrões semelhantes ao de Memphis. Muitos desses centros consomem grandes volumes de energia e água, além de dependerem de infraestrutura poluente quando não há compensação ambiental clara. Um relatório do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) mostra que o impacto da digitalização sobre os recursos naturais é uma questão emergente no país.
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