A NASA confirmou que o retorno da Artemis II à Terra acontece nesta sexta-feira, com pouso no oceano previsto para as 21h07 de Brasília na costa de San Diego. Os quatro astronautas enfrentam a reentrada atmosférica a 40 mil km/h, a fase mais perigosa da missão que levou humanos de volta à Lua após 53 anos.
A Lua nunca esteve tão perto de voltar ao centro da história humana quanto agora. Nesta sexta-feira (10), os quatro astronautas da missão Artemis II completam a etapa mais arriscada de sua viagem de 10 dias: a reentrada na atmosfera terrestre a aproximadamente 40 mil quilômetros por hora e o pouso no Oceano Pacífico. A cápsula Orion, batizada de Integrity pela tripulação, deve tocar a água por volta das 21h07 no horário de Brasília, na costa de San Diego, Califórnia, encerrando a primeira missão tripulada ao redor da Lua desde a Apollo 17, em 1972.
O que está em jogo não é apenas o retorno seguro de Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen. A reentrada é o teste definitivo do escudo térmico da Orion, um componente que apresentou problemas na missão não tripulada Artemis I em 2022. A NASA ajustou a trajetória de descida para reduzir a exposição ao calor extremo, mas reconhece que esta é a fase de maior risco de toda a missão. Seis minutos de apagão de comunicação, temperaturas de 2.700 graus Celsius e forças gravitacionais de até 3,9 vezes o peso normal do corpo tudo isso enquanto a Lua, que eles acabaram de contornar, fica para trás no retrovisor cósmico.
A volta pela Lua que quebrou um recorde de 55 anos
A Artemis II não é apenas a primeira missão tripulada ao redor da Lua em mais de meio século. Ela também estabeleceu um novo recorde absoluto de distância percorrida por seres humanos no espaço. Na segunda-feira (6), a cápsula Orion atingiu 406.777 quilômetros da Terra, superando em mais de 6 mil quilômetros a marca da Apollo 13, que desde 1970 detinha o recorde. O momento foi registrado às 14h57, horário de Brasília, enquanto a nave se aproximava da esfera de influência gravitacional da Lua.
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Durante o sobrevoo lunar, que durou cerca de seis horas, os astronautas observaram a olho nu regiões do lado oculto da Lua que nenhum ser humano havia visto antes sob a luz solar.
A nave chegou a apenas 6.545 quilômetros da superfície lunar uma proximidade que permitiu observações detalhadas de crateras e bacias que complementam décadas de dados obtidos por sondas não tripuladas. Jeremy Hansen, o astronauta canadense da missão, sugeriu batizar uma das crateras observadas de “Cratera Carroll”, em homenagem à falecida esposa do comandante Reid Wiseman. A passagem pelo lado oculto da Lua incluiu 40 minutos de completo silêncio de rádio, enquanto a massa lunar bloqueava todas as comunicações com a Terra.
O que acontece nas próximas horas antes do pouso
Segundo o portal da CBN, o último dia completo no espaço começou com a música “Run to the Water”, da banda Liveuma escolha adequada para uma tripulação que está a horas de pousar no oceano. Os astronautas iniciaram os preparativos finais para a reentrada, organizando a cabine da Orion, guardando equipamentos e ajustando os assentos para suportar as forças extremas da descida.
A NASA confirmou que as condições meteorológicas na zona de pouso estão dentro dos parâmetros aceitáveis.
Antes da reentrada propriamente dita, a cápsula Orion executará uma sequência precisa de manobras. Cerca de 42 minutos antes do splashdown, o módulo de serviço será descartado, deixando apenas a cápsula tripulada para enfrentar a atmosfera.
Por volta das 19h37, horário de Brasília, a Orion realizará uma queima de ajuste fino para posicionar a nave na atitude correta. Às 19h53, a cápsula entra na atmosfera a 122 quilômetros de altitude, iniciando uma descida de 13 minutos e 3.287 quilômetros até o ponto de pouso no Pacífico. A Lua, que durante seis horas dominou as janelas da cápsula, terá ficado definitivamente para trás.
Os seis minutos de silêncio que vão definir a missão
O momento mais tenso da descida será o apagão de comunicação previsto para durar aproximadamente seis minutos, a partir das 19h53. Quando a Orion atinge a atmosfera a 40 mil km/h, o ar à frente da cápsula se comprime com violência extrema, gerando uma camada de plasma a cerca de 2.700 graus Celsius temperatura superior à da lava vulcânica. Esse envelope de gás ionizado bloqueia todas as transmissões de rádio entre a nave e o controle da missão em Houston.
