Corte seletivo, manejo florestal e estratégias incomuns de conservação transformam o Vale de Muga, nos Pireneus espanhóis, em laboratório de renaturalização que busca recuperar água, biodiversidade e funções ecológicas perdidas após décadas de exploração humana.
No alto dos Pireneus espanhóis, um projeto de renaturalização no Vale de Muga vem adotando uma estratégia que, à primeira vista, parece contraditória: derrubar árvores para recuperar uma floresta.
A iniciativa, conduzida pela fundação Pioneers of Our Time com apoio do Planet Wild, busca reverter décadas de degradação ambiental associada a um tipo de mata densa e uniforme, descrita por pesquisadores como um “deserto verde”, por quase não sustentar vida no sub-bosque e por comprometer o ciclo da água.
A proposta combina manejo florestal seletivo, reestruturação de trechos de mata e medidas para atrair aves necrófagas, como abutres, considerados peças-chave para o funcionamento do ecossistema.
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Segundo a própria campanha do Planet Wild, a missão financiou a reestruturação de 10 hectares de floresta e a instalação de cinco iscas em forma de bonecos para estimular o retorno dessas aves ao vale, além da marcação de dois indivíduos com GPS para monitoramento.
Floresta densa e empobrecida por séculos de exploração
À distância, o Vale de Muga pode parecer um refúgio preservado.
No entanto, a aparência engana, segundo os responsáveis pelo projeto.
A área foi moldada por séculos de exploração ligada à produção de carvão vegetal, que favoreceu uma regeneração repetida e, com o tempo, a formação de um bosque de carvalhos muito fechado, com pouca diversidade de plantas e pouca luz chegando ao chão.
Nesse tipo de cenário, a floresta continua “em pé”, mas perde funções básicas.
O sub-bosque fica pobre, o solo tende a se degradar e a água encontra mais dificuldade para infiltrar, alimentar nascentes e sustentar cursos d’água.
É por isso que, na apresentação do projeto, os responsáveis resumem o diagnóstico de forma direta: “Se você olhar para ela, parece saudável, mas na verdade não é. Está sob um grande estresse.”

Crise hídrica e impactos no rio Muga
A recuperação do vale ocorre em um contexto de pressão crescente sobre a água na Catalunha.
Nos últimos anos, a região enfrentou episódios de seca que levaram autoridades a decretar emergência hídrica em diferentes áreas, incluindo municípios abastecidos pelo aquífero Fluvià-Muga.
Em uma dessas medidas, 22 municípios voltaram ao modo de emergência por causa da estiagem, com restrições de consumo.
O impacto da falta de água também ficou visível no reservatório de Darnius-Boadella, ligado ao rio Muga.
Em fevereiro de 2024, a queda acentuada do nível do reservatório expôs por completo estruturas de uma antiga instalação industrial do século XVIII, a Royal Foundry of Sant Sebastià de la Muga, associada à produção de munição para canhões, que normalmente permanece submersa.
É nesse pano de fundo que o projeto no Vale de Muga insiste em uma ideia central: sem ajustar a forma como a floresta “segura” ou “perde” água, o rio enfraquece, os impactos da seca se intensificam e a paisagem fica mais vulnerável a incêndios.
Corte de árvores como estratégia de restauração ambiental
O método aplicado no vale não é de desmatamento total, mas de corte seletivo.
A lógica é abrir clareiras e reduzir a densidade do dossel, permitindo que mais luz e umidade cheguem ao solo.
Com isso, a vegetação rasteira tende a se recuperar, o solo ganha micro-habitats e o ciclo hidrológico pode melhorar, com água voltando a infiltrar e alimentar nascentes e córregos que sustentam o rio.
Na comunicação do Planet Wild sobre a missão, o grupo diz que a medida faz parte de um plano para “trazer o rio de volta” e reconstruir a saúde do solo e do sub-bosque.
A mesma campanha afirma que o cenário original, apesar de verde, funcionava como um “deserto verde” justamente por bloquear luz, sufocar o sub-bosque e sugar a água do terreno.
A iniciativa está inserida em uma operação maior.
A Pioneers of Our Time afirma atuar em 100 mil hectares no Vale de Muga, com uma área definida como laboratório vivo de 10 mil hectares para testar soluções de regeneração em escala de paisagem.
Retorno de espécies e equilíbrio ecológico
À medida que trechos do vale ficam mais abertos e com mais diversidade de microambientes, a expectativa é favorecer o retorno de animais que dependem de água e de corredores ecológicos mais funcionais.
Na descrição do Planet Wild, o processo já permitiu observar espécies como lontras e lagostins em áreas ligadas ao rio, além do registro de retorno de predadores e herbívoros, como lobos e veados.
Mesmo com essa recuperação, os organizadores afirmam que faltava um componente essencial para fechar os ciclos ecológicos: as aves necrófagas.
Importância dos abutres para a saúde ambiental
Abutres costumam ser vistos com desconfiança, mas são considerados fundamentais em muitos sistemas naturais.
Essas aves consomem animais mortos e reduzem a permanência de carcaças no ambiente.
Parte desse papel está ligada à capacidade de digerir materiais altamente contaminados.
Instituições de conservação descrevem que algumas espécies têm ácido estomacal extremamente forte, capaz de neutralizar microrganismos presentes em carne em decomposição.
Pesquisas internacionais também apontam que o colapso de populações de abutres pode ter efeitos indiretos sobre a saúde pública.
Estudos e análises sobre a Índia relacionam a queda dessas aves a alterações na dinâmica de descarte de carcaças e à piora de condições sanitárias em determinadas regiões.
No Vale de Muga, o Planet Wild afirma que os abutres haviam desaparecido da área e que a missão tenta apoiar o retorno dessas aves para recompor essa função ecológica.
Bonecos, iscas visuais e alimentação controlada
A estratégia mais incomum do projeto é o uso de iscas visuais.
A campanha descreve a instalação de cinco bonecos posicionados como chamarizes para atrair abutres, aves sociais que podem ser influenciadas pela presença de outros indivíduos ao escolher locais de pouso e nidificação.
“Acredite, há um método nessa loucura.”
Além dos bonecos, o plano inclui pontos de alimentação para oferecer uma vantagem inicial enquanto a cadeia alimentar natural se reestabelece.
O Planet Wild afirma ter estruturado estações de alimentação e implantado o rastreamento por GPS em dois animais para acompanhar deslocamentos e o processo de retorno ao vale.
Em uma publicação de divulgação ligada à mesma missão, o Planet Wild também afirma ter derrubado 10 mil árvores como parte da intervenção de manejo florestal.
Com o monitoramento em curso e a abertura de trechos da floresta, o objetivo declarado é que o vale volte a funcionar de forma mais resiliente, com água circulando, maior diversidade de habitats e espécies retornando sem depender indefinidamente de alimentação suplementar.
Se uma floresta pode parecer saudável e, ainda assim, falhar em sustentar água e biodiversidade, que outros desertos verdes podem estar escondidos em paisagens que hoje parecem intactas?


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