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Eles cobriram o deserto da China com painéis solares para gerar energia, mas acabaram alterando a natureza: o “efeito colateral” impensável da megaobra chinesa que criou sombra, aumentou a umidade do solo e fez nascer vegetação suficiente até para alimentar rebanhos de “ovelhas fotovoltaicas”

Escrito por Ana Alice
Publicado em 26/02/2026 às 06:00
Assista o vídeoEstudo revela que parque solar em deserto da China alterou solo e microclima, com efeitos ambientais medidos por 57 indicadores. (Imagem: Ilustrativa)
Estudo revela que parque solar em deserto da China alterou solo e microclima, com efeitos ambientais medidos por 57 indicadores. (Imagem: Ilustrativa)
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Um parque solar de 1 GW em Qinghai, no oeste da China, entrou no centro de um estudo que mapeou mudanças no solo e no microclima em área desértica, com comparações entre faixas dentro e fora da instalação fotovoltaica.

Parque solar em Qinghai e impactos ambientais

Um parque solar de grande escala instalado no deserto de Talatan, na província de Qinghai, no oeste da China, passou a ser analisado também por possíveis efeitos ambientais no entorno, além da geração de eletricidade.

Um estudo publicado na revista Scientific Reports avaliou o complexo fotovoltaico de Gonghe e concluiu que a presença dos painéis está associada a mudanças em condições do solo e do microclima local, com indicadores ambientais melhores dentro da área diretamente ocupada pela usina do que em zonas próximas sem a mesma intervenção.

Na pesquisa, os autores analisam uma usina de cerca de 1 gigawatt no Qinghai Gonghe Photovoltaic Park e comparam três faixas: a área “on-site”, onde ficam as estruturas do parque; uma zona de transição; e uma área “off-site”, fora da influência direta do empreendimento.

Ao padronizar medições e aplicar um índice composto, o trabalho aponta um resultado central: a área do parque teve desempenho ambiental superior ao das faixas comparativas, ainda que a classificação geral atribuída ao local pelos pesquisadores não seja a mais alta dentro da escala usada no estudo.

Método DPSIR e os 57 indicadores analisados

Para avaliar impactos em um ambiente árido e de alta altitude, a equipe adotou a estrutura DPSIR, sigla em inglês para Força motriz, Pressão, Estado, Impacto e Resposta.

O modelo é empregado em avaliações ambientais para organizar relações entre atividade humana, alterações no ecossistema e respostas de gestão.

O artigo descreve a criação de um sistema com 57 indicadores para captar, de forma integrada, variações em clima local, solo, vegetação e componentes biológicos.

Entre os itens considerados, os pesquisadores listam medidas ligadas a temperatura e umidade do solo, condições do ar, características físicas e químicas do solo e parâmetros associados a comunidades vegetais e microbianas.

A área monitorada tem características específicas.

O estudo situa o parque em torno de 2.910 metros de altitude, em uma região descrita como deserto árido e pastagens semiáridas.

Os autores também registram médias climáticas de longo prazo, com temperatura anual em torno de 4,1 °C e precipitação anual de 246,3 mm, além de um patamar elevado de evaporação, típico de ambientes secos.

Sombra dos painéis, microclima e umidade do solo

O trabalho discute que a instalação altera a distribuição de energia na superfície e cria condições diferentes no microambiente.

Na prática, os painéis introduzem áreas de sombra recorrente e mudam a exposição do solo à radiação direta, fatores que podem influenciar evaporação, temperatura e retenção de água, conforme descrevem os pesquisadores.

Ao comparar as três faixas analisadas, os autores relatam um padrão: o conjunto de indicadores ambientais foi mais favorável no interior do parque do que nas zonas de transição e fora da área de influência.

No índice composto calculado, a área do empreendimento (WPS, na sigla do estudo) ficou em 0,4393, enquanto a zona de transição (TPS) marcou 0,2858 e a área externa (OPS) 0,2802.

Com base nesses resultados, o artigo afirma que os efeitos observados se concentraram principalmente em variáveis relacionadas ao microclima e a propriedades físicas e químicas do solo, além de indicadores ligados à diversidade de plantas e microrganismos.

A interpretação apresentada no estudo é que esse conjunto ajuda a explicar por que o desempenho na área do parque ficou acima das zonas comparadas.

Energia renovável e combate à desertificação na China

A instalação em Qinghai é descrita no estudo como parte de uma estratégia chinesa de expansão de energia renovável em regiões desérticas.

Em paralelo, autoridades e reportagens internacionais registram que o país também tem associado parte dessa expansão a políticas de contenção da desertificação, com projetos que buscam reduzir mobilidade de areia e degradação do solo.

Esse tipo de iniciativa costuma ser relacionado ao programa conhecido como “Três Nortes”, lançado em 1978 e planejado para seguir até 2050, voltado ao combate à desertificação em amplas áreas do norte do país.

O programa é citado em documentos e comunicados oficiais, além de relatórios e cobertura jornalística sobre reflorestamento e medidas de proteção do solo na China.

No caso de parques solares em áreas áridas, uma linha de argumentação presente em reportagens é que as estruturas podem atuar como barreiras contra vento e poeira e, em algumas situações, reduzir a evaporação do solo ao fornecer sombra.

Uma reportagem da Reuters sobre projetos desse tipo em regiões desérticas menciona que a combinação entre painéis e cultivo pode diminuir a perda de umidade e facilitar o estabelecimento de plantas adaptadas ao ambiente.

“Ovelhas fotovoltaicas” e uso do espaço sob os painéis

Além da análise acadêmica, a região de Gonghe aparece em reportagens e registros públicos como exemplo de uso do espaço entre fileiras de painéis para atividades de pastoreio.

Uma reportagem descreveu que milhares de ovelhas, apelidadas de “photovoltaic sheep”, circulam entre os painéis em áreas com vegetação baixa, em um modelo associado à gestão do terreno e à criação animal.

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A mesma reportagem atribui a um gestor local a avaliação de que a combinação de geração de energia e crescimento de capim sob as estruturas permitiu que moradores voltassem a conduzir rebanhos no local.

O trecho foi apresentado como uma fala sobre a coexistência de produção elétrica e uso do solo em um ambiente marcado por desertificação.

Ainda assim, o estudo da Scientific Reports não trata esse arranjo como balanço econômico ou política pública, e sim como um recorte de indicadores ecológicos e ambientais.

Por isso, os autores mantêm o foco nos resultados medidos e no método de comparação entre áreas com e sem influência direta do parque.

Monitoramento de longo prazo e variações entre desertos

Apesar de o índice composto indicar melhora relativa dentro da área do parque, o artigo ressalta que a avaliação reflete medições organizadas em um conjunto de indicadores e aplicadas a um recorte espacial específico.

Os autores defendem aprimorar respostas de gestão e manter monitoramento para entender como variáveis como água, solo e composição biológica se comportam ao longo do tempo em ambientes áridos submetidos a mudanças persistentes no microclima.

O texto também ressalta que resultados podem variar conforme condições locais e forma de implantação.

Fatores como topografia, regime de chuvas, vento, tipo de solo e manejo humano do entorno influenciam como um deserto responde a alterações de sombra e ventilação criadas pela infraestrutura, segundo a discussão apresentada no artigo.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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