Durante esses seis minutos, os astronautas estarão completamente sozinhos. É nesse intervalo que o escudo térmico da Orion faz seu trabalho mais crítico, absorvendo e dissipando o calor por meio de um revestimento ablativo chamado Avcoat, que foi projetado para queimar e se desintegrar de forma controlada.
A tripulação experimentará forças de até 3,9 vezes a gravidade terrestre enquanto a cápsula desacelera violentamente. A NASA reconhece que este é o ponto de maior risco da missão e que, até que as comunicações sejam restauradas, não há como confirmar se tudo está correndo como planejado. A Lua, com toda sua beleza observada dias antes, ficará irrelevante se o escudo falhar.
Onze paraquedas entre os astronautas e o oceano
Depois de atravessar a atmosfera e emergir do apagão de comunicação, a Orion ainda estará viajando rápido demais para um pouso seguro. A partir desse ponto, uma sequência de 11 paraquedas será acionada em etapas precisas para desacelerar a cápsula de milhares de quilômetros por hora até modestos 32 km/h. O sistema inclui paraquedas de estabilização, freios aerodinâmicos e três paraquedas principais de grande porte.
Os primeiros paraquedas de estabilização se abrem a cerca de 6,7 quilômetros de altitude, por volta das 20h03. Os três paraquedas principais são liberados a aproximadamente 1,8 quilômetro do solo, reduzindo a velocidade da cápsula para a faixa segura de impacto com a água.
É o mesmo sistema testado na Artemis I, mas agora com quatro vidas humanas dependendo de cada costura e cada cabo. O pouso da Orion no Pacífico marcará o primeiro splashdown de uma cápsula tripulada vinda da Lua desde dezembro de 1972 quando os astronautas da Apollo 17 fizeram o mesmo trajeto que a Artemis II agora repete com tecnologia do século XXI.
O resgate no mar e o que vem depois da Lua
Assim que a Orion tocar a água, equipes da NASA e do Departamento de Defesa dos Estados Unidos entrarão em ação. O navio militar USS John P. Murtha estará posicionado na zona de pouso, acompanhado por helicópteros MH-60 Seahawk e uma equipe de elite de mergulhadores da Marinha. O plano é extrair os quatro astronautas da cápsula em até duas horas e transportá-los de helicóptero até o navio para exames médicos iniciais.
Após as avaliações a bordo do USS Murtha, a tripulação segue para o Centro Espacial Johnson, em Houston, no Texas, onde continuará o acompanhamento pós-missão.
A Artemis II é a primeira de uma série de missões que planejam devolver seres humanos à superfície da Lua.
A NASA prevê que a Artemis III, prevista para o início de 2028, incluirá manobras de acoplamento em órbita terrestre, enquanto a Artemis IV, no final de 2028, tentará pousar dois astronautas perto do polo sul lunar preparando o terreno para o que a agência espera que se torne uma presença humana sustentável na Lua.
Por que a Artemis II importa além do feito espacial
É tentador tratar o retorno da Artemis II como uma repetição da era Apollo com roupagem moderna. Mas a missão representa algo estruturalmente diferente. Pela primeira vez, a tripulação de um voo lunar inclui uma mulher (Christina Koch), uma pessoa negra (Victor Glover) e um astronauta canadense (Jeremy Hansen) um perfil de diversidade impensável nos anos 1960.
A missão de 10 dias testou sistemas de suporte de vida, navegação e proteção térmica que serão essenciais para todas as missões lunares futuras.
A Lua voltou a ser o destino declarado das agências espaciais do mundo, e a Artemis II é o passo que transforma esse plano em realidade operacional. O escudo térmico, os paraquedas, a trajetória de retorno livre e o splashdown oceânico tudo será validado ou questionado nas próximas horas.
Se os quatro astronautas emergirem da cápsula Orion sãos e salvos no Pacífico, a humanidade terá confirmado que possui a tecnologia para voltar à Lua e, eventualmente, ir além dela. O relógio marca a contagem regressiva: às 21h07 de Brasília, a resposta estará na água.
A Artemis II está a horas de completar a primeira viagem tripulada à Lua em mais de meio século. Você vai acompanhar o pouso ao vivo? Acredita que a humanidade deveria investir mais na exploração da Lua ou priorizar outros desafios aqui na Terra?
